segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Acasalamento


Escrevo pouco;
é melhor silenciar
entre cobras barulhentas—
o sibilar confunde o mapa
e chama de coragem
o simples ruído.

Eis o travesseiro:
objeto exato,
com sua ética doméstica
de sustentar a cabeça
sem prometer sonhos.
Sobre ele, o luar
não consola; mede.

O lobo uivante
não pede licença à colina.
É um fato da noite,
como a geada nos trilhos
ou a cerca que delimita
o que é pasto
do que é desejo.

Acasalar
não é o gesto,
mas a vigília compartilhada:
duas sombras ajustando o frio,
um acordo breve
entre respirações.

A ferida desse tal amar
não sangra—
marca.
Como líquen na pedra,
prova de permanência
sem ornamento,
sem pressa.

Conservar
é aprender a nomear
o necessário
e deixar o resto
em paz com o escuro.

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