Não escrevo pra viver.
Pra mim, viver basta —
feito água que segue sem perguntar ao chão.
Escrevo porque a mão coça de mundo
e o peito quer dizer sem saber.
Escrevo e não uso isso
pra sonhar.
Sonho é bicho que corre solto,
não cabe em papel sem se ferir.
Lá fora o mundo é barra pesada,
pedra com dente,
estrada que morde.
Ficar escondidinho no quarto
é terrível —
sei, covardia miúda,
mas às vezes a coragem
também se recolhe pra não morrer cedo.
O mundo lá fora tem armas,
olhos duros, pressas afiadas.
Eu não tenho aço nem pólvora,
nem escudo que aguente a brutalidade do dia.
A única coisa que tenho
é um coração
feito de palavras.
Coração falante,
meio torto, meio bicho-do-mato,
que sangra letra quando aperta
e aprende a bater
no compasso do indizível.
Com ele enfrento o caminho,
sem vencer, sem perder —
indo.
Porque palavra, quando é viva,
também anda.
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