A vida passa
como um peixe
que não conhece mapas.
Escorregadia,
prateada por um instante,
some entre as mãos
antes que se decida
se era fome
ou apenas curiosidade.
O tempo não pergunta,
não olha para trás,
move-se pela água turva
com a calma exata
de quem não precisa chegar.
Nós, na margem,
colecionamos nomes,
datas, promessas secas ao sol,
enquanto o peixe —
imparcial, silencioso —
segue adiante,
sem destino
e, por isso mesmo,
perfeitamente vivo.
Há uma estranha dignidade
em não saber onde terminar,
em apenas atravessar
a corrente
com o corpo atento
ao agora.
Talvez viver
seja isso:
não dominar o rio,
não ser a rede,
mas aceitar o brilho breve
do que passa
e ainda assim
chamá-lo de sentido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário