terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A ÚLTIMA POETA DA RUA SÃO CLEMENTE


ela escrevia poemas como quem arranca o próprio sangue com a unha.
jovem, judia, filha de sobreviventes — sabia que a história sempre termina em alguma espécie de claustro.
por isso não se assustou quando a ditadura fechou o país como uma porta de ferro.

rio de janeiro, 1972.
o ar cheirava a medo e gasolina.
ela andava pela rua são clemente repetindo versos de paul celan, como quem conversa com um fantasma.

foi nessa época que conheceu urias, estudante de história, que falava rápido demais e fumava cigarros baratos.
ele disse que ela tinha olhos de quem vê coisas antes dos outros.
ela respondeu que isso não era elogio — era condenação.

naquela noite, no quarto apertado dela em botafogo, a cidade toda parecia recolhida num silêncio suspeito.
ela disse, com a voz de alguém que já saltou mas ainda não caiu:
— urias, eu estou cansada.
não desse jeito comum.
cansada como parede velha.
cansada até o osso.

ele entendeu o que ela não disse.
segurou o rosto dela com as duas mãos e falou duro, sem poesia, sem consolo:
— você não vai fazer isso.
não vai dar esse presente pra esses filhos da puta.
eles querem corpos quietos.
querem silêncio.
não entrega isso pra eles.

ela chorou como se estivesse tentando tirar água de um poço seco.

passaram dias.
talvez semanas.
a poesia voltou, mas torta, quebrada, respirando por aparelhos.
ela escrevia sobre desertos, fronteiras, pássaros queimados.
falava de uma terra distante onde todos os nomes tinham poeira dentro.

um dia, deixou um bilhete.
duas linhas:
“urias, vou à palestina procurar o que perdi aqui. volto quando souber meu nome.”

ele foi ao aeroporto, correu por delegacias, hospitais, embaixadas, sinagogas pequenas escondidas no centro.
ninguém sabia nada.
ninguém viu nada.
ninguém ouviu nada.

o mundo seguia como se ela nunca tivesse existido.

ano após ano, urias guardou o bilhete dobrado dentro da carteira.
lia às vezes, no bar, entre um gole e outro, como quem tenta decifrar um crime sem pistas.

alguns diziam que ela morreu em algum lugar do deserto.
outros, que se apaixonou por outra vida e esqueceu a antiga.
mas urias tinha outra teoria, e só dizia quando estava muito bêbado:

— poeta não desaparece.
poeta vira silêncio.
e o silêncio dela ainda está comigo.

e então acendia um cigarro, encarava a noite e repetia:
— se ela voltar, eu reconheço.
mesmo no escuro.
mesmo sem nome.

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