quarta-feira, 30 de setembro de 2026
qaladahum
Ele se sentiu atraído por mim,
e fomos para a casa de noite.
Lá, ele curvou as costas
sob meu pesado jugo.
Dia e noite fiquei
sozinho com ele.
Eu o despi,
e ele me despiu.
Eu mamei em seus
lábios, e ele me amamentou.
O pequeno rato visitou a lua
Lá no fundo da terra, em aconchego são,
Vivia um ratinho de bom coração.
Não era um buraco de lama e de dor,
Tampouco areia seca, sem cor ou calor.
Era a toca de um rato, e com doce conforto
Ele via o mundo sem nunca estar morto.
À noite, erguia os olhos do fundo do lar,
Para o vasto mistério do templo estelar.
E quis o destino, em sua alta jornada,
Construir uma nave de prata encantada,
Rumar para o céu, para a Lua distante,
Onde o tempo repousa em brilho constante.
Lá mora o guerreiro de antiga espada,
Que a lança guardou nesta paz sagrada.
São Jorge, o herói que os dragões venceu,
Hoje habita a fronteira do vasto céu,
Vendido em quitanda o seu queijo lunar,
Feito do leite de estrela e do mar.
Da sagrada Galathea, a vaca mansa,
Que traz para a alma a doce esperança.
Oh, Lemon, pequeno em tua grandiosa jornada,
Tua lenda nas estrelas já está gravada!
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Candelabros de horas fixas
Será o frio?
Ou o outono?
Naqueles olhos gélidos?
Olhe!
Os corvos estão cantando.
Uma canção.
As nuvens passam, brancas.
E as horas passam.
Elas se vão.
O Jardim das Doze Desventuras
dos manuscritos encontrados por Stephen JüdischerWucher
É um paradoxo melancólico o destino reservado a certas obras-primas menores que, como cometas de passagem longa, cruzam o céu da cultura apenas para deixar um rastro de cinzas e boatos. Refiro-me ao olvidado opúsculo De Umbralibus et Aeternitate, publicado em Montevidéu em 1912 pelo obscuro literato latino-americano cujo nome — ou pseudônimo — a história jurídica e a poeira das sebentas reduziram a iniciais indecifráveis: E. S.
Contudo, nos arquivos apócrifos da Biblioteca de Alexandria (aquela que sobrevive apenas na memória dos insônias), o verdadeiro criador dessa arquitetura verbal era conhecido pelo nome severo de Einsiedler dergerechte (o solitário justo), um homem de silêncios gélidos e de uma erudição tão vasta quanto inútil.
Dizem que Einsiedler passou a vida inteira cinzelando um único e definitivo poema, um hexâmetro secreto que pretendia conter a totalidade dos atributos de Deus e do caos. Quando finalmente completou o último verso, uma estrofe que diziam ser capaz de alterar a rota dos planetas caso pronunciada em voz alta, o autor não experimentou o triunfo, mas sim a vertigem do abismo. A realidade comum pareceu-lhe frágil como vidro trincado.
Enlouquecido pela vastidão do que havia criado, Einsiedler abandonou sua biblioteca de couro mofado, rasgou seus manuscritos e fugiu para o porto de Buenos Aires. Embarcou em um cargueiro holandês sem destino certo, desaparecendo nos labirintos do mundo.
Anos mais tarde, as crônicas orais dos portos de Matadi sussurravam sobre um homem branco de olhos alucinados que vagava pelas florestas equatoriais do Congo, carregando apenas um exemplar esfarrapado de Dante. Ali, por uma ironia digna dos deuses de Spinoza, aquele anacoreta germânico-latino desposou uma muçulmana da etnia Mangbetu, desaparecendo de vez nas brumas do continente negro. Nunca mais foi visto pelos emissários da civilização ocidental.
Mas o mito, que sempre desdenha da morte, prefere a simetria da lenda. Os mercadores de marfim e os sacerdotes do rio afirmam que Einsiedler encontrou naquelas latitudes não o esquecimento, mas uma infinita e geométrica proliferação. Dizem que ele construiu, ou sonho, doze casas, teve doze filhos e gerou doze netos, como se quisesse opor ao vazio do poema absoluto uma dinastia de memória, lama e sangue.
