A luz incide de forma oblíqua sobre o mundo, desenhando sombras que invadem a varanda da casa. Tento fixar o olhar no que descansa sobre a página, mas a leitura é interrompida por um súbito vento que traz o cheiro de sal e o calor antigo do sol, aquecendo a superfície inerte de uma pequena pedra.
Não há nada mais honesto do que a dureza da pedra. Ela ignora as fronteiras traçadas no mapa do mundo e permanece fria, mesmo sob a insistência do sol. Daqui, observo as vigas que sustentam esta casa estalarem com a pressão invisível exercida pelo vento, como se o ar quisesse ler o que está escrito na página.
É uma grafia difícil de decifrar, esta da página. Escrevemos sobre o tempo como quem grava em pedra, esquecendo que a memória oscila conforme o vento. Há cidades inteiras desaparecendo no resto do mundo, enquanto eu me preocupo com as frestas desta casa e com a maneira como a cortina filtra o brilho do sol.
Dizem que o universo expande-se longe do sol, num vácuo onde não existe papel nem página. Aqui, o limite do meu universo é o teto da casa. Mantenho na gaveta um fóssil, um pedaço de pedra, comprovando que o que hoje chamamos de mundo já foi fundo de mar, antes de conhecer o vento.
O que resta de nós quando cessa o barulho do vento? Talvez apenas a marca de queimado deixada pelo sol nas coisas que habitam a face exposta do mundo. Viro com cuidado a fibra delicada da página; ela é mais frágil que o mineral, mais leve que a pedra, mas é o único abrigo que resiste fora da casa.
Pela janela, vejo o horizonte contornar a casa. O dia se despede em um último esforço do vento, lavando a poeira que se acumulou sobre a pedra. Amanhã, a claridade voltará com o ciclo do sol, revelando novos erros na margem da nossa página, novas distâncias a percorrer na escala do mundo.
O sol ainda ilumina a silhueta da velha casa. Na página, o registro de um vento passageiro. Pela janela do mundo, guardo o silêncio da pedra.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Sol e Vento
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