quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Esplendor do Mosaico


Por trás do mundo sutil que o olho traça,

Há um louvor nas coisas desiguais:

No céu que veste a cor que o vento passa,

E no padrão das trutas fluviais.


O chão outonal que a castanha abrasa,

O campo em colcha, o gado em seu matiz,

O voo incerto que equilibra a asa,

E o velho ofício que o comércio diz.


Se o mundo muda em sua forma estranha,

Se o doce e o azedo tecem o viver,

E a sombra corre onde a luz ganha,


Há uma Mão que tudo faz erguer.

No mutável cosmos que Sua voz conduz,

Louvado seja o Autor da eterna Luz.

terça-feira, 19 de maio de 2026

A forma

 


Visão arcaíca

 


Visão de Picasso

 


Senso poético

 


Magoados

 


A perda - Ainda

 



Suavidade

 


Expressão

 


Frio - Dístico

 




Jade

 


Mel

 


Itanhaém

 


Museu

 


A Força Primordial das Formas


Vultos de pavor, formas violentas,
Cravadas no ébano rústico e bruto,
Máscaras puras de um poder oculto,
Que acendem almas e visões cinzentas!

Gritam nos vermelhos e nas tintas quentes,
O espasmo cego de um calor indulto,
Força selvagem que consagra o culto
De antigas raças, livres e potentes.

Não há disfarce no semblante rude,
Há uma verdade que a matéria encerra,
Longe do frio traço do Ocidente...

É o sopro eterno, a mística atitude,
O sangue vivo que palpita a terra,
No olhar de fogo desse deus ausente!


O Carnaval dos Espectros

 


Gargalham gessos, rusem momos, escarros,
Na bizarra comédia do rito urbano,
Máscaras frias de um cinismo insano,
Que ocultam vermes sob os vis aparatos!

Rostos de gesso, esmálteas cores, farrapos,
Escondem a alma e o esqueleto humano;
Rha-rha! soluça o lábio soberano,
Neste delírio de tiranos e trapos.

Olhares vagos de pupilas mortas,
Burgueses sôfregos na turba imensa,
Batendo às cegas nas eternas portas...

E a Morte assiste, rutilante e fria,
Vendo a miséria dessa turba densa,
Chorar de angústia onde a ilusão sorria!


Às máscaras negras

Às máscaras negras, místicas, soturnas,

Que o Ouro do Mistério unge e consagra,

Vão procissões de sombras taciturnas

Sob luas de marfim, febris de lágra.


Têm nos olhos o abismo que se amarga

Nos velhos deuses rútilos da Noite;

E uma volúpia bárbara se alarga

Na selva astral de cada estranho açoite.


Máscaras! máscaras! litúrgicas feras,

Feitas de sonho, ébano e segredo,

Cheias de sóis e chagas funerárias...


Guardais nas bocas mudas e severas

Todo o clarim do Cósmico Degredo

E as nostalgias místicas dos párias.

O Verbo das Formas Escuras


Ó formas de ébano, estátuas esculpidas,

Na mística expressão de um traço mudo,

Máscaras divinais, além de tudo,

Pelas mãos ancestrais bem cinzeladas, vidas!


Vêm do fundo das selvas esquecidas,

No negrume do tempo, no veludo,

Trazer o espasmo do invisível, rudo,

Nas feições altaneiras e sagradas.


Há nos olhos vazios um mistério,

Um fulgor de astros, um silêncio grave,

Que evoca o rito de um xamã sidéreo...


E a alma, que chora na agonia leve,

Sente o sopro sagrado, o canto suave,

Dessa beleza que a matéria eleva!

Nas vielas da carne inconsolável

 Nas vielas da carne inconsolável,

Onde a libido espuma e se contorce,

Meu ser — neurônio enfermo — desconforte

Na busca do prazer inominável.


Desejo o abismo cálido, insondável,

A carne ambígua que seduz e torce;

E o sangue, como um rio que me absorve,

Ferve num delírio lamentável.


Ó corpos da penumbra e da sarjeta,

Mistura de perfume e podridão,

Arquitetura estranha e predileta!


Em cada beijo há morte e combustão;

E o gozo, essa bactéria incompleta,

Devora o coração da solidão.

O Espasmo Multiplicado


Na turva Angústia desta Carne aflita,

Ruge o Desejo em sôfregos clamores.

A Alma, em tortura, busca e necessita

Vários altares de profanos palores.


Vozes de ninfas, formas de hermafrodita,

Em pálidas alvuras e esplendores...

O ser anseia a fúria que palpita

Em mil vasos de lodo e de amargores.


Verter o fluido, o lácteo sacramento,

No abismo oculto de cada tormento,

Saciando o Tédio que na sombra atua...