Valsa dos cortadores de cana
Vamos cortar cana
sobre o sol quente
com a pele em brasa
vamos cortar cana
cantam as meninas
são brasileiras,
são cubanas,
vamos cortar cana,
suar para o ladrão,
suar para o patrão,
trabalhar até que o
sol diga: chega, podem
ir para casa, o castigo
da noite é o brinde pra vocês!
het huis
ali está a casa
a nossa serena casa
moinho de ventos
moinho de fogo
ali está a casa
apenas a nossa casa
e ela já não existe!
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Los sefarditas
Los sefarditas partieron de la vieja Espanya,
por la mar, por la mar, oh viejas memórias:
Los sefardim exieron de la vieja Espanya,
por la mar, por la mar, o meldadas d'antiguyor;
dejaron las suenyas y la agadá en las entranyas,
sin saber a onde les truxería el sinor.
Ancho es el mar i amargo es el Fakto,
kon el cantar triste que truxeron del Rey;
andando por ondas sin ningún kontrato,
guardando el unor i la vieja ley.
Sobre os discursos brasileiros na ONU
O asfalto da praça está úmido, aquele sereno fino de fim de tarde que parece descer direto da melancolia dos jornais. Em cima da mesa do café, a xícara de um café já morno divide espaço com a manchete escancarada. O estadista do Planalto, com a gravata ligeiramente torta e o ar de quem salvaria o universo antes do almoço, franze o cenho, aponta o dedo indicador para o outro lado do mapa e decreta, em tom de quem governa a Terra Prometida: lá longe, muito longe, o mundo vai mal.
É curioso como a geopolítica tem esse dom de anestesiar a vista curta.
Enquanto o dedo riste aponta para as areias do Oriente Médio, aqui na esquina o vento traz o cheiro de esgoto a céu aberto e a visão de uma lona preta esticada sob o viaduto. No semáforo, a menina de dez anos estende a mão magra pedindo troco para comprar um pão que o governo só vê na estatística. Mas a miséria da nossa calçada parece invisível aos olhos de quem usa binóculos de alto alcance. É mais fácil cuidar da paz dos outros do que dar teto a quem dorme ao relento na praça da Sé.
Não que o sofrimento alheio não mereça lamento. O mundo é um tecido frágil, e toda dor ecoa. O problema é a estranha hierarquia da piedade que habita os gabinetes. O governante que se erguia como porta-voz da justiça global tropeça na própria porta de casa, fingindo não ver a fila do osso, o desemprego que corrói a dignidade do pai de família e a fome que morde o estômago de milhões de brasileiros.
Diz o ditado antigo que a caridade começa em casa — e a coerência, decerto, deveria seguir o mesmo endereço. É um espetáculo curioso esse do político brasileiro que veste o manto de árbitro universal, como se o Brasil fosse um oásis de perfeição de onde se pode dar lições de moral à humanidade. Ora, deixemos os judeus com seus labirintos seculares, suas dores antigas e seus desertos. Temos desertos próprios fervendo em nosso quintal, bem mais perto, onde a sede não é metafórica.
A xícara de café esfriou de vez. O garçom passa recolhendo os restos do dia. Lá fora, o semáforo fecha, o sinal vermelho brilha no asfalto molhado, e a miséria continua ali, esperando que alguém desvie os olhos do horizonte e olhe, finalmente, para o próprio umbigo.
A Torre de Babel Familiar
Havia, no velho, a rigidez de um monumento arrancado à força de sua terra e relutante em aceitar o pó de qualquer outro chão. Ele pertencia à estirpe dos judeus hassídicos da Hungria: barbas longas e emaranhadas, um fervor que beirava o delírio místico e a convicção absoluta de que transitava, de olhos abertos, entre o mundo dos homens e o murmúrio dos anjos. Para ele, o universo era um texto sagrado lido em voz alta, e qualquer desvio dessa partitura soava como heresia.
O nó górdio começou quando o neto — sangue do seu sangue — ousou apaixonar-se. A escolhida era uma jovem judia nascida em Gdańsk, na costa báltica, cuja respiração trazia os ventos frios da Polônia. Mas o abismo entre eles não era apenas geográfico; era uma trincheira linguística e identitária.
