sábado, 27 de dezembro de 2025

Soneto do Absurdo


Sou lama pensativa em febre e treva,
Um cálculo sem Deus, sem finalidade,
Carrego no meu sangue a atrocidade
De existir como erro que se eleva.

A carne pensa e apodrece — eis a prova
De que o sentido é um mito em decomposição;
Viver é apenas química em tensão,
Um grito inútil na matéria nova.

Não há destino, só a dor que insiste,
Nem céu, nem culpa, nem perdão divino:
O homem é um acaso que persiste.

E a alma — se há — é um gás clandestino
Que sofre, busca, nega e não desiste
De ser absurdo até o fim do hino.

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