E em cada espasmo de mistério e espuma,

Multiplicar a Essência entre a bruma,

Onde a carne mais vil se transfigura.

No curral espectral da madrugada

 No curral espectral da madrugada,

Onde a geada as tábuas apodrecia,

Uma mulher neurótica e sombria 

Fitava a besta negra ensanguentada.


Havia nos seus olhos a fissura

Dos seres consumidos pela tara;

E a noite, em sua umidade funerária,

Cheirava a estrume, sêmen e loucura.


O corcel relinchava. Em cada nervo

Passava a força bruta da matéria,

Como um deus bacteriano e perverso.


E ela, febril, convulsa e deletéria,

Queria sorver do animal protervo

A alva seiva da miséria etérea.

No meio da esquina fria

 Na esquina hostil, de asfalto e bruma,

Gemia a noite em úmidos acessos;
E ela, à luz dos postes opressos,
Era um clarim de carne e de amargura.

Fria garoa — microscópica agrura —
Caía sobre os cílios e os excessos;
Nos lábios, convulsões e mudos êxtases espessos,
No corpo, a febre lúbrica e obscura.

Riam bêbados. A cidade, informe,
Mostrava os dentes podres da miséria,
Como um chacal de apetite enorme.

E ela, entre o gozo, o frio e a bactéria,
Parecia um anjo artificial disforme
Parindo luz na podridão da matéria.

Alvuras de Ébano

 


Espasmos de Alvura


Nas bocas da Noite, em prece purpurina,

Dezenove invernos de uma carne em flor,

Tragam o espasmo, a Essência sibilina,

No altar da Língua, em místico amargor.


Duas deusas trans, na glória diamantina,

Vertem o fluido do supremo Amor,

Lácteo segredo que na espádua inclina,

Simbólico licor de um brando horror.


Vozes veladas, trêmulos gemidos,

Na taça hermafrodita dos sentidos

O espasmo ferve, rutilante e mudo...


E a Alma se dissolve em fumo e espuma,

Enquanto a Gozada, em brancura e bruma,

Sacia a Virgem que devora o Tudo.

O Sorriso das Trevas



No vácuo negro da penumbra fria,

Onde a matéria cega se condensa,

A mão de Mel — sutil, veloz, suspensa —

Buscou a minha carne que tremia.


Tateou no escuro a humana anatomia,

O espécime de nervo e de desejo,

Quebrando o gelo com o calor do ensejo,

Naquela oculta e tátil simetria.


E quando a luz do espaço se fez rara,

Um brilho fosforescente em sua cara

Rompeu a treva que o meu peito oprime:


Sorriu-me Mel, com a força que descara

A própria vida que na sombra para,

Bela e herética, acima de qualquer crime!

O Sacramento da Noite


Sob a vertigem líquida da chuva,

Na esquina escura onde o asfalto sangra,

A boca humana, em paroxismo, gangra

E o desejo sem peias desmuda.


Sorvo o membro da ninfa hipertrofiada,

Deusa de espasmo e de matéria estranha,

Que a noite gélida e chuvosa banha,

Na solidão da rua abandonada.


O sêmen morno que a uretra verte,

No lodo urbano que a ilusão perverte,

É o sumo bruto de um clarão maldito...


E entre o escarro da chuva e o frio tétrico,

A carne atinge o seu limite métrico,

Chupando a vida frente ao Infinito!

A Fresta do Infinito



Olho o labirinto de carne exposta,

Livre do pelo e da floresta escura,

Onde a lâmina vil fez a moldura

Da fresta mais carnal e mais augusta.


O espelho dessa vulva desnudada,

Que a meretriz entrega ao mundo imundo,

É o portal mais úmido e profundo

Por onde entra a matéria escravizada.


Não há mistério que o pudor encubra:

À vista da pupila que descortina,

Geme o desejo na planície rubra...


E o homem, que da morte é a triste queixa,

Encontra nessa fenda purpurina

O único lodo que o universo deixa.

O Triunfo de Elisa


Assisto à tela onde a matéria exulta

E o olho humano, em choque, se fascina:

A geometria sacra e uterina

Que na nudez de Elisa se suntuam!

São duas massas de beleza oculta,

Curva perfeita, hipnótica, divina,

Que a própria lei da carne determina

E o espanto cego dos sentidos insulta!


Diante das nádegas desse anjo impuro,

O pensamento dobra-se, maduro,

Louvando a forma desse espécime raro...

E o verme, que nos rói no lodo escuro,

Olhando o traço desse dorso puro,

Chora a miséria do seu próprio escarro!

A Lei da Gravidade Humana

 


O Ponto Ômega da Matéria

 


A Metamorfose do Desejo

Rasga-se a velha forma fenotípica!