Enquanto a avó trazia consigo o iídiche, a língua viva, vernacular e doméstica dos guetos do Leste — o idioma dos mercados barulhentos, das panelas e das lamúrias cotidianas —, o patriarca exigia a altivez de um passado que ele próprio inventava e lapidava na memória. Por parte de mãe, o avô carregava a estirpe sefardita, mas o bisavô encarnava o tudesco irredutível: bruto, visceral e indomado como um animal selvagem acoado na toca.
A antipatia do velho por ela não era gratuita; fundava-se na mais pura soberba mítica. Ele a desprezava porque ela falava apenas iídiche, ignorando solenemente a velha língua nobre dos judeus da Espanha — o ladino ancestral —, da qual ele, em seus delírios de nobreza exilada, jurava ser o legítimo e único herdeiro guardião. Para o profeta selvagem da Hungria, a incapacidade dela de compreender o idioma dos antigos reis e poetas ibéricos não era uma lacuna cultural, mas uma ofensa pessoal à sua própria linhagem celestial.
A casa ruiu para dar lugar à estrada. O velho transformou-se em um nômade comercial, arrastando a família e seus fardos por estradas empoeiradas e cidades europeias que se sucediam como lâminas de um caleidoscópio indiferente. Ele viajava como um profeta menor empurrando uma carroça de quimeras, vendendo tapetes persas e kilims cujos arabescos pareciam mapas de caminhos que ele mesmo não sabia decifrar. Era um patriarca de ferro: inflexível, tirânico e certo de que sua vontade moldava o destino do mundo, enquanto a esposa e os filhos o seguiam como sombras submissas sob o peso da bagagem.
Mas a Europa começou a encolher, sufocada por um monstro de botas lustradas e discursos de ódio que avançava velozmente sobre as fronteiras. O delírio místico do velho chocou-se pela primeira vez contra a realidade implacável da História.
A primeira rota de fuga apontava para o norte e para o oeste: os Estados Unidos. No entanto, a burocracia fria e a insensibilidade dos portos norte-americanos fecharam-se como portas intransponíveis para aquela trupe de exilados sem padrinhos. Foram rejeitados. O sonho americano dissolveu-se antes de virar promessa.
Rendeu-se, então, ao imprevisto. Se os anjos de seu deserto húngaro não abriram as portas de Nova York, o destino os empurrou para o avesso do mapa, para um trópico escaldante e inimaginável: o Brasil.
Desembarcaram em João Pessoa, na Paraíba. O contraste foi uma ofensa suprema à alma do velho. Sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, o tudesco barbado, que outrora exigia a nobreza da Espanha e conversava com seres celestes no rigor do inverno europeu, viu-se derretendo no ar abafado do litoral nordestino. Entre o verde implacável das palmeiras e a lentidão do sertão que começava logo ali, o patriarca rugia em vão, enquanto a avó continuava a resmungar em seu iídiche doméstico, indiferente à nova Babel que os cercava.
Jogo de espelhos mortos
a voz do narrador━
cidades de fogo ━ou maribondos de água
━música suave do
leitor sem tédio━
A intuição da poesia enigmática
━abre a tua boca━
lê o poema da━
árvore━
mesmo preso ━
em quatro
paredes━!
Ilhas de convento
nas ilhas
belas do teu corpo
te rodeiam
corvos e assolantes
ondas tenebrosas
que assustam
nossos olhos.
Feitiço pequeno
Salamandras
e rãs
estrelas, lua
sol e nuvens.
No caldeirão
da alma da vida
as páginas em branco
da minha vida
Ao som do piano agreste da vida
Toda a minha
vida eu fui o Outro.
Dentro dos muros da igreja,
queimado pelos sonhos de pardais,
criancinhas, comendo migalhas de pão.
Através das praças, eu persegui o vento,
e então caminhei entre as estrelas,
olhares perdidos.
Por causa de tudo isso,
deixei de ser eu mesmo,
e me tornei terra,
fogo, ar marrom.
Até que te encontrei,
raiz perfeita
da areia mágica.
