as
palavras seguem
seu ritmo
assim como o dia
e a noite
assim
parece que
os nossos beijos
são fogos de artificio
as
palavras seguem
seu ritmo
assim como o dia
e a noite
assim
parece que
os nossos beijos
são fogos de artificio
gostaria de estar feliz
com você esta noite,
mas eis nossa poesia
isso me
permite estar com você em qualquer lugar amor
Noite
será isso
meia-noite
o que desejamos todos
não é a felicidade
atravessa a janela
o porto balança seu mar
o navio sonha
sonhamos
todos
Gabriel de Athayde é pintor e poeta
Notte
sarà questa?
mezzanotte
ciò che tutti desideriamo
non è la felicità
attraversa la finestra
il porto culla il suo mare
la nave sogna
tutti sogniamo
Gabriel de Athayde è un pittore e poeta
para onde voa
essa mariposa
de asas tão
brancas
se não para
o céu azulado
do mar
se não para
os sorrisos
que as estrelas
carregam com
fogo e mel
quem sabe até
seu nome ela diga
no meio da rua
nas esquinas
nos prédios
hospitais
"Woman-Mujer" se apresenta não apenas como uma imagem, mas como um campo de batalha visual, um palimpsesto de emoções e influências que ecoa de forma potente as heranças de Pablo Picasso e Antonio Saura. A obra, executada em aquarela e nanquim, rejeita a representação serena da forma feminina, optando, em vez disso, por capturar a sua essência psicológica turbulenta.A influência picassiana é palpável, mas não de forma derivativa. Saura, ao descrever sua lição de Picasso, falava sobre a 'deformação' como uma ferramenta de expressão existencial. Em "Woman-Mujer", essa deformação é executada com uma liberdade quase agressiva. O rosto, longe de ser um retrato calmo, é fragmentado e reconfigurado. Vemos a fusão de diferentes perspectivas e uma profusão de elementos que questionam a unidade do eu. A profusão de olhos, por exemplo, de tamanhos e intensidades variadas, cria um sentido de hiper-vigilância e fragmentação. Não é uma mulher a olhar para nós; é a própria visão e percepção que são o sujeito da peça, uma multiplicidade de "eus" internos que lutam por visibilidade.
A composição é caótica e energética, lembrando a agressividade e o conflito que Saura via na obra de Picasso e que incorporava em seus próprios retratos sombrios e expressivos. As linhas de nanquim negro são nervosas, quase dolorosas, entrelaçando-se como cicatrizes ou gavinhas de pensamento não articulado. Elas não delimitam a forma, mas a dissecam. A relação com a cor é igualmente visceral. As manchas de aquarela, em tons frios de azul e turquesa, com flashes de verde e os pontos de cor de sangue, não preenchem espaços, mas lutam contra a escuridão do nanquim. Há um sentido de transparência que expõe a estrutura subjacente, um ato de revelação que é tanto anatômico quanto emocional.
Se Saura aprendeu com Picasso a "liberdade absoluta de criação", "Woman-Mujer" é uma prova de que essa liberdade foi assimilada. O artista aqui não tem medo de ser contraditório: a obra é frágil em suas aquarelas e brutal em seu nanquim. Ela é figurativa na medida em que sugere um rosto, e abstrata na medida em que a emoção que transmite supera a forma. É um trabalho que exige uma leitura não linear. Não se olha para ele para se sentir confortável; olha-se para ele para testemunhar um conflito interior e uma energia expressiva que é a própria essência da arte de Saura e Picasso.
"Woman-Mujer" é um retrato que não apenas mostra, mas que encarna. É um grito silencioso e uma visão fragmentada, um testamento da capacidade da arte de capturar a complexidade da condição humana sem se render ao embelezamento fácil.