terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Códice de Luanda

 Eis aqui, portanto, o relato de um achado que não se explica, um comentário sobre o volume sem nome, encadernado em pele de bicho desconhecido, que apareceu numa estante de alfarrabista no Recife, vindo, dizem as más línguas, no fundo do baú de um viajante da Guiné que morreu sem dizer palavra, e o livro, escrito numa língua que parece português mas que tropeça nas vírgulas como quem sobe uma duna, é a reescrita da errância de Caim sob um sol que não é o de Canaã, mas um sol pesado, equatorial, onde o crime de matar o irmão não é uma questão de inveja de sacrifícios, mas uma revolta contra o silêncio de um deus que, de tão ocupado com a sua própria perfeição, esqueceu-se de que o barro tem sede.

Neste conto-comentário, o Caim africano não traz a marca na testa como um estigma de vergonha, mas como uma pintura de guerra, e ao chegar às terras do Brasil, neste manuscrito de autor anónimo, ele descobre que o seu crime foi apenas o primeiro de uma série infinita, porque aqui, diz o texto, as pessoas matam os irmãos todos os dias e depois sentam-se à mesa para comer feijão como se o sangue não tivesse escorrido pela calçada, e o que Borges teria chamado de "o labirinto da linhagem", Saramago chamaria de "a cegueira do criador", pois o Caim deste livro misterioso não foge de deus, ele persegue deus para lhe pedir contas, perguntando-lhe, com a voz rouca dos que atravessaram o oceano em porões, por que razão o céu é tão azul e a terra tão vermelha, se o que importa é a cor da justiça que ninguém vê.

O autor desconhecido, que talvez tenha sido um príncipe em Daomé ou um escravo em Olinda, ou as duas coisas ao mesmo tempo no tempo circular da literatura, termina o seu comentário dizendo que a história de Caim é o único espelho honesto da humanidade, porque os Abéis, pobres coitados, morrem cedo demais para aprenderem a mentir, enquanto os Cains sobrevivem para fundar cidades, escrever livros e perguntar, no fim de cada parágrafo longo como uma vida, se valeu a pena ter sido feito à imagem e semelhança de alguém que, tendo podido evitar a mão que se erguia, preferiu olhar para o lado e esperar pelo barulho do osso a quebrar-se, que é, como todos sabemos e o livro confirma, o som preferido dos deuses que não sabem o que fazer com as suas criaturas.Eis o fragmento recuperado, um trecho que a crítica futura (talvez aquela que habita os sonhos ) atribuirá ao Códice de Luanda, aquele volume que cruzou o Atlântico para se perder nas bibliotecas circulares do Recife:

«A história, que os homens insistem em ler como uma linha reta que vai do pó ao pó, é, na verdade, um jardim de pedras que se bifurcam, e no centro desse jardim, sob o sol implacável que não conhece a misericórdia das nuvens, caminha Caim, que não é um homem, mas todos os homens que já seguraram uma pedra com a dúvida na palma da mão, diz o manuscrito que este Caim africano, de pele cor de noite profunda, não matou Abel por um capricho de fumaça, mas porque leu nos olhos do irmão a aceitação servil de um destino imposto por um Demiurgo distraído, e ao golpeá-lo, Caim não buscava o fim do outro, buscava o início de si mesmo, a rutura com o plágio divino que é a existência humana, por isso a marca na sua fronte não é um sinal de exílio, mas a primeira letra de um alfabeto que Deus ainda não aprendeu a ler, e quando o navio fantasma o trouxe às costas do Brasil, esse Caim descobriu que o labirinto de Creta era uma brincadeira de crianças perto das ruas de Salvador, onde o tempo se dobra sobre si mesmo e cada esquina é um altar onde se sacrifica o amanhã em nome de um ontem que nunca existiu, pois, como bem sabemos, a memória é uma biblioteca cujos livros mudam de texto enquanto dormimos, e Caim, agora brasileiro por fatalidade e africano por memória, sentou-se na calçada para ver passar o mundo, compreendendo enfim que Deus e o Diabo são apenas as duas faces de uma moeda que alguém jogou ao ar e que, por um erro de cálculo da gravidade, ainda não caiu.»

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