Fim do mundo
Aves do céu
cinzas invasoras
das sombras das
nuvens: solidão
alucinada em plumas
desfolhadas de luar.
As Nascentes da Outra Margem
Absorvo a chuva,
que cai do céu,
e bebo o fogo do inferno,
por todos os
ramos brancos
de rosas brancas,
e as brasas da piedade,
que jazem no chão,
do chão.
Orfeu triste
Procure
em qualquer lugar
achar aquele sorriso
terrível que não tenho.
Por isso gargalho tanto:
é a voz do meu desespero!
Versos Baianos
Na Bahia
meu coração permaneceu
naquela abençoada Irajuba
e lá deixei todos os meus ancestrais entes queridos
entre beijos, mulheres, éguas e samambaias verdes.
A bomba atômica
A bomba atômica
Maravilhas das estrelas
Pessoas se vaporizam
Seu coração não dói
como o meu?
Painel da vida
Afro-nordestina
da fé simbolista
do cristal do Parnaso
é possível viver hermeticamente
em suas
nádegas beijadas pelo sol
verdadeiro Rio Jordão do
amor.
Jaqueira do meu avô : banguê
a jaca
caiu no seio
imenso da preta
confusão total
dois seios ou três
com a jaca!
Penetração
O peixe
Céu-escuridão
O pássaro voa
para longe ou
nas cidades
O peixe nadando
após a noite
O sonho.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Saudade do mar
O peixe repousa leve sobre o manto do profeta,
Em silêncio de escamas, mistério e sal.
Depois, no escuro ventre, a viagem secreta,
Na ânsia funda do abraço abissal.
E o mar é ardente, de uma fúria mansa,
Que queima a pele e incendeia o olhar,
Onde a alma naufraga e tudo se alcança
No fogo líquido de quem sabe amar.
Até que desponta, na imensidão do inverno,
A luz soberana que vem sustentar
O dia sem fim, o sol eterno,
Derramando ouro sobre a face do mar.
A Rua e o Céu
Ah, quantas vezes a vida nos desata
E nos atira ao chão da madrugada!
Onde o silêncio corta como prata,
E caem sobre nós duras pedradas.
Mas eis que rompem plenos e sagrados
Os acordes de um tempo que já foi;
E corações cansados e machucados
Ouvem o pranto do que o mundo dói.
Não há no peito medo ou penitência,
Quando ressoam clarins divinos;
E os santos dançam na mesma cadência
Dos deserdados e dos peregrinos.
Que venha a noite, o vento e a desventura!
A vida é bela em sua desmedida,
Pois toda dor se abriga na doçura
Da poesia que sangra e que cicatriza a vida.
A Caminhada do Antigo Peregrino
A estrada cinzenta desvenda a cidade,
Onde o pó dos séculos dorme e repousa;
E leva o velho e belo judeu velho à vanguarda,
Num passo lento que o mundo desusa.
Um bode atrelado caminha ao seu lado,
Símbolo antigo de culpa e mistério,
Pelos campos onde o vento é passado
E a terra guarda seu fardo sidéreo.
E vão seguindo as costas estreladas de eternidade,
Sob o manto frio do céu que os consome;
Carregando o peso de uma herança sagrada,
Na dor dos séculos e no silêncio do nome.
O Canto das Ilhas Nebulosas
A noite desce sobre o antigo cais,
Onde o vento murmura em velhas frotas;
Navegamos o mar de histórias jamais
Cantadas pelos bardos e suas notas.
A névoa cobre a relva e a encosta erguida,
E ouve-se um canto leve nas estradas,
São as sombras da terra esquecida,
Dança de fadas azuladas.
Oh, coração cansado de esperar,
Deixa o tempo dos homens e do mundo;
Há uma harpa ancestral a nos chamar,
No silêncio de um crepúsculo profundo.
O Tigre e o Abismo
...dura voz da escuridão, serpente maldita, leve-me daqui, com fogo e neve na boca...
Na espessura onde o erro habita,
Ergue-se a dura voz da escuridão;
E a serpente maldita, oculta e aflita,
Ri-se da alma em sua prisão.
Ó criatura de cinza e de brasa,
Leve-me daqui, além do porvir!
Onde a sombra consome a própria casa,
E o anjo não ousa mais sorrir.
