terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A magia insistia em brotar

    Mariana estava sentada no vigésimo andar de um prédio na Avenida Paulista, observando como a garoa fina transformava o asfalto em uma superfície de vinil escuro e brilhante. O café à sua frente já havia esfriado, formando uma película pálida que lembrava a superfície de um planeta distante e esquecido. Ela lia um livro sobre a migração das baleias-azuis, sentindo que sua própria vida guardava uma semelhança desconcertante com esses gigantes solitários: um deslocamento constante através de correntes invisíveis, sem um destino que fizesse real sentido. Foi quando, através da vidraça embaçada, ela o viu: um cachorro de pelagem azulada, quase da cor do crepúsculo, parado exatamente no centro da calçada movimentada, ignorando o fluxo frenético de pedestres que desviavam dele como se fosse uma rocha em um rio.

Sem uma razão lógica, Mariana deixou o café inacabado e desceu pelo elevador que rangia de forma melancólica, como se estivesse cansado de carregar o peso do mundo. Ao chegar na rua, o ar estava saturado com o cheiro de ozônio e escapamento, mas o cachorro permanecia ali, olhando-a com olhos que pareciam conter uma sabedoria mineral, antiga e desprovida de julgamento. Quando ela deu o primeiro passo em sua direção, o animal virou-se com uma elegância quase felina e começou a caminhar em direção ao túnel da Avenida Nove de Julho, mantendo sempre uma distância precisa de exatos cinco metros. Mariana o seguiu, sentindo que o ritmo de seus próprios passos começava a se sintonizar com uma frequência de rádio que ela não ouvia desde a infância, um chiado suave que prometia revelar algo oculto sob a superfície da metrópole.

O túnel parecia esticar-se conforme eles avançavam, e o barulho dos carros se transformou em um eco abafado, como se estivessem submersos em uma piscina de óleo. A luz amarelada das lâmpadas de sódio criava sombras distorcidas nas paredes de concreto, e Mariana percebeu que o cachorro não projetava sombra alguma, ou talvez a sombra dele estivesse escondida em uma dimensão que seus olhos não conseguiam processar. O ar tornou-se subitamente frio, carregado com o aroma de jasmins e fumo de corda, um cheiro que não pertencia ao centro de São Paulo, mas sim a uma memória específica que ela mantinha guardada em uma caixa mental trancada. Ela sentiu um leve tremor nas mãos, mas não era medo; era a sensação de que a realidade estava se tornando fina, como um papel de seda prestes a rasgar-se sob a pressão de um dedo invisível.

De repente, o cachorro parou diante de uma reentrância na parede do túnel que Mariana nunca havia notado antes, apesar de ter passado por ali centenas de vezes. Era uma abertura estreita, emoldurada por tijolos aparentes que pareciam respirar em um ritmo lento e profundo. O animal soltou um ganido curto, quase como um convite, e entrou na escuridão sem hesitar, desaparecendo como uma gota de tinta em um balde de água. Mariana hesitou por um momento, ouvindo o pulsar de seu próprio coração, que soava como o metrô passando sob seus pés, antes de cruzar o umbral de pedra. O espaço lá dentro não era um corredor, mas uma galeria vasta e circular, onde o silêncio era tão denso que ela podia ouvir o mecanismo de seu relógio de pulso trabalhando arduamente para manter o tempo em ordem.

As paredes da galeria estavam cobertas por milhares de molduras de madeira escura, todas vazias, exceto por uma que se destacava ao fundo, iluminada por um feixe de luz lunar que descia de uma fenda invisível no teto. Mariana caminhou lentamente, sentindo que o chão de pedra estava ligeiramente úmido, como se a terra estivesse tentando retomar o espaço que o concreto lhe roubara. Ao se aproximar da moldura, ela sentiu um nó apertar-se em sua garganta, uma pressão que cheirava a naftalina e discos de jazz antigos. Lá, dentro do retângulo de madeira, não havia uma pintura, mas uma janela para outro lugar, um campo de grama alta onde o vento soprava com uma cadência que parecia recitar versos em uma língua esquecida.

No centro daquele campo, sentado em uma cadeira de balanço que rangia suavemente, estava seu avô, falecido há mais de dez anos em uma tarde de domingo em que o sol parecia ter desistido de brilhar. Ele vestia o mesmo cardigã cinza que sempre usava para ler o jornal, e suas mãos, marcadas pelo tempo como o mapa de uma cidade antiga, repousavam sobre os joelhos com uma serenidade absoluta. O avô de Mariana não parecia um fantasma ou uma projeção, mas sim a versão mais sólida de si mesmo, como se tudo o que ela conhecera dele no mundo real fosse apenas um esboço mal acabado de sua verdadeira essência. Ele levantou o olhar lentamente, e seus olhos, da mesma cor da pelagem do cachorro, encontraram os dela com uma familiaridade que transcendeu o tempo e o espaço.

