in memoriam Gilberto Freyre
É de um profundo, embora não menos pitoresco, lamento, observar como o Brasil, esta civilização de barro e açúcar, de sangue misturado e paisagem tropical, carrega até hoje as chagas de sua fundação patriarcal. E em Campinas, cidade que floresceu na opulência do café, a velha Casa-Grande parece ter apenas trocado a senzala de sapé por mucambos de alvenaria e o senhor de engenho pelo bacharel de gravata, mantendo, contudo, a mesma aversão sibarítica ao labor que enlameia as mãos.
Não é, por certo, novidade para o olhar sociológico que o alicerce de nossa sociedade, e Campinas não foge à regra, repousa sobre a convicção de que trabalhar, com o suor a escorrer e a ferramenta a pesar, é coisa de negro.
Desta preguiça essencial, quase físico-moral, do colonizador – seja o português, já viciado nas rotinas lentas de uma metrópole que declinava, seja o judeu d’aquém-mar, fugidio à mestra do trabalho braçal –, é que se engendra a maldição cultural que até hoje nos assombra. Eles vieram não tanto para fundar, mas para gozar de uma terra dádiva, onde o esforço pudesse ser delegado.
A natureza tropical, pródiga e voluptuosa, convidava ao ócio, e o negro africano, trazido à força e com o corpo já adestrado no eito d’África, era a solução oportuníssima para que o homem branco — o senhor, o patrão, o mandão — pudesse dedicar-se ao que julgava ser o legítimo deleite: a política do Sobrado, as festas, o doce intercurso com a sinhama e a mucama, e a administração, quase sempre indolente, do negócio alheio.
Campinas, com sua opulência de barões e suas fazendas que se alongavam no horizonte, absorveu este ethos com uma virulência toda própria. A dignidade do homem (do branco, claro) passou a ser medida não pelo que ele produzia com o próprio esforço, mas pelo número de braços escuros que ele comandava para fazer a lida. O trabalho manual transformou-se em estigma, em marca de subalternidade e não-ser.
Eis que o tempo da abolição, mais cosmético que catártico, apenas trocou o grilhão da senzala pelo grilhão invisível da inferioridade social. Em Campinas, o descendente do senhor não suja as mãos; é o doutor, o engenheiro, o administrador. O descendente do escravo, contudo, ainda se vê, nas cozinhas e nos canteiros de obra, nas limpezas e nos transportes, a fazer o serviço que não dignifica o filho do Sobrado.
A persistência do complexo escravocrata não está apenas na injusta distribuição da riqueza, mas no fundo da alma do brasileiro de Campinas: está na má-vontade em pagar o preço justo pelo serviço feito a muque; está no olhar de desdém lançado sobre quem carrega o balde ou opera o martelo; está na subscrição silenciosa de que o esforço físico, afinal, é a cruz daquele que não soube ser senhor. É a preguiça colonial que se fez ideologia e que, tristemente, ainda hoje rege o pátio e a sala de jantar da nossa sociedade, entre o cheiro forte do café e o eco surdo do bangüê.

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