terça-feira, 30 de dezembro de 2025

La Belleza i el Mar -

 

La Belleza i el Mar

La belleza se kedo en Sefarad,
en las kalles blancas ke ya no nos kieren,
en las puertas serradas kon kruzes nuevas
onde una vez rezava la luz.

El mar nos mira sin preguntas,
azul i profundo komo el tiempo de Dio,
abre sus manos saladas
para resivir lo ke fue echado.

Salimos kon llaves en los bolsiyos,
kon nombres rotos en la boka,
kon el Shemá ardiendo bajito
para no ser eskuchado por el miedo.

El mar no nos juzga.
El mar save de expulsiones.
Save de pueblos ke parten
sin saber si ay tornada.

Kaduna ola diz: andate,
otra susurra: akuerda.
Entre ir i tornar
se rompe el korazón de Sefarad.

La belleza no era solo la tierra,
era el pan, la kantika, la letra,
era el nombre de Dio escrito
en la respiración del dia.

Agora navegamos en galut,
entre cielo i agua,
i el alma, kansada del mundo,
desea tornar no a España,
sino al cielo primero.

No al cielo alto i frio,
sino al cielo ke nos konosía,
onde no ay expulsión
ni decreto ni frontera.

El mar nos empuja adelante,
el cielo nos llama arriba,
i entre los dos keda el judío errante,
hermoso i roto,
kantando para no morir.

Si no podemos tornar a Sefarad,
ke tornemos al cielo.
Si no ay puerto en la tierra,
ke ay descanso en la luz.

La belleza vive aun,
no en la costa perdida,
sino en el deseo
de tornar a Dio.


A Beleza e o Mar

(tradução poética comentada)

1.

A beleza ficou em Sefarad,
nas ruas brancas que já não nos querem,
nas portas fechadas com cruzes novas
onde um dia rezava a luz.

Comentário:
“Sefarad” é a Espanha judaica perdida. A beleza não é apenas estética, mas civilizacional: convivência, cultura, memória. As “cruzes novas” aludem à cristianização forçada e à exclusão. A “luz” é tanto a vida cotidiana quanto a presença divina (Shechiná).


2.

O mar nos olha sem perguntas,
azul e profundo como o tempo de Deus,
abre suas mãos salgadas
para receber o que foi expulso.

Comentário:
O mar surge como testemunha neutra da História. Diferente dos homens, não julga. É refúgio e ameaça. “Tempo de Deus” sugere eternidade — o exílio humano frente ao infinito.


3.

Partimos com chaves nos bolsos,
com nomes quebrados na boca,
com o Shemá ardendo em segredo
para não ser ouvido pelo medo.

Comentário:
As chaves simbolizam a esperança concreta de retorno — muitas famílias sefarditas as preservaram por séculos. “Nomes quebrados” remetem a conversões forçadas e identidades ocultas. O Shemá Israel representa a fé íntima, sussurrada para sobreviver.


4.

O mar não nos julga.
O mar conhece expulsões.
Conhece povos que partem
sem saber se há retorno.

Comentário:
Aqui o mar é quase um personagem sábio, arquivista das diásporas humanas. O verso universaliza a experiência judaica, ligando-a a outras migrações forçadas da história.


5.

Cada onda diz: vai,
outra sussurra: lembra.
Entre ir e voltar
se parte o coração de Sefarad.

Comentário:
A oscilação das ondas encena o dilema do exílio: sobreviver exige partir; existir exige lembrar. O “coração de Sefarad” é a identidade dividida entre futuro e passado.


6.

A beleza não era só a terra,
era o pão, a canção, a letra,
era o nome de Deus escrito
na respiração do dia.

Comentário:
A pátria verdadeira é cultural e espiritual. “A letra” remete à Torá, ao estudo, à tradição escrita. Deus não está no templo perdido, mas no cotidiano vivido.


7.

Agora navegamos em exílio,
entre céu e água,
e a alma, cansada do mundo,
deseja voltar — não à Espanha,
mas ao céu primeiro.

Comentário:
O exílio deixa de ser apenas geográfico e torna-se metafísico. O “céu primeiro” não é um paraíso abstrato, mas o estado de pertencimento anterior à violência histórica.


8.

Não ao céu alto e frio,
mas ao céu que nos conhecia,
onde não há expulsão
nem decreto nem fronteira.

Comentário:
Crítica indireta às religiões do poder e aos Estados excludentes. O céu desejado é relacional, íntimo, sem leis de exclusão — uma utopia ética.


9.

O mar nos empurra adiante,
o céu nos chama para cima,
e entre os dois fica o judeu errante,
belo e partido,
cantando para não morrer.

Comentário:
Imagem central do poema: o judeu entre forças contrárias — História e transcendência. O canto é resistência cultural; cantar é existir.


10.

Se não podemos voltar a Sefarad,
que voltemos ao céu.
Se não há porto na terra,
que haja descanso na luz.

Comentário:
Renúncia dolorosa ao retorno físico, substituído por uma esperança espiritual. A “luz” é consolo, memória e promessa.


11.

A beleza ainda vive,
não na costa perdida,
mas no desejo
de voltar a Deus.

Comentário:
Conclusão teológica e poética: a beleza sobrevive como anseio. O retorno final não é político nem territorial, mas espiritual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário