Chico chegou ao bordel com o
casaco ainda pingando chuva. O cheiro de cigarro barato e desinfetante cortava
o ar, mas ele só conseguia pensar no perfume dela — jasmim e óleo de coco, um
cheiro que já não existia há dois anos.
— Quero as negras — ele disse,
sem olhar para o dono do lugar.
— É hoje que vocês vão me
lembrar dela — sussurrou, puxando a calça para baixo.
— Fecha os olhos, romeno — ela
ordenou.
Chico adentrou o recinto carregando nos ombros o peso de uma chuva que
parecia cair desde o início dos tempos. O casaco, fustigado pelo rigor das
águas, gotejava sobre o assoalho como um relógio que marca o fim das
esperanças. Ali, naquele enclave de prazeres negociados, o ar era uma amálgama
de fumo barato e o aroma estéril dos desinfetantes, mas o seu olfato, traído
pela saudade, buscava apenas o espectro do jasmim e a oleosidade do coco — uma
fragrância que a terra já havia devorado há dois invernos.
— Reclamo a presença das filhas de África — sentenciou
ele, sem dirigir o olhar ao mercador de corpos, como se sua voz emanasse de uma
tumba antiga.
A sala, com suas paredes descascadas como peles em
suplício e um mobiliário que guardava o mapa de infinitas fadigas, tornou-se o
palco de uma cerimônia inominável. Quando as três mulheres cruzaram o umbral,
trazendo em suas faces a alternância entre o tédio soberano e uma curiosidade
quase antropológica, Chico já havia abdicado da verticalidade humana. Ajoelhado
sobre o ladrilho gélido, ele buscava no chão a humildade dos que imploram por
um milagre.
— Hoje, vós sereis o meu espelho e a minha memória —
sussurrou, enquanto despojava-se das vestes que o protegiam do mundo, expondo a
sua própria nudez como uma oferta ao sacrifício.
A primeira, num gesto de desdém que era também uma
afirmação de poder, marcou-o com a saliva. A segunda, com o riso de quem
conhece a fragilidade dos homens, escarneceu da sua devoção. Mas a terceira, a
matriarca daquela alcova, que trazia nos seios as cicatrizes de batalhas que a
história não ousou registrar e no quadril uma tatuagem que o tempo já
desbotara, compreendeu a natureza do rito. Erguendo a saia com a solenidade de
quem descortina um altar, ela emitiu o comando final:
— Cerra as pálpebras, romeno. Mergulha na tua própria escuridão.
Ele obedeceu, entregando-se ao domínio do invisível. E
quando o jorro cálido e vital atingiu-lhe o peito, lavando a poeira da solidão,
Chico sentiu, enfim, a reconciliação com o que havia perdido. Naquela comunhão
de fluidos e sombras, ele não era mais o náufrago de um funeral; era, por um
breve e sagrado instante, um homem que voltava a habitar o território dos
vivos.

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