domingo, 6 de setembro de 2026

Na penumbra da praça - conto

 

Na penumbra da praça, o vento cortante da cidade batia nos dentes. Ela estava encostada no tronco da árvore, a perna longa de fora na fenda do vestido verde-limão, a cabeleira ruiva pegando fogo sob a luz amarela do lampião. O homem aproximou-se com o passo incerto de quem pede desculpas por existir. Parou a dois palmos, farejando o cheiro barato de jasmim misturado com fumaça de cigarro.

— Quanto? — perguntou ele, a voz seca raspando no vento.

Ela tragou o cigarro, a brasa acesa iluminando o batom borrado, e mediu-o de cima a baixo com um desdém antigo, de quem já viu a alma de muita gente e achou todas elas baratas.

— Depende do que sobrou de você, meu bem. O resto é tabela fixa.

Caminharam em silêncio até o quarto de cortina mofada na rua da rua sexualizada. No espelho embaçado do armário, os dois pareciam espectros mal desenhados. Ela tirou a peruca ruiva de uma vez só, jogando-a sobre a bacia de águas sujas, revelando o crânio raspado e os olhos duros como vidro de farmácia.

— Vai ficar olhando ou vai me usar? — rosnou ela, abrindo o zíper da calça com um gesto mecânico, sem nenhuma promessa de carinho.

Ele a olhou deitado na cama de molas rangentes, sentindo o gosto de fel na boca. Nenhuma ternura, nenhum salvamento. Apenas os dois mastigando a solidão da noite brasileira até o dia clarear cinzento e mudo.

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