quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Identificado selo

 


Quase- Malevitch

 


Dibujos

 







Cantar

 Cantar

Cantar

Entre os pássaros

Sou anônimo

O vento passou

 O vento passou

Eram lábios e canções

E pedras que diziam: "Estou exagerando"

Um sonho

Uma noite fria

 Uma noite fria

Corpo de Coca-Cola

            Escuridão


É noite!

qaladahum

 Ele se sentiu atraído por mim,

e fomos para a casa de noite.


Lá, ele curvou as costas

sob meu pesado jugo.


Dia e noite fiquei

sozinho com ele.


Eu o despi,

e ele me despiu.


Eu mamei em seus

lábios, e ele me amamentou.

O pequeno rato visitou a lua

Lá no fundo da terra, em aconchego são,

Vivia um ratinho de bom coração.

Não era um buraco de lama e de dor,

Tampouco areia seca, sem cor ou calor.

Era a toca de um rato, e com doce conforto

Ele via o mundo sem nunca estar morto.


À noite, erguia os olhos do fundo do lar,

Para o vasto mistério do templo estelar.

E quis o destino, em sua alta jornada,

Construir uma nave de prata encantada,

Rumar para o céu, para a Lua distante,

Onde o tempo repousa em brilho constante.


Lá mora o guerreiro de antiga espada,

Que a lança guardou nesta paz sagrada.

São Jorge, o herói que os dragões venceu,

Hoje habita a fronteira do vasto céu,

Vendido em quitanda o seu queijo lunar,

Feito do leite de estrela e do mar.


Da sagrada Galathea, a vaca mansa,

Que traz para a alma a doce esperança.

Oh, Lemon, pequeno em tua grandiosa jornada,

Tua lenda nas estrelas já está gravada!

Ofélia e o Fauno

 


Headless man

 


Hombre y guernica

 


Menina lendo

 


Coruja

 


Eaglaפַּחַד

 




פַּחַד

ón aibéis idir an bheirt againn

 


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Candelabros de horas fixas

 Será o frio?


Ou o outono?

Naqueles olhos gélidos?

Olhe!


Os corvos estão cantando.

Uma canção.


As nuvens passam, brancas.

E as horas passam.

Elas se vão.

Oração

 


O Jardim das Doze Desventuras

dos manuscritos encontrados por Stephen JüdischerWucher


        É um paradoxo melancólico o destino reservado a certas obras-primas menores que, como cometas de passagem longa, cruzam o céu da cultura apenas para deixar um rastro de cinzas e boatos. Refiro-me ao olvidado opúsculo De Umbralibus et Aeternitate, publicado em Montevidéu em 1912 pelo obscuro literato latino-americano cujo nome — ou pseudônimo — a história jurídica e a poeira das sebentas reduziram a iniciais indecifráveis: E. S.

                    Contudo, nos arquivos apócrifos da Biblioteca de Alexandria (aquela que sobrevive apenas na memória dos insônias), o verdadeiro criador dessa arquitetura verbal era conhecido pelo nome severo de Einsiedler dergerechte (o solitário justo), um homem de silêncios gélidos e de uma erudição tão vasta quanto inútil.

Dizem que Einsiedler passou a vida inteira cinzelando um único e definitivo poema, um hexâmetro secreto que pretendia conter a totalidade dos atributos de Deus e do caos. Quando finalmente completou o último verso, uma estrofe que diziam ser capaz de alterar a rota dos planetas caso pronunciada em voz alta, o autor não experimentou o triunfo, mas sim a vertigem do abismo.     A realidade comum pareceu-lhe frágil como vidro trincado.

    Enlouquecido pela vastidão do que havia criado, Einsiedler abandonou sua biblioteca de couro mofado, rasgou seus manuscritos e fugiu para o porto de Buenos Aires. Embarcou em um cargueiro holandês sem destino certo, desaparecendo nos labirintos do mundo.

