domingo, 28 de dezembro de 2025

Leite negro da aurora

 A mão risca o branco

 não por luz, mas 

por urgência de fenda.

 Escrevo para o vazio,

 esse bicho sem rosto 

que me habita 

e que mastiga 

o tempo entre

 um café e um silêncio.

Escrevo para o ninguém. 

Não o homem na rua,

 não o vulto na fresta, mas o 

ninguém que sobra quando a

 memória desanda e o nome vira 

apenas sopro no vidro sujo da sala.

Para a pedra, sei lá. A coisa em si, muda, 

dura, parada no centro do caos como um soco 

no olho do dia. A pedra que não lê, que não ouve,

 mas que sustenta o peso de tudo o que eu não sei dizer.

Palavra é bicho-de-pé, finca na carne, dói de não

 ser nada. 

Escrevo porque o chão foge 

e o nada é a única casa onde ainda cabe o meu grito.

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