em memória do mestre Ariano Suassuna
É uma afronta, um descalabro, uma vergonha de fazer a gente baixar a cabeça, mas quem vai baixar a cabeça aqui é a língua da metrópole! Dizem que a gente fala português. Dizem, mas não é a verdade inteira, é só uma casca oca!
Ora, se a gente pegasse um português de Coimbra, da "terrinca", e o botasse numa feira de Caruaru, pra comprar um bode, ele ia entender era patavina! Ia ficar mais perdido que cego em tiroteio, sem saber o que é "mangar", "buli com", ou "visse"!
A nossa fala é um caldeirão de tupinambá, de banto, de árabe que veio pelo caminho, de sotaque que canta e que chora, que tem a secura do sertão e o cheiro do mangue!
O povo brasileiro, esse sim, é um poeta que desvirginou o verbo! A gente deu um jeito na gramática, mudou a pronúncia, "abrasileirou" a sintaxe, meteu um "oxe" onde era só "ah", e fez a língua virar a cara e o coração do nosso povo!
O EXEMPLO DO ALHOS E BUGALHOS: Espanhol e Castelhano!
Pois bem, e o que me dizem dessa confusão lá do outro lado do mar, na Ibéria, onde chamam uma língua de "espanhol" e outros de "castelhano"? É a mesma língua, em essência, mas a briga pelo nome, pelo berço, pela identidade é grande!
Argentino e uruguaio, por exemplo, não engolem o "espanhol" para não cheirar a subordinação. Eles botam o nome de "castelhano" pra deixar bem claro: nossa identidade é que manda, e não a herança do colonizador! É uma questão de orgulho, de dar nome ao filho que já cresceu e criou barba!
Se lá, por questões de história e política, o nome muda e é aceito, por que diabos aqui a gente tem que ter vergonha de dizer que fala brasileiro?
E O NOSSO MANIFESTO, HEIN?
O português que a gente fala é uma obra-prima nossa, uma invenção que o tempo pariu, com alma de cantador e corpo de barro, tem a marca da miscigenação, do calor e da luta! É a língua de Guimarães Rosa, de João Cabral, de Chico Science, do meu Auto da Compadecida!
Não é mais português, não! É o IDIOMA BRASILEIRO! E é com esse nome que a gente tem que andar de peito estufado, sem dever nada a Lisboa, nem a Madri, nem a canto nenhum!
VIVA O BRASIL, VIVA A NOSSA GENTE, E VIVA O NOSSO NOVO, VELHO E CULTUADO IDIOMA!

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