        Anos mais tarde, as crônicas orais dos portos de Matadi sussurravam sobre um homem branco de olhos alucinados que vagava pelas florestas equatoriais do Congo, carregando apenas um exemplar esfarrapado de Dante. Ali, por uma ironia digna dos deuses de Spinoza, aquele anacoreta germânico-latino desposou uma muçulmana da etnia Mangbetu, desaparecendo de vez nas brumas do continente negro. Nunca mais foi visto pelos emissários da civilização ocidental.

    Mas o mito, que sempre desdenha da morte, prefere a simetria da lenda. Os mercadores de marfim e os sacerdotes do rio afirmam que Einsiedler encontrou naquelas latitudes não o esquecimento, mas uma infinita e geométrica proliferação.             Dizem que ele construiu, ou sonho,  doze casas, teve doze filhos e gerou doze netos, como se quisesse opor ao vazio do poema absoluto uma dinastia de  memória, lama e sangue.

Valsa dos cortadores de cana

 Vamos cortar cana

sobre o sol quente

com a pele em brasa

vamos cortar cana

cantam as meninas

são brasileiras,

são cubanas,

vamos cortar cana,

suar para o ladrão,

suar para o patrão,

trabalhar até que o 

sol diga: chega, podem

ir para casa, o castigo

da noite é o brinde pra vocês!

De Afrikaanse figuur is prachtig.

 


kooi


 

bur

 








Fiskansikte

 





Nordiskt ljus

 de onde vem

essa luz nórdica

de onde

de onde vem


essa voz

essa voz de mar

de oceano marinho

het huis

 ali está a casa

a nossa serena casa

moinho de ventos

moinho         de fogo

ali está a casa

apenas             a nossa casa


                e ela já não existe!

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Inspiração

 ━Amanhecer

no pensamento

 a poesia da

   ━ noite ou

    ━do dia

Dinheiro e velhice e vice-versa

 Velho e mulher bonita

quanto dinheiro tem

                ela ou ele na calcinha?

Los sefarditas

 Los sefarditas partieron de la vieja Espanya,

por la mar, por la mar, oh viejas memórias:

Los sefardim exieron de la vieja Espanya,

por la mar, por la mar, o meldadas d'antiguyor;

dejaron las suenyas y la agadá en las entranyas,

sin saber a onde les truxería el sinor.

Ancho es el mar i amargo es el Fakto,

kon el cantar triste que truxeron del Rey;

andando por ondas sin ningún kontrato,

guardando el unor i la vieja ley.

Sobre os discursos brasileiros na ONU

O asfalto da praça está úmido, aquele sereno fino de fim de tarde que parece descer direto da melancolia dos jornais. Em cima da mesa do café, a xícara de um café já morno divide espaço com a manchete escancarada. O estadista do Planalto, com a gravata ligeiramente torta e o ar de quem salvaria o universo antes do almoço, franze o cenho, aponta o dedo indicador para o outro lado do mapa e decreta, em tom de quem governa a Terra Prometida: lá longe, muito longe, o mundo vai mal.

É curioso como a geopolítica tem esse dom de anestesiar a vista curta.

Enquanto o dedo riste aponta para as areias do Oriente Médio, aqui na esquina o vento traz o cheiro de esgoto a céu aberto e a visão de uma lona preta esticada sob o viaduto. No semáforo, a menina de dez anos estende a mão magra pedindo troco para comprar um pão que o governo só vê na estatística. Mas a miséria da nossa calçada parece invisível aos olhos de quem usa binóculos de alto alcance. É mais fácil cuidar da paz dos outros do que dar teto a quem dorme ao relento na praça da Sé.

Não que o sofrimento alheio não mereça lamento. O mundo é um tecido frágil, e toda dor ecoa. O problema é a estranha hierarquia da piedade que habita os gabinetes. O governante que se erguia como porta-voz da justiça global tropeça na própria porta de casa, fingindo não ver a fila do osso, o desemprego que corrói a dignidade do pai de família e a fome que morde o estômago de milhões de brasileiros.

