Na penumbra da praça, o vento cortante da cidade
batia nos dentes. Ela estava encostada no tronco da árvore, a perna longa de
fora na fenda do vestido verde-limão, a cabeleira ruiva pegando fogo sob a luz
amarela do lampião. O homem aproximou-se com o passo incerto de quem pede
desculpas por existir. Parou a dois palmos, farejando o cheiro barato de jasmim
misturado com fumaça de cigarro.
— Quanto? — perguntou ele, a voz seca raspando no vento.
Ela tragou o cigarro, a brasa acesa iluminando o batom
borrado, e mediu-o de cima a baixo com um desdém antigo, de quem já viu a alma
de muita gente e achou todas elas baratas.
— Depende do que sobrou de você, meu bem. O resto é
tabela fixa.
Caminharam em silêncio até o
quarto de cortina mofada na rua da rua sexualizada. No espelho embaçado do
armário, os dois pareciam espectros mal desenhados. Ela tirou a peruca ruiva de
uma vez só, jogando-a sobre a bacia de águas sujas, revelando o crânio raspado
e os olhos duros como vidro de farmácia.
— Vai ficar olhando ou vai me usar? — rosnou ela,
abrindo o zíper da calça com um gesto mecânico, sem nenhuma promessa de
carinho.
Ele a
olhou deitado na cama de molas rangentes, sentindo o gosto de fel na boca.
Nenhuma ternura, nenhum salvamento. Apenas os dois mastigando a solidão da
noite brasileira até o dia clarear cinzento e mudo.
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