O sol, ferido, morria entre os cafezais,
Deixando a carne da noite em puro breu.
Com Daniel, um negror de oliva e cais,
Meu corpo nu à tentação ascendeu.
Ele arrancou, da t'rra escura, um sinal,
Um punhal grosso, que em mim se projetava.
E o pedido, um sussurro fatal,
Como a água que a sede me ofertava.
O tempo parou. Os grilos, mudos.
A boca, em rito de antiga devoção,
Colheu o orvalho branco, em fundos e agudos,
Que a vida, em onda, trouxe à minha mão.
Um gosto de mar, de pranto e de mistério,
Salgado, puro, em lábios de calor.
E eu bebi o oceano no cemitério
Do instante que se fez eterno amor.
Pensei no mar, na espuma do deserto,
Na alma vasta que em Daniel vivia.
O meu desejo, enfim, achava porto,
No sal sagrado que em mim se vertia.
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