O Mapa da Carne e o Arcanjo de Alecrim
Muitos anos depois, diante do tribunal da sua própria
memória, Ezra haveria de recordar aquela tarde remota em que o seu desejo, até
então um animal enjaulado em silêncio, o levou a perder-se nos labirintos
vegetais de Campinas. A floresta não era um lugar de árvores comuns; era um
exército de fustes verticais, colunas de seiva que desafiavam o céu com uma
geometria obscena e fálica, erguendo-se da terra como se a própria natureza
estivesse em um estado de perpétua e rígida ereção.
No epicentro desse silêncio clorofílico, onde o tempo
parecia ter esquecido de passar, Ezra encontrou a visão que mudaria o seu
destino. Não era um homem, nem uma estátua, mas um Arcanjo Negro de uma nudez
absoluta e monumental. Suas coxas tinham a cor e a textura da canela em pau,
exalando um calor que parecia vir do centro da terra, e seu corpo, ao ser
tocado pela luz filtrada, desprendia o perfume acre e purificador do alecrim
colhido ao meio-dia.
O encontro não teve o peso do pecado, mas a solenidade
de um ritual antigo. Houve uma troca de preces carnais sob a copa das árvores
cúmplices. O Arcanjo, com a autoridade de quem governa os ventos, exigiu as
adorações da boca, e Ezra, em um transe de libertação, ofereceu a sua própria
geografia sagrada, entregando-se ao domínio daquele ser de ébano. No auge do
sacramento, quando o Arcanjo depositou nele a semente da sua linhagem divina,
Ezra sentiu que o mundo finalmente fazia sentido: o gosto do êxtase era uma
mistura de mel amargo e relâmpago.
Antes de evaporar-se como uma miragem de calor, o
Arcanjo estendeu-lhe um pergaminho que parecia pulsar com vida própria.
— Este é o itinerário das vastidões da luxúria —
sentenciou a voz, que soava como pedras rolando em um rio profundo. — Tu me
encontrarás onde a vergonha não tem nome.
Então, com um bater de asas que cheirava a tempestade e
ervas finas, o Arcanjo desapareceu. Ezra caminhou de volta à civilização,
guiado por um novo sol interno, guardando no bolso o mapa de um mundo onde o
amor não precisava de sótãos nem de máscaras.
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