segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Meshugá e os Ossos do Jantar - conto de realismo mágico

 

            O vento que descia a serra em direção ao interior paulista trazia um cheiro pesado de terra molhada e cana esmagada, mas na garganta de Meshugá o que descia era só aguardente barata. Ele andava tropeçando nas próprias botinas pelo acostamento daquela rodovia sem nome, rindo sozinho dos tombos que levava da própria sombra.

            Foi bem na curva onde o asfalto sumia num breu sem fim que o mundo de Meshugá estalou. Não foi barulho de motor. Foi um coro seco, como se milhares de gravetos estivessem quebrando ao mesmo tempo sob o peso do sereno.

                Ele parou, piscou os olhos embaçados pela cachaça e olhou para o chão. A estrada inteira estava branca. Não era cal, não era neblina. Eram ossos. Fêmures, costelas, crânios riscando o asfalto como se procurassem o rumo de casa.

    Qualquer outro homem teria corrido rezando o que lembrava do catecismo. Mas Meshugá, com o juízo virado do avesso pelo álcool e por uma solidão antiga que ele trazia no peito, abriu um sorriso banguela, ajeitou o chapéu sujo de poeira e deu um tapinha na própria perna, como quem chama um cachorro perdido:

— Ô, meu velho! Vai ficar aí mofando no relento? Levanta daí, sô! O dia tá feio e a patroa fez um frango com ora-pro-nóbis que tá uma perdição. Vamo simbora jantar, rapaz!

        O osso maior — um fêmur comprido, lustroso e limpinho — estalou de leve e deu o primeiro passo. Atrás dele, o esqueleto inteiro foi se montando no escuro, juntando as juntas com um barulho de castanhola. E assim, de braço dado com a morte em forma de esqueleto, Meshugá entrou em casa rindo alto, cambaleando na varanda.

            Na mesa da cozinha, sob a luz amarela da lamparina, a cena se repetiu no dia seguinte. E no outro. E em todos os dias que vieram depois.

O morto — que nunca disse o nome, mas que mastigava de boca fechada e guardava os palitos com elegância — sentava-se pontualmente às sete da noite na cadeira da ponta. A carne não tinha, mas o apetite era de peão de lida. O esqueleto comia o tutu de feijão que escorria pelas costelas vazias, bebia a pitu que fazia chiado no assoalho e, no fim, ainda batia os dentes numa risada oca que fazia a louça da cristaleira vibrar.

        A vizinhança começou a cochichar pelos cantos de São João da Boa Vista ou de qualquer lugarejo daqueles. Diziam que a casa de Meshugá fedia a crisântemo e cera de vela velha. Mas o pior não era o cheiro. Era o incômodo de ter um defunto folgado fazendo hora extra na mesa dos vivos.

                Dona Jacira, a mulher de Meshugá, aguentou dez dias. No décimo primeiro, vendo o marido dividir o último pedaço de queijo com um fêmur que batia palmas, ela perdeu a paciência e a coragem comum.

— Chega! — bradou ela, batendo a mão na mesa com tanta força que o prato de ágata trincou.

        Jacira não era mulher de choro. Era neta de benzedeira raiz, daquelas que guardavam sal grosso grosso no fundo do bolso e reza forte na ponta da língua. Ela não esperou o marido resmungar. Arrastou Meshugá para o canto da sala, empurrou-o contra a parede e cravou nele um olhar de brasa.

    Depois, virou-se para a mesa onde o esqueleto continuava sentado, polido e imóvel, esperando a sobremesa.

                    Dona Jacira abriu os braços, fechou os olhos e, com uma voz que parecia vir do centro da terra — grossa, firme, cortante como faca de acougue —, começou a rezar. Não foi pai-nosso de missa de domingo. Foi uma reza brava, daquelas antiquíssimas, misturando latim torto com nomes de santos que já tinham virado poeira, chamando as forças da terra, do fogo e do sal para fechar os portões que a bebida de Meshugá tinha aberto.

        A cada palavra da oração, a cozinha ia escurecendo. O vento parou lá fora. A lamparina deu uma guinada verde e quase apagou.

    O esqueleto na mesa começou a tremer. Os ossos, antes firmes, perderam a liga. Ouvia-se o barulho de peças de dominó caindo umas sobre as outras. O fêmur rolou pelo chão, o crânio deu uma guinada oca e bateu contra o rodapé, desfazendo-se em pó cinzento.

        Quando a última palavra da novena de Jacira ecoou na casa, o silêncio desabou mais pesado que a cerração.

    Na mesa, não havia mais ninguém. Apenas um montinho de cinzas brancas e um cheiro forte de mato seco queimado.

        Meshugá, sóbrio pela primeira vez em anos, olhou para o lugar vazio na ponta da mesa, depois olhou para a esposa, que guardava o terço de madeira no bolso do avental com as mãos ainda trêmulas.

    Ele engoliu em seco, tirou o chapéu da cabeça e murmurou, respeitoso: — Bem... pelo menos ele limpou o prato.


    Dona Jacira nem respondeu. Apenas pegou a vassoura.

 

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