Diz o ditado antigo que a caridade começa em casa — e a coerência, decerto, deveria seguir o mesmo endereço. É um espetáculo curioso esse do político brasileiro que veste o manto de árbitro universal, como se o Brasil fosse um oásis de perfeição de onde se pode dar lições de moral à humanidade. Ora, deixemos os judeus com seus labirintos seculares, suas dores antigas e seus desertos. Temos desertos próprios fervendo em nosso quintal, bem mais perto, onde a sede não é metafórica.

A xícara de café esfriou de vez. O garçom passa recolhendo os restos do dia. Lá fora, o semáforo fecha, o sinal vermelho brilha no asfalto molhado, e a miséria continua ali, esperando que alguém desvie os olhos do horizonte e olhe, finalmente, para o próprio umbigo.

Na voz do mar

 ━Na voz do mar

havia pessoas

e as flores

alongadas         no sal.

Palhaço

 ━aplausos━

        mas chora o

palhaço

lágrimas

                de mel branco.

A Torre de Babel Familiar

Havia, no velho, a rigidez de um monumento arrancado à força de sua terra e relutante em aceitar o pó de qualquer outro chão. Ele pertencia à estirpe dos judeus hassídicos da Hungria: barbas longas e emaranhadas, um fervor que beirava o delírio místico e a convicção absoluta de que transitava, de olhos abertos, entre o mundo dos homens e o murmúrio dos anjos. Para ele, o universo era um texto sagrado lido em voz alta, e qualquer desvio dessa partitura soava como heresia.

O nó górdio começou quando o neto — sangue do seu sangue — ousou apaixonar-se. A escolhida era uma jovem judia nascida em Gdańsk, na costa báltica, cuja respiração trazia os ventos frios da Polônia. Mas o abismo entre eles não era apenas geográfico; era uma trincheira linguística e identitária.

Enquanto a avó trazia consigo o iídiche, a língua viva, vernacular e doméstica dos guetos do Leste — o idioma dos mercados barulhentos, das panelas e das lamúrias cotidianas —, o patriarca exigia a altivez de um passado que ele próprio inventava e lapidava na memória. Por parte de mãe, o avô carregava a estirpe sefardita, mas o bisavô encarnava o tudesco irredutível: bruto, visceral e indomado como um animal selvagem acoado na toca.

A antipatia do velho por ela não era gratuita; fundava-se na mais pura soberba mítica. Ele a desprezava porque ela falava apenas iídiche, ignorando solenemente a velha língua nobre dos judeus da Espanha — o ladino ancestral —, da qual ele, em seus delírios de nobreza exilada, jurava ser o legítimo e único herdeiro guardião. Para o profeta selvagem da Hungria, a incapacidade dela de compreender o idioma dos antigos reis e poetas ibéricos não era uma lacuna cultural, mas uma ofensa pessoal à sua própria linhagem celestial.


A casa ruiu para dar lugar à estrada. O velho transformou-se em um nômade comercial, arrastando a família e seus fardos por estradas empoeiradas e cidades europeias que se sucediam como lâminas de um caleidoscópio indiferente. Ele viajava como um profeta menor empurrando uma carroça de quimeras, vendendo tapetes persas e kilims cujos arabescos pareciam mapas de caminhos que ele mesmo não sabia decifrar. Era um patriarca de ferro: inflexível, tirânico e certo de que sua vontade moldava o destino do mundo, enquanto a esposa e os filhos o seguiam como sombras submissas sob o peso da bagagem.

Mas a Europa começou a encolher, sufocada por um monstro de botas lustradas e discursos de ódio que avançava velozmente sobre as fronteiras. O delírio místico do velho chocou-se pela primeira vez contra a realidade implacável da História.

A primeira rota de fuga apontava para o norte e para o oeste: os Estados Unidos. No entanto, a burocracia fria e a insensibilidade dos portos norte-americanos fecharam-se como portas intransponíveis para aquela trupe de exilados sem padrinhos. Foram rejeitados. O sonho americano dissolveu-se antes de virar promessa.


Rendeu-se, então, ao imprevisto. Se os anjos de seu deserto húngaro não abriram as portas de Nova York, o destino os empurrou para o avesso do mapa, para um trópico escaldante e inimaginável: o Brasil.

