terça-feira, 10 de março de 2026

O Mapa da Carne e o Arcanjo de Alecrim

 

O Mapa da Carne e o Arcanjo de Alecrim

      Muitos anos depois, diante do tribunal da sua própria memória, Ezra haveria de recordar aquela tarde remota em que o seu desejo, até então um animal enjaulado em silêncio, o levou a perder-se nos labirintos vegetais de Campinas. A floresta não era um lugar de árvores comuns; era um exército de fustes verticais, colunas de seiva que desafiavam o céu com uma geometria obscena e fálica, erguendo-se da terra como se a própria natureza estivesse em um estado de perpétua e rígida ereção.

       No epicentro desse silêncio clorofílico, onde o tempo parecia ter esquecido de passar, Ezra encontrou a visão que mudaria o seu destino. Não era um homem, nem uma estátua, mas um Arcanjo Negro de uma nudez absoluta e monumental. Suas coxas tinham a cor e a textura da canela em pau, exalando um calor que parecia vir do centro da terra, e seu corpo, ao ser tocado pela luz filtrada, desprendia o perfume acre e purificador do alecrim colhido ao meio-dia.

O encontro não teve o peso do pecado, mas a solenidade de um ritual antigo. Houve uma troca de preces carnais sob a copa das árvores cúmplices. O Arcanjo, com a autoridade de quem governa os ventos, exigiu as adorações da boca, e Ezra, em um transe de libertação, ofereceu a sua própria geografia sagrada, entregando-se ao domínio daquele ser de ébano. No auge do sacramento, quando o Arcanjo depositou nele a semente da sua linhagem divina, Ezra sentiu que o mundo finalmente fazia sentido: o gosto do êxtase era uma mistura de mel amargo e relâmpago.

         Antes de evaporar-se como uma miragem de calor, o Arcanjo estendeu-lhe um pergaminho que parecia pulsar com vida própria.

— Este é o itinerário das vastidões da luxúria — sentenciou a voz, que soava como pedras rolando em um rio profundo. — Tu me encontrarás onde a vergonha não tem nome.

Então, com um bater de asas que cheirava a tempestade e ervas finas, o Arcanjo desapareceu. Ezra caminhou de volta à civilização, guiado por um novo sol interno, guardando no bolso o mapa de um mundo onde o amor não precisava de sótãos nem de máscaras.

 

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