segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Três canções Cristãs da Idade Média

 Contra a corrente

No pátio gasto do tempo, ouvi o chamado
entre ferrugem de vozes e cinza racional;
meus amigos, ídolos do nada organizado,
viraram o rosto ao Verbo irregular.

Riram do salto — água turva, fé sem mapa —
disseram: “o mundo basta, o resto é ruína”.
Mas vi no vidro da noite uma outra lâmpada,
um sangue manso lavando a disciplina.

Fiquei só. As mesas frias, o pão sem nome,
o riso seco das horas, o cálculo exato.
Então uma mão — chaga e luz — rompeu a fome

e disse sem som, no escuro do meu ato:
Vem. Contra a corrente, morre o homem,
e vive em mim o que o mundo chama de fracasso.


O chamado do amor

Entre os escombros da hora tardia
— cinza nos lábios do relógio —
ouvi um passo que não vinha do chão.
Não era voz:
era fenda.

A cidade murmurava cifras e ironias,
amigos de outrora bebiam o riso seco
da negação elegante,
e eu, sombra com nome,
atravessei vitrines de sentido gasto.

Então o Amor chamou
sem chamar:
uma pressão no sangue,
um peso leve no centro do pó.

Cristo não veio coroado de resposta,
veio como sede
no meio da água,
como lâmpada acesa
num quarto onde ninguém entra.

Falou-me na língua do fracasso,
onde o pecado é ferrugem do tempo
e a culpa, um sino rachado.
Disse: Vem,
e o verbo queimou mais que a lei.

Nada prometeu senão presença.
Nada exigiu senão queda.
No lodo da consciência moderna
— anúncios, estatísticas, risos —
seu amor abriu uma fenda respirável.

Agora caminho contra a maré do riso fácil,
carrego uma cruz invisível
feita de dias comuns,
e sei:
no fim do corredor escuro da carne
não me espera o aplauso,
mas um rosto que conhece meu nome
antes que eu o pronuncie.


Vulcão

No Gênesis arde a argila inaugural,
Lava de Deus moldando a carne informe;
Do pó levanta-se o espectro que dorme
Ao sopro eterno, elétrico e vital.

A Bíblia é o crânio do Cosmos mineral,
Onde o Verbo, em sílabas, se deforme
E o Tempo, em fósforo e cinza, se conforme
À Lei que pulsa em código fatal.

No Apocalipse, o mundo entra em combustão:
Sete selos rangem — úlceras do céu —
E a História grita em febre e podridão.

Mas sob o enxofre há um parto: o Deus fiel
Ergue da morte a última razão,
E faz do Fim um ventre — e não um véu.

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