terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Brasileiro Profissionalmente Decepcionado


 Mainardi é um brasileiro que sofre do que poderíamos chamar de patriotismo às avessas. Ama tanto o Brasil que prefere odiá-lo todos os dias, com método, disciplina e pontualidade quase suíça — embora o alvo seja invariavelmente tropical.

Enquanto o brasileiro comum reclama do calor, do trânsito ou do preço do café, Mainardi reclama do conceito de Brasil. Não é o buraco na rua que o incomoda, é a rua existir. Se pudesse, talvez asfaltasse o país inteiro rumo ao Atlântico.

Para Mainardi, o Brasil não é apenas ruim — é o pior. O pior governo, o pior povo, a pior cultura, o pior comportamento à mesa. Se o Apocalipse chegasse aqui, ele escreveria que chegou atrasado e mal organizado.

Há, porém, algo de comovente nisso tudo. Porque xingar o Brasil exige atenção constante. É um trabalho em tempo integral. Não basta odiar — é preciso acompanhar as notícias, ler jornais, assistir entrevistas, para confirmar diariamente que o país continua sendo um desastre. Dá trabalho torcer contra a própria torcida.

Mainardi xinga com eloquência, o que é um mérito literário. Seus insultos vêm bem vestidos, cheios de referências, educados até. Ele não chama o Brasil de idiota — chama de “conceitualmente inviável”. É o mesmo tapa, mas com luva de veludo.

O curioso é que, ao declarar que o Brasil não presta, ele reafirma uma ligação profunda com ele. Só quem é íntimo reclama assim. Estrangeiros desprezam de longe. Mainardi critica de perto, com a atenção de quem conhece cada defeito da casa onde cresceu.

Talvez seja esse o paradoxo: ao dizer que sente vergonha de ser brasileiro, ele demonstra um apego tipicamente brasileiro — o de achar que poderia ter sido melhor. É um amor ressentido, uma paixão que virou coluna.

No fundo, Diogo Mainardi é como aquele parente que foi morar fora e volta só para dizer que lá fora tudo funciona. Ninguém pediu, mas ele insiste. E a família escuta, entre irritada e divertida, porque reconhece o exagero — e porque, no fundo, sabe que ele ainda fala a nossa língua.

O Brasil continuará sendo esse caos com sotaque.
E Mainardi continuará sendo brasileiro, apesar de tudo.
Talvez seja isso que mais o irrite.

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