Voltei das ilhas onde o coração aprende
a contar em ouro o peso do destino.
Meu navio vinha pleno: taças, sedas,
metais que dormiram séculos no sal.
As velas sabiam meu nome antigo,
o vento me chamava de senhor.
Eu cria que a casa, intacta, me esperava,
como espera a lâmpada o cair da noite.
Mas a cidade era outra —
as pedras mudaram de memória,
as ruas esqueceram meus passos,
as portas não reconheceram minhas mãos.
Procurei meus filhos no pó das praças,
nos rios onde ensinei o tempo a andar.
Nenhuma voz respondeu ao meu sangue,
nenhum rosto guardava meu reflexo.
Minha mulher também se fez ausência,
talvez mar, talvez sombra, talvez nada.
O amor, que eu julgara âncora eterna,
era apenas um canto que o tempo levou.
Então pesei meus tesouros na balança da alma
e todos soaram ocos como ossos secos.
Nem o ouro compra o que se foi,
nem o mundo devolve o que amadureceu em perda.
Na soleira da porta, sem casa nem nome,
ela me esperava — silenciosa e justa.
A morte, única fiel à promessa,
guardava o limiar que sempre foi seu.
E soube, tarde e claro como sino ao vento:
nada do que trouxe valeu a travessia.
Pois nas ilhas do coração aprendi, enfim,
que todo retorno termina no pó.
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