Ele tinha sessenta anos e o coração cansado, mas não doía. Doía antes, quando era jovem. Agora era só peso. Pensava nela quando o quarto ficava quieto. Pensava como quem olha o mar sem esperar peixe.
Ela tinha dezenove anos quando se conheceram. Ria fácil. Ele gostava disso e não dizia. Encontraram-se num verão seco. A cidade era pequena e o calor deixava tudo mais lento, até as palavras. Ele aprendeu o rosto dela aos poucos. As mãos, primeiro. Depois a voz, que era firme.
Falavam pouco. Caminhavam muito. O amor parecia suficiente assim. No dia em que ele iria pedir em casamento, saiu cedo. O anel estava no bolso.
Houve um caminhão na estrada. Houve chuva fora de hora. Houve silêncio depois. Disseram-lhe no hospital. Ele ouviu como quem aprende uma língua nova. Ele guardou o anel numa caixa. Nunca mais abriu.
Nunca contou essa história inteira a ninguém. Não havia vantagem em fazê-lo.
Casou-se depois. Viveu bem. Teve filhos. Trabalhou duro.
Agora o corpo falhava. A respiração vinha curta, como um motor antigo.
Pensou que talvez fosse reencontrá-la. Não como antes, mas o suficiente. Não era esperança. Era descanso.
Sentiu-se contente por sentir a morte se aproximar. Como quem vê um amigo vindo pela estrada. O passado do amor estava completo. E ele fechou os olhos sem medo.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
O passado do amor
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