Antipoema de Amor a Campinas
Senhoras e senhores:
Não esperem que eu fale de flores
ou que compare o sol de Campinas a um disco de ouro.
O sol aqui não é de ouro,
é um maçarico ligado no máximo em plena Barão de Jaguara
que derrete o asfalto e o juízo dos passantes.
Estou apaixonado?
Sim, admito, sou esse idiota.
Mas não me venham com liras.
Meu amor por Campinas tem cheiro de óleo diesel
e o som de um ônibus da linha 1.21 freando no seco.
Eu amo esta cidade como se ama uma tia solteirona
que fala alto, usa perfume barato
e tem um passado meio obscuro no Cambuí.
Amo o Balão do Castelo
— aquela roleta-russa de metal e fumaça —
onde os motoristas jogam a vida no bicho a cada curva.
Vejam bem a beleza do Terminal Central:
Aquele caos geométrico,
aquela sinfonia de gritos de vendedores de chip
e o cheiro de pão de queijo que sobrevive a qualquer bomba atômica.
Se isso não é o Jardim do Éden,
então o Éden é um lugar muito chato.
Dizem que as andorinhas sumiram.
Mentira!
Elas apenas trocaram as penas por jaquetas de couro
e agora trabalham como entregadores de aplicativo
subindo e descendo as ladeiras da Francisco Glicério.
Eu caminho pelo Taquaral
e sinto um desejo incontrolável de abraçar a Caravela.
Uma réplica de concreto que não navega,
num lago onde os peixes são filósofos céticos.
Isso é poesia, caramba!
O resto é literatura de cartório.
Campinas, minha velha:
Você é feia, é quente, o trânsito é um inferno
e ninguém sabe direito onde termina o seu centro.
Mas eu te amo
com o desespero de um detetive que perdeu a pista,
ou de um poeta que esqueceu o próprio nome
na fila do bandejão da Unicamp.
Podem ficar com Paris,
podem levar Veneza num pote de geleia.
Eu fico aqui,
tomando um suco de milho no meio do nada,
esperando a chuva de granizo que nunca vem,
terrivelmente vivo,
terrivelmente campineiro.
Nota do Antipoeta: O autor não se responsabiliza por pneus furados em buracos nem por insolações adquiridas no Largo do Rosário.
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