Pensar a figura do judeu na obra de Gil Vicente é entrar num terreno de camadas sobrepostas, onde literatura, história, teologia e política se entrelaçam de modo indissociável. Gil Vicente escreve num momento liminar da cultura portuguesa, quando a Idade Média se dissolve lentamente sob o peso do Renascimento e da centralização do poder régio, mas carrega ainda os resíduos simbólicos de uma cristandade que necessita de figuras de alteridade para se afirmar. O judeu, nesse contexto, não é apenas um personagem dramático: é um signo cultural, um espelho invertido através do qual a sociedade cristã portuguesa se reconhece e se legitima.A presença do judeu no teatro vicentino não pode ser dissociada da experiência histórica dos judeus na Península Ibérica, marcada pela convivência forçada, pelas conversões compulsórias e, finalmente, pela expulsão ou assimilação sob vigilância. Em Portugal, após o édito de 1496, o judeu torna-se oficialmente inexistente, mas culturalmente onipresente. Ele sobrevive como cristão-novo, como suspeita, como fantasma social. Gil Vicente escreve nesse intervalo ambíguo, em que o judeu já não pode existir plenamente como judeu, mas ainda não desapareceu do imaginário coletivo.Nos autos vicentinos, o judeu aparece frequentemente associado a estereótipos herdados da tradição medieval europeia: a avareza, a astúcia, o apego excessivo à letra da lei, a incapacidade de reconhecer a verdade cristã. No entanto, reduzir essa representação a um simples antissemitismo teatral seria empobrecer a complexidade da obra. Gil Vicente não é um panfletário; é um dramaturgo que observa os tipos sociais de seu tempo e os expõe num palco onde todos, sem exceção, são objeto de crítica e ridicularização.A sátira vicentina é universalizante. Reis, clérigos, fidalgos, camponeses, prostitutas e judeus são igualmente submetidos ao riso corrosivo do autor. O judeu não ocupa uma posição singular de condenação absoluta; ele é mais um personagem num mundo moralmente desordenado. Essa característica aproxima Gil Vicente de uma tradição humanista que, embora não escape aos preconceitos de seu tempo, recusa a sacralização de qualquer grupo social.Ainda assim, é inegável que a figura do judeu carrega um peso simbólico particular. Ela funciona como ponto de condensação de angústias religiosas e econômicas, sobretudo num momento em que a ortodoxia católica se torna instrumento de coesão política. O judeu vicentino é, muitas vezes, o guardião de uma racionalidade outra, não redimida, que incomoda precisamente por não se submeter à narrativa da salvação cristã. Sua alteridade é menos étnica do que teológica e jurídica.Há, na obra de Gil Vicente, uma tensão constante entre a letra e o espírito, entre a norma e a misericórdia. O judeu, identificado à letra da lei mosaica, surge como contraponto ao ideal cristão da graça. Contudo, essa oposição não é simples. Ao expor a hipocrisia de cristãos que proclamam a fé mas vivem na corrupção moral, o dramaturgo sugere, ainda que indiretamente, que a pertença religiosa não garante superioridade ética. Nesse ponto, a crítica se desloca do judeu para a própria sociedade cristã.Essa ambiguidade é fundamental para uma leitura contemporânea. O judeu em Gil Vicente não é apenas objeto de riso; é também instrumento de revelação. Ao dramatizar a exclusão, o autor torna visível o mecanismo pelo qual uma comunidade define seus limites. O teatro, nesse sentido, opera como espaço de exposição das violências simbólicas que sustentam a ordem social, mesmo quando o faz sob a máscara do humor.Convém lembrar que Gil Vicente escreve antes da institucionalização plena da Inquisição portuguesa. Seu teatro antecipa, de modo quase profético, o clima de suspeita e vigilância que marcará o século XVI. O judeu vicentino, frequentemente observado, julgado e caricaturado, reflete essa atmosfera de controle crescente, na qual a diferença religiosa se converte em questão de Estado.A leitura da figura do judeu em Gil Vicente exige, portanto, um duplo movimento: reconhecer os limites históricos do autor e, ao mesmo tempo, compreender a potência crítica de sua obra. Não se trata de absolver preconceitos, mas de situá-los numa constelação cultural mais ampla, em que o teatro funciona como laboratório moral da sociedade portuguesa. A responsabilidade do intérprete moderno é resistir tanto à condenação anacrônica quanto à complacência acrítica.Sob essa perspectiva, o judeu vicentino pode ser lido como figura do deslocamento, daquele que habita a fronteira entre inclusão formal e exclusão real. Mesmo quando ridicularizado, ele aponta para a fragilidade das identidades impostas. Sua presença no palco lembra que a unidade religiosa proclamada pelo poder é, na prática, instável e permeada por fissuras.Há, em última instância, uma dimensão ética na forma como Gil Vicente trata seus personagens, inclusive o judeu. Ao não poupá-los da sátira, mas também ao não lhes negar complexidade, o dramaturgo afirma uma visão trágico-cômica da condição humana. Todos falham, todos são ridículos, todos são julgados. Essa universalização do julgamento impede que a figura do judeu se transforme em bode expiatório exclusivo.Assim, comentar o judeu em Gil Vicente é comentar o próprio processo de construção da alteridade na cultura portuguesa. É perceber como a literatura registra, transforma e problematiza as exclusões de seu tempo. Lido com atenção e rigor, o teatro vicentino não oferece respostas fáceis, mas convoca o leitor a refletir sobre a permanência desses mecanismos simbólicos na história. E é precisamente nesse convite à reflexão crítica que reside sua atualidade e sua grandeza.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
O Judeu em Gil Vicente
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