Existirmos: a que será que se destina?
Pergunto-o à graxa das engrenagens
e ao tédio das estrelas,
E a resposta é o silêncio de um cais vazio às quatro da manhã.
Destinar-se! Que palavra gorda, mastigada
por metafísicos de gravata! Eu, que sinto tudo
até ao esgotamento das sensações,
Olho para as minhas mãos e vejo-as estrangeiras,
Instrumentos de um crime que é estar aqui, sem ter pedido o bilhete da vida.
A que se destina o girar da manivela se a máquina
não mói nada? A que se destina o bater do coração
se o peito é uma sala de espera? Tudo é intervalo,
tudo é o espaço entre o que sou e o que fingem que sou.
Passei pela vida como um comboio que não pára na estação onde o esperavam, E agora, nesta lucidez que me rói como um ácido,
Percebo que o destino é apenas o nome que
damos à nossa incapacidade de não ser.
Não me venham com sentidos! Não me tragam esperanças em embrulhos de papel! O destino da existência é a própria existência a devorar-se, É este cansaço de ser Deus enquanto se é apenas um homem sentado num café, Vendo a luz do sol bater num copo de água e sentir uma vontade absurda de chorar... Não por tristeza, não! Mas pela beleza terrível de não servir para nada, E de saber que, no fim, o "destinar-se" é apenas o som do vento Nas persianas de um quarto onde já não mora ninguém.
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