Desembarcaram em João Pessoa, na Paraíba. O contraste foi uma ofensa suprema à alma do velho. Sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, o tudesco barbado, que outrora exigia a nobreza da Espanha e conversava com seres celestes no rigor do inverno europeu, viu-se derretendo no ar abafado do litoral nordestino. Entre o verde implacável das palmeiras e a lentidão do sertão que começava logo ali, o patriarca rugia em vão, enquanto a avó continuava a resmungar em seu iídiche doméstico, indiferente à nova Babel que os cercava.

A forma

                     ━a grande poesia da forma

            um tapete━ azul-claro

                            e lírico━


Jogo de espelhos mortos

 a voz     do narrador━

cidades de fogo ━ou maribondos de água

━música     suave     do

leitor     sem tédio━

A intuição da poesia enigmática

 ━abre a tua boca━

lê o poema da━

árvore━

mesmo preso ━

em quatro 

paredes━!


Saindo da caverna escura

 ━luar━

sobre o papel: ━

boca ━ e mel

de formigas.━

Galaxias

 ━até que a rosa

preta━

se erga

eis as galaxias

infinitas━

Ilhas de convento

 nas ilhas

belas do teu corpo

te rodeiam

corvos e assolantes

ondas tenebrosas

que assustam

                nossos olhos.

Tumbas

 casinhas

túmulos esquecidos

em silêncio

            e nada mais!

Musseques

     Musseques de

Luanda

Musseques

de Campinas,

                    uni-vos!

Dormindo

 


Símbolos folclóricos

 








Água ou suco : o mar do ocidental

 


Atrevimento do expressionismo abstrato

 






Feitiço pequeno

 Salamandras

e rãs

estrelas, lua

sol e nuvens.


No caldeirão

da alma da vida

as páginas em branco

da minha vida

Ao som do piano agreste da vida

 Toda a minha 

vida eu fui o Outro.


Dentro dos muros da igreja,

queimado pelos sonhos de pardais,

criancinhas, comendo migalhas de pão.

Através das praças, eu persegui o vento,

e então caminhei entre as estrelas,

olhares perdidos.


Por causa de tudo isso, 

deixei de ser eu mesmo,

e me tornei terra, 

fogo, ar marrom.


Até que te encontrei, 

raiz perfeita 

da areia mágica.

Para Nicanor Parra

 Não sair de casa

pecado ou

milagre!

Drummond

 A vida é 

como leite derramado.

Fim do mundo

 Aves do céu

cinzas invasoras

das sombras das

nuvens:         solidão

alucinada em plumas

desfolhadas     de luar.

Desaparição

 Mas     qual  o teu

nome              se não

tens chuva

                cansados nesse

deserto de olhares

                    mortos.

As Nascentes da Outra Margem

 Absorvo a chuva,

que cai do céu,

e bebo o fogo do inferno,

por todos os

ramos brancos

de rosas brancas,

e as brasas da piedade,

que jazem no chão,

do chão.

Orfeu triste

 Procure

em qualquer lugar

achar aquele sorriso

terrível que não tenho.

Por isso gargalho tanto:

é a voz do meu desespero!

Versos Baianos

 Na Bahia

meu coração permaneceu

naquela abençoada Irajuba

e lá deixei todos os meus ancestrais entes queridos

entre beijos, mulheres, éguas e samambaias verdes.

A bomba atômica

 A bomba atômica

Maravilhas das estrelas

Pessoas se vaporizam

Seu coração não dói

como o meu?

Painel da vida

 Afro-nordestina

da fé simbolista

do cristal do Parnaso

é possível viver         hermeticamente

em suas

nádegas beijadas pelo sol

verdadeiro Rio Jordão do

amor.

Jaqueira do meu avô : banguê

 a jaca

caiu no seio

imenso da preta

            confusão total

dois seios     ou três

              com a jaca!

Penetração

 O peixe

Céu-escuridão

O pássaro voa

para longe ou

nas cidades

O peixe nadando

após a noite

O sonho.

