quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A apologia do volume

Os anos oitenta desceram do sótão

com seus sprays de laca e promessas de altura.

Todo mundo quer cachos volumosos,

nuvens rebeldes desafiando a gravidade e o espelho,

como se o cabelo pudesse conter

o excesso de alma que a época reclama.

E a cabeça cresce, espicha, espraia-se no vento,

uma floresta emaranhada de molas e lembranças.

O espelho reflete um leão doméstico,

alguém que tenta ocupar mais espaço no mundo

sacudindo os caracóis contra o teto baixo dos dias.


Mas por dentro da juba, o pensamento continua liso,

prudente e reto, buscando o rumo de casa

enquanto os cachos armam sua revolução de mentira

na esquina de qualquer espelho moderno.

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