A carne, em sua audácia soberana,

Subverte a velha lei anatômica humana

Numa explosão de estética atípica.


Na tela, a nova vanguarda erótica e mística

Grita a matéria livre, que profana

O dogma estrito da ilusão cristã

E a rigidez da antiga biofísica.


Não há mais o segredo ou o escarro oculto:

O corpo trans ergue-se em pleno culto,

Belo, explícito, em luz de alta voltagem!


Vence o fetiche a força do neurônio,

E o prazer moderno, livre de demônio,

Grava na carne a sua própria imagem.

O Império do Nada / O Espectro da Monera Cósmica


Viste, Schopenhauer, na medula fria

Desta matéria orgânica e maldita,

A Vontade cega que o orbe agita

E em cada verme a dor multiplica.


Se o próprio satanás, na sua orgia

De treva e podridão que o peito habita,

O Céu governasse, a luz bendita

Nesta mesma miséria se fundiria!


O mundo é o escarro de um deus decadente,

Onde a carne chora a sinapse doente

E o átomo escraviza a humana ilusão.


Nenhum consolo resta ao triste vivente:

Somos a larva que rasteja impotente

No trono negro da destruição.








POEMETOS -

 

POEMETOS

Edição Nº 42 — Arte & Sentimento



DORME

então ali o paraíso do coração era o sol.

Nascimento

 


Lírismo

 


Thought

 


PAIXÃO

 


Balsa

 


Símbolo

 


broquel

 


Natureza morta

 


Concorda

 


A Chuva Me Abraça Como uma Amante Infiel


A chuva cai como lágrimas prateadas,

Manchando o asfalto, alma da cidade.

Eu ando só, com a cabeça curvada,

Um jovem que busca, sem saber, o que a vida me traz de novidade.


A cada pingo, uma memória que se desfaz,

Um sonho que se perde no turbilhão da rua.

O cheiro de terra molhada me atrai,

Uma melancolia doce que a alma me desnuda.


As luzes dos prédios se dissolvem na névoa,

Espectros de um mundo que me parece distante.

O frio me envolve, como um abraço de seda,

Mas o coração está quente, como um sol que renasce a cada instante.


Eu olho para as poças, que refletem o céu,

E vejo meu próprio rosto, um estranho que me encara.

Um jovem que vaga, sem saber para onde,

Mas que sabe que a vida é uma aventura, que a chuva me convida a abraçar.


E quando a chuva cessar, e o sol reinar de novo,

Eu serei um homem mais forte, mais maduro e mais livre.

Pois cada gota de chuva que caiu sobre mim,

Foi um passo que eu dei em direção ao meu próprio eu, que me espera.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Mapa astral

 


A poesia um

 


Alma

 


Caminho

 


Harmônia

 


Consagração

 


QUANDO ELA

 


Marinho

 


Na cama

 


A alma depois do choro

 


o caminho mais claro

 


Vibrações

 


A criação do mundo

 


sonho avantajado

 


O casal

 


Quadrinhos

 


Quadrinho

 


O Alfaiate do Vácuo


Arnaldo risca a palavra até que a palavra falte. Ele não quer o enfeite, o esmalte, ele quer a casca que lavra o nada.


Poeta que morde o vento, que desconstrói o edifício, faz do silêncio seu ofício e do vazio, o alimento da fala.


O mundo, esse ruído imenso, em suas mãos vira gagueira, letra solta, poeira, onde o pensamento denso se esvazia.


Ele olha o vão entre as coisas, o espaço que a forma esquece. Sua poesia é uma prece ao reverso das lousas, ao dia


em que o sentido desmorona e a gente, enfim, compreende: o vazio não se depreende, é o silêncio que coroa Arnaldo.

A Cópula das Sombras


Ah! Um urubu pousou na minha sorte

Augusto dos Anjos


Pousam as aves de sinistro porte,

Após o banquete da carniça imunda,

Onde sorveram o licor da morte

Na carne morta, podre e decolunda.


Saciados do espólio do cadáver frio,

Que apodrecia no lodaçal do mundo,

Os dois urubus, num espasmo sombrio,

Entregam-se ao gozo, místico e profundo.


As asas negras vibram no abandono,

Garras que rasgam a atmosfera escura,

Unindo a vida ao derradeiro sono,


Na mais bizarra e fúnebre ventura...

E ali, na lama, onde a matéria fenece,

A própria Morte em Vida transmutou-se... e amanhece.

O Triunfo Alvo no Altar da Carne

No antro escuro de volúpias densas,

Onde a matéria em fúria se derrama,

Vem a Visão que quebra as leis suspensas

E no imo d’alma uma quietude inflama.


Um jovem loiro, de alvura bizantina,

Santuário de marfim, lírio de espanto,

Cercado pela turba andrógina, divina,

De deusas trans de soberano encanto.