Feitiçaria

 Em luto

durante a vida

jardins de peixes

e pássaros

que vagueiam entre as

flores herméticas

Nackt

 





Mädchen

 






Figura erótica

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O ancião de dias

 


Francês com cachimbo!

 









Picasso y Matisse: hermanos del alma

 





Juízo final

 entre as palmeiras e o mar

 meu coração aguarda 

os navios do fim do mundo 

chegarem

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Saudade do mar

 


O peixe repousa leve sobre o manto do profeta,

Em silêncio de escamas, mistério e sal.

Depois, no escuro ventre, a viagem secreta,

Na ânsia funda do abraço abissal.


E o mar é ardente, de uma fúria mansa,

Que queima a pele e incendeia o olhar,

Onde a alma naufraga e tudo se alcança

No fogo líquido de quem sabe amar.


Até que desponta, na imensidão do inverno,

A luz soberana que vem sustentar

O dia sem fim, o sol eterno,

Derramando ouro sobre a face do mar.

A Rua e o Céu


Ah, quantas vezes a vida nos desata

E nos atira ao chão da madrugada!

Onde o silêncio corta como prata,

E caem sobre nós duras pedradas.

Mas eis que rompem plenos e sagrados

Os acordes de um tempo que já foi;

E corações cansados e machucados

Ouvem o pranto do que o mundo dói.

Não há no peito medo ou penitência,

Quando ressoam clarins divinos;


E os santos dançam na mesma cadência

Dos deserdados e dos peregrinos.

Que venha a noite, o vento e a desventura!

A vida é bela em sua desmedida,

Pois toda dor se abriga na doçura

Da poesia que sangra e que cicatriza a vida.

A Caminhada do Antigo Peregrino

 A estrada cinzenta desvenda a cidade,

Onde o pó dos séculos dorme e repousa;

E leva o velho e belo judeu velho à vanguarda,

Num passo lento que o mundo desusa.

Um bode atrelado caminha ao seu lado,

Símbolo antigo de culpa e mistério,

Pelos campos onde o vento é passado

E a terra guarda seu fardo sidéreo.

E vão seguindo as costas estreladas de eternidade,

Sob o manto frio do céu que os consome;

Carregando o peso de uma herança sagrada,

Na dor dos séculos e no silêncio do nome.

O Canto das Ilhas Nebulosas

A noite desce sobre o antigo cais,

Onde o vento murmura em velhas frotas;

Navegamos o mar de histórias jamais

Cantadas pelos bardos e suas notas.

A névoa cobre a relva e a encosta erguida,

E ouve-se um canto leve nas estradas,

São as sombras da terra esquecida,

Dança de fadas azuladas.

Oh, coração cansado de esperar,

Deixa o tempo dos homens e do mundo;

Há uma harpa ancestral a nos chamar,

No silêncio de um crepúsculo profundo.

O Tigre e o Abismo

 ...dura voz da escuridão, serpente maldita, leve-me daqui, com fogo e neve na boca...


Na espessura onde o erro habita,

Ergue-se a dura voz da escuridão;

E a serpente maldita, oculta e aflita,

Ri-se da alma em sua prisão.

Ó criatura de cinza e de brasa,

Leve-me daqui, além do porvir!

Onde a sombra consome a própria casa,

E o anjo não ousa mais sorrir.

Trago a geada que a mente sufoca,

O frio que o próprio tempo escoa;

Mas trago com fogo e neve na boca,

A chama que queima e a voz que soa.

Estrelas


Oh, doce dama, a amiga dos peitões,

Que erras vestida de fulgor e encanto,

Guia os meus passos no sagrado manto

Da charme e do fogo das constelações!


Tu és a doce dama das estrelas e visões,

Que acendes chispas no profundo espanto;

No teu olhar arde o celeste pranto

Que o Criador plantou nos corações.


O fogo sagrado que a alma ilumina

Vem do teu seio, de pureza divina,

A rutilar na noite em que te ergues.


Ó charmosa luz que os céus acende e guia,

És a pureza em forma de poesia,

A eterna graça que nos bosques emerges!

