segunda-feira, 9 de março de 2026

A Anatomia do Abismo

 


Lá fora, a percussão seca do tiroteio já não feria os tímpanos de Roberto; era apenas a trilha sonora de uma cidade que apodrecia em vida. Ele mantinha os olhos fixos nas fibras cinzentas de um jornal velho, um esforço inútil para ancorar sua consciência na banalidade, enquanto o reflexo na janela insistia em lhe devolver a imagem do abismo.

Novamente, Larissa.

Do parapeito do prédio fronteiriço, ela se projetava contra o céu turvo como uma oferenda distorcida. O tecido ínfimo da calcinha rosa era uma mancha de cor artificial sobre a pele pálida, e seus seios, pesados e indiferentes, oscilavam ao ritmo de uma respiração carregada de nicotina. Roberto sentiu uma saliva espessa travar-lhe a garganta. Pelo terceiro dia, o ritual da exposição se repetia — uma coreografia de janelas abertas que ignorava a decência da clausura.

— Ei, meu bicho... — a voz dela atravessou o fosso entre os edifícios, melancólica e pegajosa como resina. — Vai continuar me devorando com essa visão de cadáver ou virá me oferecer um simulacro de bom dia?

O impacto das palavras quase o derrubou da cadeira, uma vertigem física que denunciava sua fragilidade. Antes que o silêncio de Roberto se solidificasse, Larissa emitiu um riso gutural. Com um gesto que mesclava desdém e revelação, ela afastou o cetim rosa. Ali, emergindo da carne que ele julgava conhecer, manifestou-se um membro túmido e vibrante, uma interrupção fálica que subvertia a lógica do seu desejo.

— Uma pequena surpresa para a sua solidão — sussurrou ela, os dentes cravados no lábio inferior. — Eu senti a rigidez da sua carne através do vidro. Quer provar da minha verdade?

O interior do apartamento de Larissa era um receptáculo de odores conflitantes: o perfume sintético e caro lutando contra o cheiro animal de secreções antigas. Sem preâmbulos, ela o subjugou contra o sofá. Roberto sentiu a umidade dela — uma secreção que parecia o suor de uma febre — antes mesmo que ela se ajoelhasse.

— Devore-me como um animal que reconhece seu dono — ela ordenou, os dedos enterrados no couro cabeludo dele com uma força que beirava a violência.

Roberto sucumbiu. Sua língua, agora um instrumento de exploração cega, percorria a textura pulsante que preenchia sua boca. Era um sabor de sal e de urgência existencial. Larissa emitia gemidos que pareciam protestos contra a própria carne, enquanto suas mãos buscavam o sexo dele com uma voracidade que despojava Roberto de qualquer resto de vontade.

Enredaram-se em um 69 úmido e frenético, dois corpos marginais tentando preencher o vazio com fluidos. O ápice veio simultaneamente, uma explosão de sêmen que manchou a língua dele e os seios dela — um batismo de substâncias brancas e viscosas que, por um instante, silenciou o caos externo.

— Todos os dias — disse Larissa, mais tarde, enquanto seus dedos traçavam as linhas do rosto de Roberto como se estivesse lendo um mapa de ruínas. — Serei a sua ferida particular.

Lá fora, os tiros continuavam a ecoar, pontuando a indiferença do mundo diante daquela pequena e suja comunhão humana.

 

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