No rito rude do bukkake insano,

Onde o sêmen é onda purpurina,

A fúria explode do desejo humano,

Mas nele pousa uma quietude fina.


Cai sobre o efebo a via-láctea esparsa,

O fluido sacro que o contorno inunda...

E o que no mundo pareceria farsa

Gera uma paz idílica, profunda.


Ó mistério das formas saturadas!

Olhando o gozo que esses corpos tecem,

As minhas dores são pacificadas,

E os meus infernos mudamente calam... e adormecem.

Visão Sacra do Lupanar

Entro na névoa de um sinistro abrigo,

No lupanar de carnais esplendores,

Onde o Desejo, esse fantasma antigo,

Acende a febre de cruéis ardores.


Busco o alívio da matéria imunda,

O espasmo vil que esta carne reclama...

Mas eis que surge, na noite profunda,

Uma visão que a minh'alma inflama!


Uma jovem, de formas purpurinas,

Numa nudez de olímpica realeza,

Dada ao delírio de duas divinas,

Sagradas formas de sutil beleza:


Corpos mutantes, de andrógena graça,

Travestis anjos em gozo profundo!

E aquela carne que se entrega e enlaça,

Vence a miséria deste lodo mundo.


Não era o vício em sua fúria insana,

Nem o pecado que o inferno condena:

Era a volúpia transmutada, arcana,

Numa liturgia mística e serena.


Ó possessão de esplendores divinos!

Naquele leito de luxúria e espanto,

Unem-se os sexos, os fluidos, os hinos...

E o Lupanar se santifica em Canto!

O Sofrimento



Para além da matéria que apodrece,

Neste lodo de angústias e de escarros,

Onde a carne na terra fenecesse

E os homens são apenas tristes barros,


Surge um grito de luz na noite escura!

É o Cisne Negro, a estrofálica lenda,

Que transmuta a miséria e a tortura

Numa lívida e mística moenda.


Cruz e Sousa! No espasmo do tormento,

Teu verso — quimicamente depurado —

Vence o verme, o escaravelho e o vento!


Sublimas o sofrimento humano e a lama,

E a dor, que em nossa boca é fel vazado,

Na tua flama, transubstanciada, brama!

Nirvana sincero

Em desapego


da forma humana intangível.


Pensando


Eu me liberto.


Ali encontrei,


num grito


de sentimentos,


sinceramente


meu Nirvana


finalmente.

Dominação ou vencimento

Nada


pode me controlar


ou me conquistar.


Quando minha alma


ainda


desperta,


ela explode em plena floração,


transbordando


em êxtase


imensurável


emoções.

As Mãos do Pintor Cubista



Não mais a linha fluida, a curva blanda,

Que a natureza espalha no horizonte;

Nem o contorno ideal que a musa manda,

Na transparência límpida da fonte.


Essas mãos, que o cinzel do gênio guia,

Buscam a força na rudeza esquiva:

Trassam o espaço em rude geometria,

Partem o mundo na matéria viva!


Olham o objeto por mil lados feitos,

Prendem o tempo em planos desiguais,

E em ângulos violentos, imperfeitos,

Criam verdades muito mais reais.


Mãos de artífice audaz, que em traço duro,

Rompendo os moldes do passado antigo,

Gravem na tela a forma do futuro!

Majestade Preta

 Ó Formas alvas, brancas, Formas claras...

Aqui vos deixo, em vosso vácuo imenso!

Canto a Noite de sombras raras, raras,

Onde o Mistério queima o próprio incenso.


Ó Cor das cores, Majestade Preta!

Abismo augusto de infinitas dores,

Que trazes na opulência de um planeta

Os mais profundos, fúlgidos fulgores.


No ébano sacro dessa noite escura,

Flutua a alma lívida, intangível,

Liberta da matéria e da tortura,

Subindo ao Astral, no espasmo mais terrível...

Soberana da Dor, Noturna Estrela,

A Noite é a Luz — e como é santo vê-la!

A Sinergia do Absoluto

 Nas entranhas do Cosmos, onde a ideia estagna,

Eu vejo a Índia — panteísta e mística —,

Bebendo o Ganges numa ânsia estatística,

Enquanto a carne em podridão se magna.


Lá, o Nirvana o sofrimento aplaca,

E a alma, liberta da matéria imunda,

Abisma-se na noite mais profunda,

Onde a ilusão do Maya se esfiapa.


E além, no Extremo, em clausura búdica,

O Japão se recolhe, mudo e esconso,

Numa ascese silente, quase lúdica,


Fechado ao cancro que o Ocidente inflama...

Dois polos de mistério, onde o mofado sonso

Do homem se esvai na palidez do Bramã!

