terça-feira, 30 de dezembro de 2025

No Cafezal, à Noite


Uma vez fomos ao cafezal
quando a noite ainda aprendia
a ser noite.
As folhas tinham um brilho áspero,
como couro lavado em rio escuro,
e o cheiro verde subia do chão
com paciência.

Os outros riam longe.
Aqui, só o grilo
e a respiração do mato.

Natan ficou ao meu lado.
A lua — mal educada —
iluminava apenas o necessário:
mãos,
a curva do ombro,
o vapor do corpo
contra o frio leve.

Havia um constrangimento doce,
como quando algo vivo
se move sem aviso.
Ele falou baixo,
como se contasse um segredo à terra,
e o mundo pareceu inclinar-se
um centímetro.

Não era medo.
Era atenção.

Quando ele tocou minha mão,
não foi urgência,
mas convite —
o mesmo gesto
com que se guia alguém
até a borda de um lago
para que veja o reflexo.

O tempo ali perdeu a pressa.
Tudo se tornou branco por um instante:
a lua,
o ar suspenso,
o pensamento.

Depois, silêncio.
E aquele sentimento raro
de ter estado
exatamente onde o corpo queria estar,
sem mapa,
como o café crescendo no escuro,
como algo que não pede nome
e, ainda assim,
permanece.

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