Sem dizer uma palavra, o velho levantou a mão direita e acenou para Mariana, um gesto lento e deliberado que parecia carregar todo o peso de um adeus nunca dito e toda a leveza de um reencontro inevitável. Mariana tentou falar, mas as palavras ficaram presas em sua boca, transformando-se em pequenos cubos de gelo que derretiam silenciosamente sobre sua língua. Ela percebeu que aquele aceno não era um chamado para que ela entrasse, mas uma confirmação de que ele ainda estava lá, habitando as dobras ocultas da realidade, cuidando da manutenção do universo enquanto ela cuidava de sua própria existência urbana. O cachorro azul reapareceu ao lado da cadeira de balanço, deitando-se aos pés do avô como se aquele fosse o seu lugar legítimo desde o início dos tempos.

Nesse instante, Mariana compreendeu que a cidade de São Paulo era composta por duas camadas distintas: a de cima, feita de asfalto, ruído e pressa, e a de baixo, feita de silêncio, memórias e encontros impossíveis. Ela sentiu uma profunda gratidão pelo fato de o cachorro a ter escolhido como guia para aquela breve incursão no "outro lado", um lugar onde as baleias-azuis poderiam nadar em campos de grama sem nunca precisarem de água. O ar na galeria começou a vibrar novamente com o som dos carros lá fora, indicando que o portal estava se fechando, como uma pálpebra cansada após um longo dia de observação. Ela deu um passo para trás, mantendo os olhos fixos na imagem do avô, que continuava a acenar com a mesma paciência de quem possui toda a eternidade à disposição.

Quando Mariana saiu da abertura e voltou para a calçada do túnel, o cachorro e a reentrância na parede haviam desaparecido, restando apenas o concreto frio e as marcas de infiltração que formavam desenhos abstratos na superfície cinza. Ela caminhou de volta para a luz do dia, sentindo o peso de sua bolsa em seus ombros e o toque da garoa em seu rosto, mas algo fundamental havia mudado em sua estrutura molecular. O mundo parecia o mesmo, mas a solidão que ela carregava agora tinha uma textura diferente, menos parecida com um vazio e mais com uma sala de estar confortavelmente mobiliada em algum lugar dentro de si mesma. Ela parou diante de uma vitrine e viu seu reflexo, notando que seus olhos guardavam um brilho que não vinha das luzes da cidade.

Ela voltou ao café na Avenida Paulista, mas desta vez não abriu o livro sobre baleias; em vez disso, pediu um novo café, bem quente, e ficou observando o movimento das pessoas com uma curiosidade renovada. Cada pedestre que passava agora parecia carregar um segredo, um cachorro azul invisível ou uma moldura vazia esperando para ser preenchida por uma memória significativa. A vida não precisava mais de explicações lógicas ou destinos traçados em mapas; bastava que houvesse, de vez em quando, um túnel onde o passado pudesse acenar para o presente com um gesto de mão. O relógio na parede do café marcou a hora exata, e o som do ponteiro parecia agora uma música suave, uma melodia que falava sobre a continuidade das coisas simples.

Ao anoitecer, Mariana voltou para o seu pequeno apartamento, que agora lhe parecia mais espaçoso e acolhedor do que nunca. Ela preparou uma torrada, ouviu um disco de jazz que não tocava há anos e sentou-se perto da janela, observando as luzes dos prédios que piscavam como estrelas caídas em um oceano de asfalto. Ela sabia que, se olhasse com atenção suficiente, poderia ver o rastro azul do cachorro cruzando as esquinas escuras da cidade, conectando os pontos de uma constelação urbana que só ela conhecia. Não havia pressa para o amanhã, pois o ontem estava devidamente guardado em um campo de grama alta, protegido pelo silêncio de um túnel que ninguém mais conseguia ver.

Mariana adormeceu com a sensação de que o mundo era, no fundo, um lugar muito gentil, apesar de sua aparência caótica e indiferente. Em seus sonhos, ela corria por campos infinitos sob um céu de cor indescritível, e um cachorro azul corria ao seu lado, latindo para as nuvens que pareciam baleias flutuando no vácuo. Quando acordasse, ela escreveria uma carta para ninguém em especial, apenas para colocar no papel a sensação de ter visto o retrato de um avô que, mesmo do outro lado, ainda sabia exatamente como dizer que tudo ficaria bem. A chuva continuava a cair sobre São Paulo, lavando as ruas e alimentando as rachaduras no concreto, por onde, às vezes, a magia insistia em brotar.

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