Tédio


No útero cinzento do tédio, onde a Vontade se masturba sem prazer, engendra-se a mais pura das artes: a estética do nada que se arrasta. É o grande vómito lento da existência, um pus metafísico que escorre pelas horas sem gotejar.

O tédio não é ausência. É presença plena e viscosa, um molusco colossal que adere à alma e suga-lhe as cores. Seus tentáculos são minutos idênticos, suas ventosas são olhares perdidos no teto rachado do quarto.

Ó estética sublime do vazio! Não há catástrofe, não há sangue, não há drama — apenas o peso de ser, o insuportável leveza de continuar existindo sem motivo aparente.

O tédio é o espelho fiel: nele se vê a caveira sorrindo por trás da carne ainda quente, o esqueleto que já se aborrece de si mesmo antes mesmo de morrer. É a consciência convertida em ferida crônica, uma ferida que não sangra — apenas lateja, monótona, ritmada, eterna.

Nas tardes de tédio perfeito, o ar se torna gelatina opaca. Os sons chegam amortecidos, como se o mundo inteiro estivesse dentro de um útero morto. Até o próprio pensamento se cansa de pensar e começa a roer a si mesmo, num lento e educado delírio.

Schopenhauer sorri no escuro: “Eis a verdade sem maquiagem.” O tédio é a Vontade que se olha no espelho e, por um instante, tem nojo de si.

E o homem, esse animal que inventou o entretenimento para fugir da única coisa real, volta sempre ao tédio como o cão volta ao vômito: com uma espécie de ternura masoquista, quase amorosa.

Salve, ó Tédio, grande esteta! Tu que purificas a alma de toda ilusão barata, tu que desnudas o cosmos até restar apenas a nudez absoluta do nada.

Nele, e só nele, a existência finalmente revela sua obra-prima: um quadro branco sobre fundo branco, pintado com o cuspe de Deus num domingo à tarde sem fim.

Elogio a Schopenhauer


No fundo podre da existência, onde o verme da Vontade rói sem trégua, ergue-se, lúcido e glacial, o gênio de Danzig, Schopenhauer! Ele viu o que os outros, cegos de esperança, não ousam ver: o nada disfarçado de carne, o vazio vestido de forma.

Ó filósofo da caveira, anatomista do tédio universal, tu abriste o peito do homem e mostraste o motor cego, essa Vontade insaciável, hidra de mil cabeças famintas, que gera, copula, devora e depois se aborrece de si mesma.

A vida é úlcera purulenta sobre o nada. O prazer? Breve anestesia entre duas dores. O amor? Duas larvas se contorcendo na mesma carne putrefata. A glória? Eco de flatulência em crânio oco.

Tu, Schopenhauer, disseste a verdade nua e repugnante: somos fenômenos passageiros de uma essência cega e estúpida, marionetes de um impulso sem fim e sem sentido, dançando sobre o abismo enquanto fingimos ter destino.

Bendito sejas tu que arrancaste o véu de Maya e mostraste o espetáculo grotesco da existência humana: um macaco pensante que sofre por saber que sofre, e que, no fim, apenas apodrece com mais consciência.

Salve, grande pessimista! Enquanto os idiotas cantam hinos ao Progresso, tu fumas teu cachimbo, sereno, olhando o mundo como quem contempla um vasto cemitério de vermes iludidos.

E eu, teu discípulo tardio, sinto no peito o mesmo frio lúcido: a vida é dor, o resto é ilusão, e a única sabedoria é ter a coragem de olhar fixamente para o grande Vazio e não desviar os olhos.

O Burguês do Shopping


No shopping, antro de luzes mercantis e ar condicionado, arrasta-se a turba imunda, a horda de cérebros ocos, espécie de símio em chinelo, com cartão de crédito na mão, vindo sugar o sebo alheio no balcão do McDonald’s.

Ó protoplasma ignaro, gelatina de hormônios e hambúrguer! Tu que berra com a atendente por causa de uma batata fria, tu, cujo crânio é urna rasa onde boiam dois neurônios em sopa de gordura trans e ideologia de Instagram.

Teu verbo é cuspe, tua ira é flatulência de intestino burguês, exiges respeito enquanto tua alma fede a fritura barata. Animal de shopping center, bípede sem metafísica, escravo feliz do neon, capacho da marca globalizada.

Que a maionese te afogue, ó aborto da evolução tardia! Que o refrigerante te encha as veias de açúcar e estupidez, e que, um dia, no meio do “quero reclamar”, teu coraçãozinho estoure como um nugget podre dentro do peito oco.

Assim caminha a raça: do berço ao caixa, do caixa ao túmulo, comendo, gritando, consumindo, sem nunca haver pensado uma só vez.

