Oh, maçã vermelha, rubi suspenso e redondo no ramo verde da tarde, teu fulgor me consome. Tu és o desejo que a mão jamais toca por medo de desmanchar a arquitetura do teu nome.
Assim é teu corpo, amada, firme e calmo como a esfera que a gravidade beija. Em ti reside a promessa de um sabor proibido e a doce eternidade que a minha boca almeja.
Teu perfume não é só aroma; é o anúncio da polpa secreta que a sombra paciente guarda, onde o sumo é a lágrima de um sol que se escondeu e o instante em que a vida, subitamente, se farda de um silêncio que só a paixão, selvagem e crua, pode entender no meio da mais alta rua.
Não te quero para a cesta ou para a mesa fútil. Eu te quero como o naufrágio busca o fundo do mar, com a violência de um raio que rasga o céu inútil, para cravar meus dentes e o tempo parar.
Que me importam as leis da colheita e do outono? Tu és o único fruto, a única lei que existe. Deixa-me ser o vento que te faz dançar o sono, e a terra escura onde tua doçura persiste.
Em cada veia tua, em cada curva perfeita, eu encontro o mapa exato de todo o meu destino. Oh, vermelha maçã, que meu amor não desfeita! Sejamos, tu e eu, o vinho, o pão e o espinho.
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