Gil Vicente, cronista dramático de um Portugal em trânsito entre a Idade Média e a modernidade mercantil, oferece-nos, em seus autos, não apenas tipos morais, mas retratos sociais densos, impregnados do cotidiano econômico do reino. O judeu que surge em cena não é uma abstração teológica; é o judeu que compra, vende, empresta, negocia, fala a língua do dinheiro num mundo que oficialmente o condena, mas praticamente dele depende. Há nisso algo profundamente ibérico: a repulsa pública e a intimidade privada, a condenação moral e a utilidade cotidiana.Em autos como o Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente não poupa o judeu da caricatura social. Quando surge o Judeu carregando seu cofre, o riso nasce do reconhecimento imediato do tipo econômico: “Cofre que nunca se farta, / alma que nunca se enche”. A imagem é direta, quase brutal, mas revela mais sobre a mentalidade cristã do que sobre o judeu em si. O cofre não é apenas objeto cênico; é símbolo de uma economia nascente que a cristandade ainda tenta negar, mas já não consegue prescindir.Gilberto Freyre, atento às continuidades culturais da colonização portuguesa, provavelmente veria nesse judeu vicentino um ancestral simbólico do comerciante luso-brasileiro, figura ambígua que atravessa oceanos levando consigo hábitos, redes e capitais. O judeu português, forçado à conversão ou à fuga, não desaparece: ele se desloca. Vai para Antuérpia, para Amsterdã, para Recife. Leva consigo a prática mercantil, o senso de família extensa, a confiança baseada no parentesco e na palavra dada.No Auto da Barca do Inferno, o Diabo pergunta ao Judeu: “Que trazeis vós aí tão guardado?” E ele responde com ironia defensiva: “Trago a minha consciência.” A resposta, cômica e amarga, revela a associação entre consciência e dinheiro, típica de um mundo em que a salvação espiritual já começa a ser negociada em termos materiais. Gil Vicente, talvez sem o saber, dramatiza o nascimento de uma ética econômica moderna, ainda vista com desconfiança pela moral tradicional.Essa ética encontrará terreno fértil na Holanda do século XVII, onde judeus portugueses — muitos deles cristãos-novos — reorganizam suas redes comerciais e financeiras. Freyre veria nisso um prolongamento natural da vocação lusa para a adaptação tropical e mercantil. O judeu português na Holanda não rompe com Portugal; ele o prolonga por outros meios. E quando a Holanda chega ao Brasil, especialmente ao Nordeste açucareiro, essas redes se reencontram, agora em solo colonial.No Auto da Feira, Gil Vicente põe na boca de personagens críticas mordazes à lógica do lucro e da troca. O judeu, ali, é figura conhecida do espaço urbano: “Na feira me achareis, / que é onde o mundo se vende.” A feira vicentina antecipa o mercado colonial, espaço de mistura, negociação e conflito. No Brasil holandês, judeus portugueses participam ativamente do comércio do açúcar, do crédito e da exportação, integrando-se à economia local com uma fluidez que contrastava com sua exclusão formal.Gilberto Freyre insistiria que o Brasil não se fez apenas de senhores de engenho e escravos, mas também de intermediários: comerciantes, financiadores, homens de letras e de contas. O judeu português, herdeiro do tipo vicentino, ocupa esse lugar de mediação. Não é senhor absoluto nem marginal completo. Vive entre mundos, entre leis, entre línguas — português, espanhol, holandês, hebraico — e essa plasticidade cultural é um dos motores silenciosos da formação brasileira.Quando Gil Vicente faz o Judeu ser barrado na barca do Paraíso, não se trata apenas de condenação religiosa. É a dramatização de uma exclusão social que convive, paradoxalmente, com a dependência econômica. “Aqui não entrais vós, / que a lei vos tem vedado”, diz o Anjo. Mas o mundo terreno, ao contrário do celestial, abre-lhe portas todos os dias. Essa duplicidade atravessa séculos e reaparece no Brasil, onde judeus são tolerados enquanto úteis e perseguidos quando visíveis demais.No Recife holandês, a sinagoga Kahal Zur Israel não é apenas templo; é centro de sociabilidade, crédito e informação. Freyre perceberia aí a continuidade do espírito da feira vicentina: espaço de troca não apenas de mercadorias, mas de ideias e costumes. O judeu, como em Gil Vicente, é figura urbana por excelência, ligado à cidade, ao porto, ao movimento — em contraste com o senhor de engenho, ligado à terra e à tradição.Gil Vicente talvez não imaginasse que aquele judeu caricaturado no palco atravessaria o Atlântico como agente histórico. Mas sua obra registra, com fidelidade involuntária, a presença insistente desse tipo social. O riso vicentino, ao mesmo tempo que estigmatiza, fixa a figura. E aquilo que a literatura fixa, a história prolonga. O judeu do auto torna-se o judeu do açúcar, do comércio atlântico, da modernidade colonial.Freyre leria essas continuidades não como simples reprodução de preconceitos, mas como sinais da complexidade luso-tropical. O Brasil herdou de Portugal essa convivência tensa entre fé e negócio, entre pureza proclamada e mestiçagem real. O judeu português, mesmo ausente ou oculto, participa dessa mestiçagem cultural profunda, influenciando hábitos econômicos, familiares e urbanos.Assim, as citações de Gil Vicente, lidas à luz da história atlântica, revelam mais do que estereótipos: revelam estruturas. O judeu vicentino é o prenúncio do judeu da diáspora luso-brasileira, agente de circulação num mundo em expansão. Entre o riso do teatro e a seriedade do comércio, entre Lisboa, Amsterdã e Recife, constrói-se uma história subterrânea, mas decisiva, da formação do Brasil.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
O Judeu em Gil Vicente: Comércio, Diáspora e Brasil - parte 2
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