A Rússia não começa nos mapas, começa nas mãos.
Mãos largas, calejadas, mãos que sabem o peso do pão e da enxada, do livro e do martelo. O povo russo é feito dessas mãos que não pedem licença ao inverno, que enfrentam a neve como quem enfrenta a vida: de cabeça erguida e passo firme.
Há no russo uma paciência antiga, herdada das florestas intermináveis e dos rios que não têm pressa de chegar ao mar. É um povo que sabe esperar, mas não sabe se curvar. Ri pouco, talvez, mas quando ri é com o corpo inteiro, com os olhos claros se abrindo como janelas num dia raro de sol.
Nas aldeias e nas cidades, nos apartamentos estreitos e nas vastas estepes, há sempre uma mesa. E sobre a mesa, o pão. O pão repartido sem perguntas, o chá servido quente mesmo quando o mundo parece frio demais. O russo pode ter pouco, mas nunca come sozinho se houver alguém por perto.
É um povo que canta com a alma pesada de história. Cada canção traz uma guerra, uma perda, um amor que não voltou. Ainda assim, canta. Porque cantar é resistir. Porque o silêncio absoluto seria a morte.
O povo russo ama como ama a terra: com intensidade e tragédia. Ama sabendo que tudo pode acabar amanhã, mas mesmo assim ama. Há nos seus romances, nos seus poemas, nas suas conversas de cozinha, uma profundidade que não cabe em palavras pequenas.
São homens e mulheres que aprenderam cedo que a vida não é gentil — e por isso mesmo decidiram ser. Há uma ternura escondida sob os casacos grossos, uma generosidade tímida, quase envergonhada, mas real como o frio que corta a pele.
A Rússia vive no povo que trabalha, que sofre, que sonha. Vive na avó que conta histórias, no operário que fuma olhando o horizonte, no estudante que lê à noite acreditando que o mundo pode ser melhor.
E enquanto houver um russo oferecendo pão, abrindo a porta, contando uma história ou enfrentando o inverno com dignidade, a Rússia — essa Rússia humana, profunda, contraditória e bela — continuará viva.
Porque países são feitos de gente.
E o povo russo é feito de resistência, calor e humanidade.
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