Soneto da Espiga e do Café


Na aurora mística que o vale veste,

Onde o verde escuro do café repousa,

Ergue-se a espiga de milho gloriosa,

Como uma tocha acesa do orvalho celeste.


O Criador, na lide que reveste

A terra mansa e a alma misteriosa,

Fez da semente humilde a luz formosa,

Que o fogo eterno do horizonte veste.


Oh, cafezal de folhas cor de esmeralda,

Onde a candura divina se resguarda

No ouro puro do cereal sagrado!


A mesma mão que o tigre e o cordeiro cria,

Fez germinar, na santa poesia,

O pão da terra e o fruto abençoado.

Soneto da Chuva


A chuva sagrada desaba, violenta e fria,

Sobre a carne seca da Paraíba cruenta,

Onde a terra, qual carcaça que o sol sustenta,

Bebe o pranto líquido que o céu envia.


Na podridão do chão que o tempo esfria,

O raio fúnebre a alma atormenta,

E o verde brota da lama que arrebenta,

No estertor mudo da agonia.


Ó sertaneja terra, que o verme corrói!

O pingo d'água é o ácido que dói,

Limpando o lodo da alma que se desfaz.


E a natureza, em seu ciclo feroz,

Faz da tormenta a medonha voz

De um Deus que fere e que desfaz a paz!

Soneto da Pátria e da Ferida


No fundo pungente e da carne mais funda,

Eis o espelho vil da realidade nua,

Onde a miséria do mundo se acentua,

Na chaga aberta que o tempo fecunda.


Do Norte ao Sul, na terra que o mal inunda,

Na sociedade que o ódio habitua,

A mesma dor no asfalto e na rua,

Que o homem destrói e a treva circunda.


Ó triste Brasil de alma profunda e dura,

Que é de todo o mundo na mesma febre escura,

Na mesma orte e no mesmo destino vao!


Onde a desgraça a alma humana condena,

E a mesma realidade obscena

Bate na carne do mesmo irmão!

Na podridão da lembrança

 Na podridão da lembrança que corrói,

Dos depoimentos tristes que o outro diz,

Rasga-se a carne em brasa de um infeliz

Que a própria sombra e o passado dói.

Nas palavras vãs, o verme que destrói

Cava no peito o túmulo que quis;

O eco alheio, qual espinho infeliz,

No fundo escuro da alma nos herói.


Ó triste resto de o que a vida foi!

O verbo alheio é o gume que a dor expõe,

No tribunal mudo onde o tempo dói.

E a mente, presa aos trapos que constrói,

Na fria cinza do que a boca expõe,

Bebe o fel negro que a memória rói!

Formação lírica

 No rito agreste onde o mistério brassa,

o sol desata o ouro em cordel e riso,

e o sertanejo erguido ao improviso

vê o divino na sagrada graça.


As mariposas sagradas pela praça

voam no fito de um santo paraíso;

o católico mel das missas é aviso

de que a fé é força que o destino abraça.


É o sertão que canta a sua glória,

bordando a lira na sagrada história

com o sangue heróico de um povo fiel.


Na pia e no altar, o encanto persiste:

o barro humilde que o Cumpade viste

vira folguedo, oração e cordel.

A ascender

 Profana voz, lírio de ternura,

Cantando a sede e o sol do meu sertão,

A terra seca abre o coração

Para acolher a brisa pura e dura.


Do extremo sul, onde a geada escura

Desenha o frio em branca e fria mão,

Chega o sopro gelado ao chão,

Onde a catinga o ardor inaugura.


Beija o calor o vento forasteiro,

Num abraço de paz e de mistério,

Unindo o norte e o sul no mesmo fado.


O sertanejo, em canto verdadeiro,

Vê nesse frio o dom do céu sidéreo,

E o chão árido fica abrandado.

O Sertão e o Vento do Sul


A profana voz, lírio de ternura,

 Canta no agreste a pedra e o sol ardente.

 E no sertão, de luz tão refulgente, 

A vida brota, casta e dura.


