segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O peixe

em memória de Heinrich Böll


O peixe
não argumenta.

Ele permanece
no aquário irregular do mundo,
escamas como parênteses,
olhos atentos ao mínimo desvio da água.

Nada em ângulos precisos,
recusa o excesso,
aceita apenas o que sustenta
a corrente.

Há um momento, porém,
em que o peixe vira o corpo
— leve inclinação,
quase nada —
e nisso diz tudo.

Protestar é quando digo que isto não me agrada.

Não há grito.
Há postura.
A ética da guelra
é uma recusa silenciosa
ao anzol dourado.

O peixe sobrevive
porque sabe:
nem toda isca merece
movimento.

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