Trago a geada que a mente sufoca,
O frio que o próprio tempo escoa;
Mas trago com fogo e neve na boca,
A chama que queima e a voz que soa.
Estrelas
Oh, doce dama, a amiga dos peitões,
Que erras vestida de fulgor e encanto,
Guia os meus passos no sagrado manto
Da charme e do fogo das constelações!
Tu és a doce dama das estrelas e visões,
Que acendes chispas no profundo espanto;
No teu olhar arde o celeste pranto
Que o Criador plantou nos corações.
O fogo sagrado que a alma ilumina
Vem do teu seio, de pureza divina,
A rutilar na noite em que te ergues.
Ó charmosa luz que os céus acende e guia,
És a pureza em forma de poesia,
A eterna graça que nos bosques emerges!
Soneto da Espiga e do Café
Na aurora mística que o vale veste,
Onde o verde escuro do café repousa,
Ergue-se a espiga de milho gloriosa,
Como uma tocha acesa do orvalho celeste.
O Criador, na lide que reveste
A terra mansa e a alma misteriosa,
Fez da semente humilde a luz formosa,
Que o fogo eterno do horizonte veste.
Oh, cafezal de folhas cor de esmeralda,
Onde a candura divina se resguarda
No ouro puro do cereal sagrado!
A mesma mão que o tigre e o cordeiro cria,
Fez germinar, na santa poesia,
O pão da terra e o fruto abençoado.
Soneto da Chuva
A chuva sagrada desaba, violenta e fria,
Sobre a carne seca da Paraíba cruenta,
Onde a terra, qual carcaça que o sol sustenta,
Bebe o pranto líquido que o céu envia.
Na podridão do chão que o tempo esfria,
O raio fúnebre a alma atormenta,
E o verde brota da lama que arrebenta,
No estertor mudo da agonia.
Ó sertaneja terra, que o verme corrói!
O pingo d'água é o ácido que dói,
Limpando o lodo da alma que se desfaz.
E a natureza, em seu ciclo feroz,
Faz da tormenta a medonha voz
De um Deus que fere e que desfaz a paz!
Soneto da Pátria e da Ferida
No fundo pungente e da carne mais funda,
Eis o espelho vil da realidade nua,
Onde a miséria do mundo se acentua,
Na chaga aberta que o tempo fecunda.
Do Norte ao Sul, na terra que o mal inunda,
Na sociedade que o ódio habitua,
A mesma dor no asfalto e na rua,
Que o homem destrói e a treva circunda.
Ó triste Brasil de alma profunda e dura,
Que é de todo o mundo na mesma febre escura,
Na mesma orte e no mesmo destino vao!
Onde a desgraça a alma humana condena,
E a mesma realidade obscena
Bate na carne do mesmo irmão!
Na podridão da lembrança
Na podridão da lembrança que corrói,
Dos depoimentos tristes que o outro diz,
Rasga-se a carne em brasa de um infeliz
Que a própria sombra e o passado dói.
Nas palavras vãs, o verme que destrói
Cava no peito o túmulo que quis;
O eco alheio, qual espinho infeliz,
No fundo escuro da alma nos herói.
Ó triste resto de o que a vida foi!
O verbo alheio é o gume que a dor expõe,
No tribunal mudo onde o tempo dói.
E a mente, presa aos trapos que constrói,
Na fria cinza do que a boca expõe,
Bebe o fel negro que a memória rói!
Formação lírica
No rito agreste onde o mistério brassa,
o sol desata o ouro em cordel e riso,
e o sertanejo erguido ao improviso
vê o divino na sagrada graça.
As mariposas sagradas pela praça
voam no fito de um santo paraíso;
o católico mel das missas é aviso
de que a fé é força que o destino abraça.
É o sertão que canta a sua glória,
bordando a lira na sagrada história
com o sangue heróico de um povo fiel.
Na pia e no altar, o encanto persiste:
o barro humilde que o Cumpade viste
vira folguedo, oração e cordel.
A ascender
Profana voz, lírio de ternura,
Cantando a sede e o sol do meu sertão,
A terra seca abre o coração
Para acolher a brisa pura e dura.
