segunda-feira, 9 de março de 2026

A chuva da puta sobre mim




     Chico chegou ao bordel com o casaco ainda pingando chuva. O cheiro de cigarro barato e desinfetante cortava o ar, mas ele só conseguia pensar no perfume dela — jasmim e óleo de coco, um cheiro que já não existia há dois anos.  

 

— Quero as negras — ele disse, sem olhar para o dono do lugar.  

 A sala tinha paredes descascadas e um sofá manchado. Quando as mulheres entraram, três delas, todas com olhares que iam do tédio à curiosidade, Chico já estava de joelhos no chão de ladrilho frio.  

 

— É hoje que vocês vão me lembrar dela — sussurrou, puxando a calça para baixo.  

 A primeira cuspiu nele. A segunda riu. A terceira, mais velha, com cicatrizes nos seios e uma tatuagem desbotada no quadril, ergueu a saia e mirou.  

 

— Fecha os olhos, romeno — ela ordenou.  

 Ele obedeceu. E quando o jorro quente acertou seu peito, Chico finalmente sentiu o que não sentia desde o funeral: o alívio de não estar sozinho.  

 

Chico adentrou o recinto carregando nos ombros o peso de uma chuva que parecia cair desde o início dos tempos. O casaco, fustigado pelo rigor das águas, gotejava sobre o assoalho como um relógio que marca o fim das esperanças. Ali, naquele enclave de prazeres negociados, o ar era uma amálgama de fumo barato e o aroma estéril dos desinfetantes, mas o seu olfato, traído pela saudade, buscava apenas o espectro do jasmim e a oleosidade do coco — uma fragrância que a terra já havia devorado há dois invernos.

— Reclamo a presença das filhas de África — sentenciou ele, sem dirigir o olhar ao mercador de corpos, como se sua voz emanasse de uma tumba antiga.

A sala, com suas paredes descascadas como peles em suplício e um mobiliário que guardava o mapa de infinitas fadigas, tornou-se o palco de uma cerimônia inominável. Quando as três mulheres cruzaram o umbral, trazendo em suas faces a alternância entre o tédio soberano e uma curiosidade quase antropológica, Chico já havia abdicado da verticalidade humana. Ajoelhado sobre o ladrilho gélido, ele buscava no chão a humildade dos que imploram por um milagre.

— Hoje, vós sereis o meu espelho e a minha memória — sussurrou, enquanto despojava-se das vestes que o protegiam do mundo, expondo a sua própria nudez como uma oferta ao sacrifício.

A primeira, num gesto de desdém que era também uma afirmação de poder, marcou-o com a saliva. A segunda, com o riso de quem conhece a fragilidade dos homens, escarneceu da sua devoção. Mas a terceira, a matriarca daquela alcova, que trazia nos seios as cicatrizes de batalhas que a história não ousou registrar e no quadril uma tatuagem que o tempo já desbotara, compreendeu a natureza do rito. Erguendo a saia com a solenidade de quem descortina um altar, ela emitiu o comando final:

— Cerra as pálpebras, romeno. Mergulha na tua própria escuridão.

Ele obedeceu, entregando-se ao domínio do invisível. E quando o jorro cálido e vital atingiu-lhe o peito, lavando a poeira da solidão, Chico sentiu, enfim, a reconciliação com o que havia perdido. Naquela comunhão de fluidos e sombras, ele não era mais o náufrago de um funeral; era, por um breve e sagrado instante, um homem que voltava a habitar o território dos vivos.

 


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