segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Haiti


Não falo de ilhas apenas,
mas de um fogo antigo no sangue,
uma dignidade ereta sob o sol quebrado.
Haiti não é um lugar:
é um pulso que insiste
mesmo quando a história aperta o pescoço.

Vejo-o também no Brasil —
na pele negra que guarda o dia inteiro,
no riso que atravessa séculos de peso,
nos ombros que sustentam casas, canções, ruas,
como quem sustenta o mundo
sem pedir aplauso.

Há uma beleza que não é ornamento,
é sobrevivência organizada em corpo.
Nos olhos negros — do Recife a Porto Príncipe —
arde a mesma vigília,
a mesma pergunta sem resposta,
a mesma recusa em desaparecer.

Os pés no chão rachado,
a memória cheia de nomes perdidos,
e ainda assim o gesto largo,
a dança mínima do viver,
como se o coração dissesse:
“Estou aqui. Ainda.”

Haiti, Brasil —
parentes na ferida e na invenção.
Se o mundo fosse justo,
essa beleza não precisaria provar nada.
Mas ela prova, todos os dias,
que a vida, mesmo cercada,
pode ser grande.

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