 Eis que a catinga, em sua alma pura, 

Recebe o vento sul, suavemente, 

Trazendo um frio, doce e diferente,

 Que alivia a alma e a açucena apura.


 É o beijo do Minuano, estrangeiro, 

Que o sol poente, em seu tom alaranjado, 

Abraça a terra, num rito altaneiro.


 O sertanejo, em seu canto sagrado, 

Vê no frio do sul um mensageiro,  

De um tempo novo, enfim, chegado.

O Milagre

             As pedras do corpo vítreo

os seios da harpia sagrada

o ninho de beijos amaldiçoados

o vinho, a cerveja, a cachaça.


        Um breve pôr do sol, desvanecendo-se,

escultura divina, forma silenciosa

de uma mulher entrelaçada pelo sol, fumaça, enxofre e fogo.


Deve ser uma estrela ou o mar.

Zelo Visionário

 Olhos de diamante pálidos e mortos,

arremessados ​​rua abaixo,

cabeças de boi, devoradas por vermes ocidentais.

Os chifres do Minotauro,

a miséria que marca os pequeninos.

Lá fora, a torre de granito destruída.

O coração despedaçado chora diante de

tantas sepulturas injustas de cimento e papel crepom.

A raíz mágica

 Negros montes lá fora,

negros montes, suspiram,

a formosa rosa pálida aberta

e entre a porta o sino simbilante

de um terreste murmurar de

moinho,


os gaviões antigos passam

a beira dos olhos do corvo.

O luar aparece estampado

e formo como uma criança pálida.

Lá fora nuvens passam rápidas

pelas casas de Campinas,

enquanto o gelo se acumula no sofá.


Cantam os grilhos,

as bailarinas silvestres.

Morrem as pequenas flores sem donos.

As goiabas caem do pé e a madeira

fria que ergue a casa é devorada

pelos cupins ciganos.

Labirinto

 É belo e cinzento o dia

e cheio         de abelhas amarelinhas.

Pelos         galopes dos cavalos

sabemos             que a chuva se aproxima.


                    Óh tarde suave,

os salgueiros         dançam com o vento do dia!

Vagueia

 Ele vagueia         pela floresta

sob o brilho de algo

é o velho fauno

dançando com suas irmãs

                                    fadas.

Um mundo superior

 Tantos rostos!


Vamos esquecê-los todos

no prado.


O vento sopra apenas uma vez.


Eles

Natureza obscura

 As estrelas brilham 

ao pôr do sol no topo da colina 

ampla e majestosa, 

na coluna         flamejante de 

fumaça da montanha,

 a montanha escura e alta.

O grande jogo: palácios

 Na         areia do infinito

um suspiro

sobre             igual uma

estrela do mar             lendo jornal.

O corvo e a grama

 Quando o corvo sente 

o vento em suas asas, 

o vento está frio, 

a terra espalha areia 

ao entardecer, 

e nu o corvo

 agradece a Deus 

com seu bico melodioso

 sobre o campo verde, 

que reluz com as folhas 

de grama.

A História do Universo


Vamos, comporemos tu eu

uma prosa: a história inteira do universo,

e por isso, vamos receber das

estrelas alguns mapas nunca vistos.

Cafezais de gente negras, nuas,

dureza da escravidão antiga, 

desenterrada nos ossos escuros

do ser marinho apodrecido no fundo do mar.

A alma

 Caiu... Mas aonde...

Caiu a estrela, a estrela branca

que assombra o mar inteiro.

Veja: é o cantar do galo

verdadeiro que se debruça

por entre os braços de gentil criança

morta por uma bomba caída em Dresdein.

Ouçam só, o sino das igrejas bombardeadas,

são as vozes dos fantasmas

que passam de um lado para o outro

na rua mais movimentada de São Paulo.

Quanto tédio, dizem os especialistas

em murais, e lá vão os artistas sociais

mendigar o dinheiro dos novos-ricos.

A estrela tombada no chão, dizem,

era a minha alma constelada de farrapos.

E eis o próprio poeta miserável

incendiado o próprio corpo por um pedaço de

pão.