segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Foca


O prédio não se impõe;
observa.
De concreto disciplinado,
tem a paciência dos animais marinhos
que sabem esperar a maré certa.

As janelas, olhos oblíquos,
refletem nuvens como escamas de vidro.
Nada ali é excesso:
a utilidade é uma forma de elegância
quando aceita o peso do mundo.

Ele aprende com o corpo da cidade,
com o vento que contorna suas arestas,
com a chuva que o alisa
até torná-lo quase dócil.

Há um instante — raro, mas exato —
em que o edifício parece mover-se:
como uma foca que estava nadando de cabeça para cima
vira e nada de costas por um tempo
.

Não muda de lugar,
mas muda de intenção.
Inclina-se à luz,
acolhe sombras,
respira pessoas.

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