A pedra no rio do meu peito é osso feito



A pedra no rio do meu peito  

é osso feito.  

Não rola, não cede, não se abranda  

com a água que passa e finge consolo.


Fica ali, quieta,  

pesando o que não digo,  

entalhada em silêncio de quarenta anos.  

Às vezes lateja como dente cariado  

quando o dia amanhece sem motivo.


Eu passo a mão por dentro do peito  

e toco essa coisa dura,  

redonda, antiga,  

quase mineral.  

É o que restou de tanto querer  

e de tanto não querer.


O rio corre por fora,  

limpo, brasileiro, distraído.  

Dentro, a pedra.  

E o osso.  

E eu, entre os dois,  

aprendendo a ser paisagem.

A Lírica do Mistério


Ó errante entre névoas de aurora e crepúsculo, onde o rio se faz pensamento e o pensamento rio sem fim, eu canto o véu que não se rasga, a sombra que se ilumina no centro do abismo que pulsa como um coração de anta.

Misterium! Misterium! Ecoa a onça negra nos tetos de folhas, e a lua, velha feiticeira tupinambá, despeja prata líquida sobre os ossos dos mortos que ainda sonham.

Eu vi o Mistério dançar nu entre cipós e estrelas, corpo de mulher e de serpente, seios de montanha, ventre de vulcão adormecido, e na sua boca o verbo que precede o verbo, a sílaba que queima antes de ser dita.

Ó tu, que não tens nome e tens todos os nomes, que te escondes na pupila do jaguar e na lágrima do menino cego, eu te persigo pelas trilhas do impossível, por entre lianas de luz e cipós de treva entrelaçados.

O vento traz cheiro de incenso selvagem e sangue antigo, as árvores falam em língua que o homem esqueceu, e cada folha é um livro aberto onde se escreve o segredo que dissolve o eu no Tu eterno.

Mysterium tremendum et fascinans! Eu me dissolvo, eu me recomponho, sou o grito do macaco uivando na copa, sou o silêncio da pedra que escuta o tempo.

Vem, Lírica do Mistério, despeja sobre mim teu mel negro e teu veneno doce, faze-me louco de claridade, faze-me sábio de ignorância profunda, até que eu seja apenas o eco de tua voz sem boca no coração da mata que nunca dorme.

Assim canto, errante no século que não me quis, e o Mistério ri, e o rio segue, e o poema não acaba.

Uma Boa Chupada



Na penumbra quente onde o desejo se condensa, Sasha, travesti de boca infernal e divina, ajoelhou-se como sacerdotisa da intensa luxúria negra que a carne humana ilumina.

Seus lábios vermelhos, úmidos de sombra e mel, envolveram meu pau latejante e soberano, descendo devagar, num ritual cruel e fiel, engolindo a carne até o abismo mais profano.

Língua de fogo e veludo que serpenteia, chupando com fome ancestral, sem pudor nem limite, olhos semicerrados na volúpia que incendeia, enquanto o mundo inteiro se reduzia ao seu grito.

Ó boca sagrada de deusa e de demônio, que suga a alma junto com o sangue que pulsa, subindo e descendo no cetro de meu império, levando-me ao limiar da morte e da luz.

Não avisei. O espasmo veio como raio cego, e explodi em golfadas grossas, quentes, brancas, litros de porra astral jorrando sem freio, inundando sua garganta em enchente de lava.

Ela engasgou, surpresa, olhos abertos no escuro, mas bebeu o luar denso que eu lhe oferecia, algumas gotas brancas escorrendo do canto impuro, como estrelas líquidas na noite mais sombria.

Ó boa chupada, ó sacramento secreto, onde o prazer se faz dor e a dor se faz deleite, na boca de uma travesti que tudo aceita e transforma meu gozo em mistério e deleite.

Sasha e o seu Segredo



Nas dobras da noite, onde o mistério se adensa,
Sasha surgiu, flor ambígua de veludo e sombra,
corpo de mulher que a lua mesma inveja e pensa,
silêncio de seios e um segredo que não se nombra.

Ele a buscava como quem busca a estrela ignota,
beijava-lhe a boca de mel e de veneno,
descia pelo ventre num ritual sem nota,
até tocar o cetro oculto, erguido e sereno.

Ó surpresa de carne! Ó revelação divina!
Em vez de horror, um clarão de júbilo acendeu:
o homem sorriu, como quem encontra a sina
que sempre sonhara e jamais compreendera.

Ajoelhou-se então, devoto do mistério profundo,
e tomou nos lábios o grelo secreto e real,
chupando com fome sagrada, sem mundo,
o pau latejante, coluna de gozo astral.

