domingo, 14 de dezembro de 2025

CORAÇÃO DE PALAVRAS


Não escrevo pra viver.

Pra mim, viver basta —

feito água que segue sem perguntar ao chão.

Escrevo porque a mão coça de mundo

e o peito quer dizer sem saber.


Escrevo e não uso isso

pra sonhar.

Sonho é bicho que corre solto,

não cabe em papel sem se ferir.


Lá fora o mundo é barra pesada,

pedra com dente,

estrada que morde.

Ficar escondidinho no quarto

é terrível —

sei, covardia miúda,

mas às vezes a coragem

também se recolhe pra não morrer cedo.


O mundo lá fora tem armas,

olhos duros, pressas afiadas.

Eu não tenho aço nem pólvora,

nem escudo que aguente a brutalidade do dia.


A única coisa que tenho

é um coração

feito de palavras.


Coração falante,

meio torto, meio bicho-do-mato,

que sangra letra quando aperta

e aprende a bater

no compasso do indizível.


Com ele enfrento o caminho,

sem vencer, sem perder —

indo.

Porque palavra, quando é viva,

também anda.


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