Debaixo da tamargueira antiga
— raiz que bebeu promessas e areia —
Abraão contou estrelas
como quem soma dívidas a Deus.
Ali dormiu o anjo e o cutelo,
ali o cordeiro aprendeu a esperar,
e a fé, velha usurária,
cobrou juros de sangue e silêncio.
Ó árvore magra,
coluna sem templo,
teu tronco sustenta dois céus inimigos
com a mesma sombra avara.
Cristo passa em teu pó
como rumor de cruz futura,
enquanto o muezim — ainda não nascido —
já afia no vento o seu chamado.
És cristã pela ferida,
moura pela paciência,
batizada em lágrimas
e lavada cinco vezes pelo sol.
Em teus galhos penduram-se pactos,
versículos, facas e rosários;
Deus ali aprende a dividir-se
sem jamais se repartir.
Quevedo diria:
toda fé é sede elegante,
todo altar, uma mesa mal posta
onde a morte sempre come primeiro.
Abraão negociou com o infinito
como mercador de carne e esperança:
deu o filho em caução,
recebeu um mito em troca.
E tu, tamargueira, ris de tudo,
porque sabes:
nenhuma língua reza melhor
do que a sombra quando cala.
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