Sasha arqueou-se, deusa entre trevas e luz,
e explodiu em jorros imensos, brancos, infinitos,
litros de porra pura, luar denso e transluz,
inundando a boca que se abriu em delírio bendito.

Ele engoliu tudo, sedento e feliz, sem medo,
bebendo o leite astral da travesti encantada,
e, com os lábios ainda brilhantes de segredo,
beijou-a na boca, unindo as almas na madrugada.

Ó Sasha, ó segredo que se fez revelação,
no beijo branco e quente do vício e da paixão!

A Boneca (Trans)

 A Boneca (Trans)


Na esquina esquecida onde a noite se condensa,
surge a Boneca, espectro de carne e mistério,
nua, marmórea, sob o luar que a incensa,
travesti de sombras, rainha do delírio.

Seus seios altos palpitam na penumbra fria,
e a mão delicada, longa, de unhas vermelhas,
desliza pelo cetro que se ergue em agonia,
varão soberbo, latejante entre as estrelas.

Ela se punheta devagar, como quem reza
um ritual antigo de prazer e dor,
olhos semicerrados na volúpia acesa,

até que o corpo arqueia num espasmo de flor:
litros de porra branca jorram na calçada,
leite astral, luar grosso que inunda a madrugada.

Ó Boneca sagrada do vício e da beleza,
teu gozo ilumina a lama e a tristeza.

No Oculto Banheiro

 No Oculto Banheiro


No oculto banheiro de azulejos frios,
onde a luz baça morre em vapor denso,
dois vultos se encontram, espectros sombrios,
unindo na sombra o desejo imenso.

Mãos negras de luxúria buscam a carne,
bocas que ardem em beijos de fogo e fel,
e o pau erguido, cetro de dor e carne,
penetra o abismo que se abre, cruel.

Gemidos abafados sobem como incenso
no templo secreto do vício profundo;
corpos suados, presos num ritmo intenso,

até que a noite explode em jorro mundo:
litros de porra branca, luar que desce,
inundando a lama com neve celeste.

Ó sêmen puro, leite astral e frio,
que banha o pecado e o torna divino.

No Quarto os Gemidos São Altos

 No Quarto os Gemidos São Altos


No quarto onde a sombra se condensa em carne, gemidos sobem como preces sem destino, ecoam, roucos, no silêncio que se esgarça, vícios humanos, lama escura do destino.

Ó luxúria triste, animal que se arrasta, boca que suga e morde sem jamais saciar, corpos que se entrelaçam em nódoas de suor, almas perdidas no charco do gozar.

O pau que fere, o cu que se abre em ferida, seios mordidos, línguas que lambem o abismo, tudo é fome que nunca se alimenta, tudo é prisão de carne e de delírio.

Tristeza negra do prazer que se consome, gozo que nasce sujo, viscoso, quente, e cai como baba de deus abandonado sobre lençóis que guardam o cheiro da morte.

Mas eis que, no ápice da noite mais trevosa, explode enfim a branca flor do espasmo: gozo branco, luar que jorra e se derrama, leite astral sobre a carne profanada.

Límpido, puro, como neve que desce do céu de um astro frio e indiferente, banha os corpos exaustos, ilumina a lama, e transforma o vício em catedral de luz silente.

Ó gozo branco do luar, ó sêmen santo, na escuridão do quarto és a única graça, estrelas líquidas que caem do homem e, por um instante, salvam a desgraça.

Sasha e seu greo secreto

 Sasha e seu greo secreto


No coração da noite, onde o vício floresce, Sasha surge, flor de carne e contradição, Corpo de mulher que o demônio enfeitiça, E entre as coxas, um segredo de ferro e paixão.

Imenso, latejante, rei das sombras profundas, Seu grelo secreto ergue-se como um cetro maldito, Bastão de carne que desafia as normas do mundo, E faz gemer os anjos caídos no infinito.

Ela busca uma boca de mulher, quente e gulosa, Lábios pintados que se abram como ferida vermelha, Para sugar o néctar grosso dessa vara orgulhosa, Engolindo até o abismo, sem pudor, sem ovelha.

Ao mesmo tempo, suspira por um homem forte e bruto, Que a tome por detrás, rasgando o véu do pudor, Que enterre fundo no seu cu faminto e astuto, Enquanto o grelo pulsa, senhor do seu ardor.

Ó Sasha, hermafrodita das modernas Sodomas, Tu carregas no corpo o paraíso e o inferno juntos, Mulher no gemido, homem na fúria que assoma, Flor do Mal perfeita, onde o gozo é sem fim e sem mundo.

Que venham a boca e o pau, que venha o duplo pecado, Que teu greo secreto reine, úmido, duro, sagrado.

