segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Tamargueira de Abraão


Debaixo da tamargueira antiga
— raiz que bebeu promessas e areia —
Abraão contou estrelas
como quem soma dívidas a Deus.

Ali dormiu o anjo e o cutelo,
ali o cordeiro aprendeu a esperar,
e a fé, velha usurária,
cobrou juros de sangue e silêncio.

Ó árvore magra,
coluna sem templo,
teu tronco sustenta dois céus inimigos
com a mesma sombra avara.

Cristo passa em teu pó
como rumor de cruz futura,
enquanto o muezim — ainda não nascido —
já afia no vento o seu chamado.

És cristã pela ferida,
moura pela paciência,
batizada em lágrimas
e lavada cinco vezes pelo sol.

Em teus galhos penduram-se pactos,
versículos, facas e rosários;
Deus ali aprende a dividir-se
sem jamais se repartir.

Quevedo diria:
toda fé é sede elegante,
todo altar, uma mesa mal posta
onde a morte sempre come primeiro.

Abraão negociou com o infinito
como mercador de carne e esperança:
deu o filho em caução,
recebeu um mito em troca.

E tu, tamargueira, ris de tudo,
porque sabes:
nenhuma língua reza melhor
do que a sombra quando cala.

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