Lá fora,
a percussão seca do tiroteio já não feria os tímpanos de Roberto; era apenas a
trilha sonora de uma cidade que apodrecia em vida. Ele mantinha os olhos fixos
nas fibras cinzentas de um jornal velho, um esforço inútil para ancorar sua
consciência na banalidade, enquanto o reflexo na janela insistia em lhe
devolver a imagem do abismo.
Novamente,
Larissa.
Do
parapeito do prédio fronteiriço, ela se projetava contra o céu turvo como uma
oferenda distorcida. O tecido ínfimo da calcinha rosa era uma mancha de cor
artificial sobre a pele pálida, e seus seios, pesados e indiferentes, oscilavam
ao ritmo de uma respiração carregada de nicotina. Roberto sentiu uma saliva
espessa travar-lhe a garganta. Pelo terceiro dia, o ritual da exposição se
repetia — uma coreografia de janelas abertas que ignorava a decência da
clausura.
— Ei, meu
bicho... — a voz dela atravessou o fosso entre os edifícios, melancólica e
pegajosa como resina. — Vai continuar me devorando com essa visão de cadáver ou
virá me oferecer um simulacro de bom dia?
O impacto
das palavras quase o derrubou da cadeira, uma vertigem física que denunciava
sua fragilidade. Antes que o silêncio de Roberto se solidificasse, Larissa
emitiu um riso gutural. Com um gesto que mesclava desdém e revelação, ela afastou
o cetim rosa. Ali, emergindo da carne que ele julgava conhecer, manifestou-se
um membro túmido e vibrante, uma interrupção fálica que subvertia a lógica do
seu desejo.
— Uma
pequena surpresa para a sua solidão — sussurrou ela, os dentes cravados no lábio
inferior. — Eu senti a rigidez da sua carne através do vidro. Quer provar da
minha verdade?
O
interior do apartamento de Larissa era um receptáculo de odores conflitantes: o
perfume sintético e caro lutando contra o cheiro animal de secreções antigas. Sem
preâmbulos, ela o subjugou contra o sofá. Roberto sentiu a umidade dela — uma
secreção que parecia o suor de uma febre — antes mesmo que ela se ajoelhasse.
—
Devore-me como um animal que reconhece seu dono — ela ordenou, os dedos
enterrados no couro cabeludo dele com uma força que beirava a violência.
Roberto
sucumbiu. Sua língua, agora um instrumento de exploração cega, percorria a
textura pulsante que preenchia sua boca. Era um sabor de sal e de urgência
existencial. Larissa emitia gemidos que pareciam protestos contra a própria
carne, enquanto suas mãos buscavam o sexo dele com uma voracidade que despojava
Roberto de qualquer resto de vontade.
Enredaram-se
em um 69 úmido e frenético, dois corpos marginais tentando preencher o
vazio com fluidos. O ápice veio simultaneamente, uma explosão de sêmen que
manchou a língua dele e os seios dela — um batismo de substâncias brancas e
viscosas que, por um instante, silenciou o caos externo.
— Todos
os dias — disse Larissa, mais tarde, enquanto seus dedos traçavam as linhas do
rosto de Roberto como se estivesse lendo um mapa de ruínas. — Serei a sua
ferida particular.
Lá fora,
os tiros continuavam a ecoar, pontuando a indiferença do mundo diante daquela
pequena e suja comunhão humana.
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