Sasha e seu Grelo Secreto

 Sasha e seu Grelo Secreto


Nas ruas de asfalto onde o pecado floresce, Sasha caminha, ídolo de carne ambígua e bela, Corpo de mulher que a luxúria enobrece, E entre as pernas, um monstro erguido que revela.

Seu grelo secreto, imenso, veioso, soberano, Bastão de carne quente que desafia o céu, Púrpura e latejante como um cetro profano, Que faz tremer anjos e demônios no seu véu.

Ela sonha com uma mulher de boca gulosa, Lábios vermelhos como feridas de amor, Que se ajoelhe, serva devota e viciosa, E chupe até o fundo esse pau que não tem pudor.

Ao mesmo tempo, anseia por um homem bruto e forte, Que a dobre sobre o abismo da noite mais escura, Que lhe rasgue o cu apertado com fúria e sorte, Enquanto o grelo pulsa, rei da dupla loucura.

Ó Sasha, flor maldita das modernas Sodomas, Hermafrodita perfeita onde o Bem e o Mal se beijam, Mulher no perfume, homem na vara que assoma, Tu carregas no corpo todos os infernos que se desejam.

Que venha a boca molhada e o pau que a fode sem pena, Que teu grelo secreto reine, grosso, duro, sereno, No banquete negro onde a carne nunca se condena, E o gozo é eterno, profundo, cruel e sereno.

A Lua Cheia e Nada Mais

 A Lua Cheia e Nada Mais


Ó lua cheia que no céu se derrama, Cheia, redonda, branca de desejo, Assim eu quero ver minha alma em chama Vertendo em golfadas todo o meu segredo.

Litros de gozo, espesso e quente rio, Como luar que transborda da montanha, Quero verter na boca de um delírio, De uma mulher safada que se banha

No vício sem pudor, de língua ávida e quente, Que abre os lábios como quem pede mais, E engole a enchente sem temor oumente,

Lambendo ainda o resto que restar. Que ela se afogue em mim, lua de carne, E nada mais — só gozo, só luar que arde.

Assim, na noite funda do pecado, Eu me farei lua cheia em seu gargalo.

A Morena Misteriosa

 A Morena Misteriosa


Nos salões do desejo, onde a luz é escassa, Surge uma morena de mistério envolto, Olhar que queima e ao mesmo tempo passa Como quem sabe o preço de ser revolto.

Elisa, ó sombra de feitiço lento, Pele de bronze que a cobiça acende, Corpo que dança no compasso do vento E faz o tempo parar, se assim pretende.

Seus quadris são impérios de volúpia, Arcos perfeitos que a razão desarma, Onde o pecado veste seda e cópia

De um prazer antigo, sem lei e sem carma. Na curva audaz da sua forma inteira, Reina, serena, a morena verdadeira.

Assim, entre o véu e a nudez mais franca, Ela domina quem a mira e a arranca.

Elogio

 Elogio a Elisa


Ó Elisa, que o véu do pecado veste Com graça tal que a carne se faz arte, Teu dorso altivo, em curva que não cansa, Ergue-se em glória, pretuberante, forte.

Bundão soberbo, império da volúpia, Que o olhar do mundo prende e subjulga, Redondo astro que a noite torna dia, E faz o santo perder toda a fé antiga.

E mais abaixo, onde o prazer se esconde, Teu cuzinho inchado, rubro, vivo, Qual botão de rosa após tormento infindo,

Pulsando chama que ao desejo responde, Convida o ousado a um banquete lascivo Onde o vício é nobre e o gozo, sem fim.

Assim, entre suspiros e gemidos, Reina Elisa, rainha dos sentidos.

Traveco



navalha  

dois em um  


jovem arde  


fogo negro

Traveco


navalha  

dois em um  


o jovem  

arde  


fogo negro

Traveco



navalha  

que abre  

dois em um  


o jovem  

arde  

sem tocar  


Traveco  

fogo  

negro

Traveco


sílaba de navalha  

rasga a carne  


mulher  

e homem  

num só engano  


o jovem  

arde  

sem tocar  


Traveco  

fogo negro  

que brilha

Traveco

 Traveco


a sílaba rasga  

o quarto  


mulher  

e homem  

num só corpo  

que mente  


o jovem  

queima  

atrás da porta  


Traveco  

palavra  

de fogo negro  

que brilha

No quarto estreito

 No quarto estreito  

a carne abre portas  


mulher  

e traveco  


o jovem espreita  

sem fôlego  


Traveco  

palavra de navalha  

corta o ar  

e brilha  


um corpo  

dois  

um só rio  

de membros confusos  


Traveco  

sílaba mágica  

feita de sombra  

e seio  

de homem  

e boca  

de mulher  


O jovem  

queima  

sem tocar  


Ali  

a carne mente  

e diz verdade  

mais nua  

que a nudez