terça-feira, 30 de dezembro de 2025

... pequena lamentação sobre uma desavença entre irmãos de terra e de esquecimento...

     Entrar no labirinto da escrita de Saramago é, antes de tudo, aceitar que a pontuação é um rio que corre sem margens fixas, onde as vírgulas são apenas suspiros e os pontos finais são raras sentenças de morte, e assim, postos nesta toada, importa olhar para a relação do homem de Azinhaga com aquele povo que carrega nos ombros o peso de milênios e de um livro que ele, o autor, tanto desconstruiu, pois que Saramago, sendo ateu de estirpe e humanista de urgência, nunca olhou para o judeu como uma entidade metafísica ou uma abstração teológica, mas sim como o homem de carne e osso, o mesmo que sofre e o mesmo que faz sofrer, e é aqui, nesta encruzilhada de humanidade, que a sua voz se tornou, por vezes, um trovão incômodo, porque para ele, que tanto denunciou as cegueiras dos homens, não havia povo eleito que estivesse acima da crítica, nem memória de holocausto que servisse de salvo-conduto para a injustiça do presente, dizia ele, com aquela crueza que lhe era própria e que tantos mal-entendidos gerou, que os judeus, tendo sido as vítimas maiores de um horror inenarrável, pareciam ter aprendido com os seus carrascos a arte de cercar e de oprimir, uma afirmação que caiu como pedra em poço fundo e que lhe valeu o rótulo de antissemita, embora ele insistisse, com a paciência dos que sabem o que dizem, que criticar o Estado de Israel e a sua política de ocupação não era odiar o povo de Spinoza ou de Kafka, mas sim honrar a memória de uma ética que o próprio judaísmo, nas suas raízes mais profundas, sempre defendeu.

Não se pense, contudo, que era um ódio cego, nada mais longe da verdade desse homem que via a história como um novelo de fios embaraçados, o que havia em Saramago era uma desilusão profunda, quase uma dor de pai ou de irmão, ao ver que aqueles que tinham sido as "pedras de esquina" da resistência e do intelecto europeu estavam agora, na sua visão, a erguer muros e a criar guetos, repetindo a geometria do erro que outrora os vitimara, e quando ele viajou a Ramallah e comparou a situação ao espírito de Auschwitz, não o fez por ignorância histórica, que disso não padecia, mas por uma vontade deliberada de chocar a consciência do mundo, de dizer que o sofrimento passado não confere o direito à crueldade futura, e se o mundo o apedrejou com palavras, ele respondeu com o silêncio de quem sabe que a verdade é uma lente que queima, pois para Saramago o judeu era o seu semelhante, o seu vizinho na grande aldeia da desventura humana, e precisamente por o respeitar como igual, não lhe perdoava a falta de compaixão, porque no fim de todas as contas, e as contas dele eram sempre feitas pelo valor da vida humana, o que importava não era a estrela de David ou a cruz ou a meia-lua, mas o modo como cada um de nós, judeu ou gentio, trata o outro quando a noite cai e não há deuses para nos vigiar, apenas a nossa própria e nua consciência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário