segunda-feira, 4 de maio de 2026

No rádio

 as

palavras seguem

seu ritmo


assim como o dia

e a noite


assim

parece que

os nossos beijos

são fogos de artificio

Nas ruas, mares, cidades

  gostaria de estar feliz 

 com você esta noite, 

mas eis nossa poesia 

isso me

permite estar com você em qualquer lugar amor

do Velho Capitão

 do Velho Capitão

o vento levou

os beijos para

outros mares

Noite Notte

 Noite

será isso

meia-noite

o que desejamos todos

não é a felicidade

atravessa a janela

o porto balança seu mar

o navio sonha

sonhamos

todos

Gabriel de Athayde é pintor e poeta



Notte

sarà questa?

mezzanotte

ciò che tutti desideriamo

non è la felicità

attraversa la finestra

il porto culla il suo mare

la nave sogna

tutti sogniamo

Gabriel de Athayde è un pittore e poeta

pode ser o campo

 pode ser o campo

das estrelas

nos olhos

a serenidade

é um passado que se foi

mariposa de asas tão brancas

 para onde voa

essa mariposa

de asas tão

brancas


se não para

o céu azulado

do mar


se não para

os sorrisos

que as estrelas

carregam com


fogo e mel


quem sabe até

seu nome ela diga

no meio da rua

nas esquinas

nos prédios

hospitais

Mujer Mulher Woman


 "Woman-Mujer"  se apresenta não apenas como uma imagem, mas como um campo de batalha visual, um palimpsesto de emoções e influências que ecoa de forma potente as heranças de Pablo Picasso e Antonio Saura. A obra, executada em aquarela e nanquim, rejeita a representação serena da forma feminina, optando, em vez disso, por capturar a sua essência psicológica turbulenta.

A influência picassiana é palpável, mas não de forma derivativa. Saura, ao descrever sua lição de Picasso, falava sobre a 'deformação' como uma ferramenta de expressão existencial. Em "Woman-Mujer", essa deformação é executada com uma liberdade quase agressiva. O rosto, longe de ser um retrato calmo, é fragmentado e reconfigurado. Vemos a fusão de diferentes perspectivas e uma profusão de elementos que questionam a unidade do eu. A profusão de olhos, por exemplo, de tamanhos e intensidades variadas, cria um sentido de hiper-vigilância e fragmentação. Não é uma mulher a olhar para nós; é a própria visão e percepção que são o sujeito da peça, uma multiplicidade de "eus" internos que lutam por visibilidade.

A composição é caótica e energética, lembrando a agressividade e o conflito que Saura via na obra de Picasso e que incorporava em seus próprios retratos sombrios e expressivos. As linhas de nanquim negro são nervosas, quase dolorosas, entrelaçando-se como cicatrizes ou gavinhas de pensamento não articulado. Elas não delimitam a forma, mas a dissecam. A relação com a cor é igualmente visceral. As manchas de aquarela, em tons frios de azul e turquesa, com flashes de verde e os pontos de cor de sangue, não preenchem espaços, mas lutam contra a escuridão do nanquim. Há um sentido de transparência que expõe a estrutura subjacente, um ato de revelação que é tanto anatômico quanto emocional.

Se Saura aprendeu com Picasso a "liberdade absoluta de criação", "Woman-Mujer" é uma prova de que essa liberdade foi assimilada. O artista aqui não tem medo de ser contraditório: a obra é frágil em suas aquarelas e brutal em seu nanquim. Ela é figurativa na medida em que sugere um rosto, e abstrata na medida em que a emoção que transmite supera a forma. É um trabalho que exige uma leitura não linear. Não se olha para ele para se sentir confortável; olha-se para ele para testemunhar um conflito interior e uma energia expressiva que é a própria essência da arte de Saura e Picasso.

"Woman-Mujer" é um retrato que não apenas mostra, mas que encarna. É um grito silencioso e uma visão fragmentada, um testamento da capacidade da arte de capturar a complexidade da condição humana sem se render ao embelezamento fácil.