Cantiga do Ir a Marrocos
Pelas ribeiras do tempo antigo
levo meu fardo e minha porção,
em galut* anda minha alma viva,
entre promessa e dispersão.
Digo baixinho, à luz da candeia,
Baruch HaShem*, ainda respiro,
pois quem nasceu com sede de mundo
não cabe em muro nem retiro.
vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
digo à noite sem temor,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,*
que a ruach* chama mais forte que o amor.
Trago na boca sal e doçura,
no peito a ferida e a emuná*,
pois quem confia caminha longe
sem mapa, sem chão, com sinal de Adonai*.
Entre Lisboa e mares escuros,
vendo esperança por um pão,
sou mercador de lembranças velhas
e de futuro em gestação.
vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
repete o vento no cais,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,
que meu destino não cabe em mais.
Se choro, choro como quem canta,
se parto, parto em oração,
Shema Yisrael* no fundo da alma,
coração aberto, mão no coração.
Se um dia volto — quem sabe volto —
com barba branca e outro olhar,
direi que o mundo é grande e terno
para quem ousou atravessar.
vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
fim do canto, fim do cais,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,
que fui criado para ir mais.
* galut (exílio)
* Baruch HaShem (bendito seja o Nome)
* caneti (pena/escrita; aqui como símbolo do que prende e registra)
* ruach (sopro, espírito)
* emuná (fé, confiança)
* Adonai (Senhor)
* Shema Yisrael (oração central judaica)
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