terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sentimento do Tempo


A vida passa
como um peixe
que não conhece mapas.

Escorregadia,
prateada por um instante,
some entre as mãos
antes que se decida
se era fome
ou apenas curiosidade.

O tempo não pergunta,
não olha para trás,
move-se pela água turva
com a calma exata
de quem não precisa chegar.

Nós, na margem,
colecionamos nomes,
datas, promessas secas ao sol,
enquanto o peixe —
imparcial, silencioso —
segue adiante,
sem destino
e, por isso mesmo,
perfeitamente vivo.

Há uma estranha dignidade
em não saber onde terminar,
em apenas atravessar
a corrente
com o corpo atento
ao agora.

Talvez viver
seja isso:
não dominar o rio,
não ser a rede,
mas aceitar o brilho breve
do que passa
e ainda assim
chamá-lo de sentido.

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