Do extremo sul, onde a geada escura
Desenha o frio em branca e fria mão,
Chega o sopro gelado ao chão,
Onde a catinga o ardor inaugura.
Beija o calor o vento forasteiro,
Num abraço de paz e de mistério,
Unindo o norte e o sul no mesmo fado.
O sertanejo, em canto verdadeiro,
Vê nesse frio o dom do céu sidéreo,
E o chão árido fica abrandado.
O Sertão e o Vento do Sul
A profana voz, lírio de ternura,
Canta no agreste a pedra e o sol ardente.
E no sertão, de luz tão refulgente,
A vida brota, casta e dura.
Eis que a catinga, em sua alma pura,
Recebe o vento sul, suavemente,
Trazendo um frio, doce e diferente,
Que alivia a alma e a açucena apura.
É o beijo do Minuano, estrangeiro,
Que o sol poente, em seu tom alaranjado,
Abraça a terra, num rito altaneiro.
O sertanejo, em seu canto sagrado,
Vê no frio do sul um mensageiro,
De um tempo novo, enfim, chegado.
O Milagre
As pedras do corpo vítreo
os seios da harpia sagrada
o ninho de beijos amaldiçoados
o vinho, a cerveja, a cachaça.
Um breve pôr do sol, desvanecendo-se,
escultura divina, forma silenciosa
de uma mulher entrelaçada pelo sol, fumaça, enxofre e fogo.
Deve ser uma estrela ou o mar.
Zelo Visionário
Olhos de diamante pálidos e mortos,
arremessados rua abaixo,
cabeças de boi, devoradas por vermes ocidentais.
Os chifres do Minotauro,
a miséria que marca os pequeninos.
Lá fora, a torre de granito destruída.
O coração despedaçado chora diante de
tantas sepulturas injustas de cimento e papel crepom.
A raíz mágica
Negros montes lá fora,
negros montes, suspiram,
a formosa rosa pálida aberta
e entre a porta o sino simbilante
de um terreste murmurar de
moinho,
os gaviões antigos passam
a beira dos olhos do corvo.
O luar aparece estampado
e formo como uma criança pálida.
Lá fora nuvens passam rápidas
pelas casas de Campinas,
enquanto o gelo se acumula no sofá.
Cantam os grilhos,
as bailarinas silvestres.
Morrem as pequenas flores sem donos.
As goiabas caem do pé e a madeira
fria que ergue a casa é devorada
pelos cupins ciganos.
Labirinto
É belo e cinzento o dia
e cheio de abelhas amarelinhas.
Pelos galopes dos cavalos
sabemos que a chuva se aproxima.
Óh tarde suave,
os salgueiros dançam com o vento do dia!
Natureza obscura
As estrelas brilham
ao pôr do sol no topo da colina
ampla e majestosa,
na coluna flamejante de
fumaça da montanha,
a montanha escura e alta.
O corvo e a grama
Quando o corvo sente
o vento em suas asas,
o vento está frio,
a terra espalha areia
ao entardecer,
e nu o corvo
agradece a Deus
com seu bico melodioso
sobre o campo verde,
que reluz com as folhas
de grama.
A História do Universo
Vamos, comporemos tu eu
uma prosa: a história inteira do universo,
e por isso, vamos receber das
estrelas alguns mapas nunca vistos.
Cafezais de gente negras, nuas,
dureza da escravidão antiga,
desenterrada nos ossos escuros
do ser marinho apodrecido no fundo do mar.
A alma
Caiu... Mas aonde...
Caiu a estrela, a estrela branca
que assombra o mar inteiro.
Veja: é o cantar do galo
verdadeiro que se debruça
por entre os braços de gentil criança
morta por uma bomba caída em Dresdein.
Ouçam só, o sino das igrejas bombardeadas,
são as vozes dos fantasmas
que passam de um lado para o outro
na rua mais movimentada de São Paulo.
Quanto tédio, dizem os especialistas
em murais, e lá vão os artistas sociais
mendigar o dinheiro dos novos-ricos.
A estrela tombada no chão, dizem,
era a minha alma constelada de farrapos.
E eis o próprio poeta miserável
incendiado o próprio corpo por um pedaço de
pão.
