segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Para onde vai a humanidade


Entre relógios quebrados e satélites cegos
caminhamos —
uma procissão de vozes elétricas
rezando para telas frias.
O pó das bibliotecas flutua
como neve sem promessa,
e os profetas agora falam em gráficos.

A terra range sob números,
os mares aprendem novas línguas ácidas,
as cidades oram com lâmpadas acesas
a um deus de emergência permanente.
Onde antes havia verbo,
há ruído;
onde havia sentido,
há gestão do abismo.

Para onde vai a humanidade?
Para frente, dizem os mapas.
Para o alto, dizem os foguetes.
Mas o coração desce —
sempre desce —
para câmaras internas
onde o medo se ajoelha.

O fim do mundo não virá com trombetas,
mas com notificações adiadas,
com a lenta extinção do espanto.
O universo encolhe-se em equações cansadas,
as estrelas tornam-se arquivos mortos,
e o tempo mastiga seus próprios ossos.

Ainda assim, alguém murmura salmos
numa língua que já não salva.
Esperanças bíblicas, infundáveis,
pendem como andaimes sobre o nada:
um céu prometido sem endereço,
uma redenção sem remetente.

Talvez não haja juízo,
nem nova Jerusalém,
apenas este intervalo febril
entre o colapso e a fé.
E nesse espaço mínimo,
quase invisível,
o homem insiste em acender velas
no vento do fim —
não porque creia,
mas porque treme.

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