Não foi o Reno, nem a cinza
das florestas alemãs que lhe guiaram o pulso,
mas o Tigre — lâmina líquida —
onde o sol se desfaz em ouro doente.
Grünewald chegou a Bagdá
como quem troca o altar pelo incêndio,
trazendo nos olhos o Cristo retorcido
e nas mãos o vício da cor em agonia.
Ali, as muralhas falavam em ocre,
as cúpulas rezavam em azul incendiado,
e o mercado era um coro de romãs abertas
sangrando perfumes e blasfêmias.
Ó cidade onde o pó é luz cansada,
onde a sombra tem sabor de tâmaras,
ele aprendeu que o vermelho não é ferida,
mas véu — e o véu, promessa.
Pintou mulheres como quem aprende um novo pecado:
quadris em crescente lunar,
olhos que carregavam a noite inteira
e bocas onde o silêncio ardia mais que vinho.
E pintou homens —
bronze vivos, músculos como versículos,
barbas onde o tempo se enroscava
feito serpente mansa e antiga.
Perdeu-se.
Não na luxúria fácil, mas na vertigem:
cada cor lhe exigia a alma inteira,
cada rosto o despia de sua Europa.
O amarelo virou febre,
o azul, um grito contido,
o verde — impossível na sua pátria —
ressuscitou como milagre profano.
Grünewald esqueceu o martírio
porque Bagdá lhe ensinou outro:
amar o excesso,
sofrer de beleza até o osso.
E quando voltou — se voltou —
trazia nas telas um Oriente indizível,
onde Cristo tinha olhos árabes
e a dor aprendia a dançar.
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