quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Espamos místicos

         Grafite,

em tinta de folhas,

respira o tempo.


O         lençol branco,

um pico coberto de neve,

onde o poema,

este grito silenciado,


surge         na quietude.


Estamos perto.

"A Academia do Fardão e da Confusão: a Academia Brasileira de Letras e os seus 'Imortais' mortais", uma análise

 

Meu caro,

                    Essa provocação de Fernando Jorge sobre a nossa culta e sobeja Academia Brasileira de Letras toca em uma ferida antiga, daquelas que a gente esconde sob o casimiro fino e o verniz dos salões cariocas. O querido Fernando, com seu lápis afiado de cronista indignado, aponta o dedo para o que há de mais aristocrático e, por que não dizer, de mais carcomido em nossas formas de sociabilidade intelectual: o fardão como enfeite de vaidades e o silêncio cúmodor dos que preferem o chá das cinco à têmpera da história.

        Gilberto Freyre, se estivesse aqui a prosear com vocês à sombra de um manguezal ou na varanda de um engenho pernambucano, diria que a nossa Academia nunca deixou de ser um espelho da nossa formação patriarcal e de nossas heranças coloniais. O Brasil sempre teve essa mania elegante de enfeitar o poder e o prestígio social com a caspa da erudição de encomenda. O acadêmico de ocasião, aquele que produz um livrinho apenas para passar pelo buraco da agulha e vestir a farda bordada a ouro, é o legítimo herdeiro do bacharelismo de faculdade. É o homem letrado não pela paixão da palavra, mas pelo apetite do status. Para ele, a literatura não é carne viva ou dor social; é um colar de ouro para adornar o pescoço da respeitabilidade burguesa.

    E quanto ao silêncio da Casa de Machado de Assis diante dos porões da censura — seja nos tempos bravios do Estado Novo de Vargas, seja sob a bota de ferro dos generais —, isso nos revela a face mais melancólica da nossa inteligência oficial. Uma academia que se isola em sua redoma de mármore e silencia diante do arbítrio abdica de sua alma. Prefere o conforto da poltrona à têmpera da resistência. No fundo, há nessa omissão um medo ancestral de perder os favores do Estado, de sujar os sapatos lustrosos na lama da pólvora e da censura.

        Contudo, meu caro leitor, a cultura brasileira é muito mais rica, miscigenada e vasta do que o silêncio protocolar de seus imortais. Ela pulsa nas ruas, nos batuques, na fala do povo, nos livros que teimam em nascer apesar da indigência editorial. A Academia pode até continuar a eleger seus figurões e a guardar silêncio nos salões, mas a verdadeira literatura do Brasil — essa sim — continua a se fazer com sangue, suor e uma irrecusável alegria de existir.


 

O Metamorfo e a Cigana em Campinas - conto

 

        O sol da tarde derretia o asfalto da Rua 13 de Maio, em Campinas, misturando o cheiro de pastel de feira com o escape dos ônibus municipais. No entanto, o fluxo de pedestres parecia contornar os dois com uma precisão quase geométrica, como se uma lei não escrita da burocracia municipal proibisse o espanto naquela calçada.

        Sentada em um engradado de cerveja virado para baixo, a cigana Esmeralda jogava cartas encardidas sobre uma mesinha de plástico capenga. Em pé, diante dela, um homem de terno cinza-claro tentava, sem muito sucesso, manter uma forma humana definitiva. Suas têmporas ora afundavam em escamas verde-musgo, ora derretiam em plumas de corvo, num esforço constante para lembrar quem ele era pela manhã.

— Não adianta vir com essa retórica de transmutação rápida, moço — disse Esmeralda, sem erguer os olhos do baralho, enquanto batia unhas pintadas de vermelho escuro no plástico. — Aqui em Campinas, até as metamorfoses precisam de alvará da prefeitura. O senhor já tentou protocolar sua ausência de contornos no Poupatempo?

        O homem suspirou, e seu peito expandiu-se momentaneamente no dorso peludo de um urso pardo antes de murchar de volta para o corte alfaiate do paletó.

— Eu não escolhi isso, senhora — respondeu ele, a voz oscilando entre o barítono de um velho professor universitário e o coaxar seco de um anfíbio. — Ontem eu era um guarda-chuva esquecido no bonde. Antes de ontem, uma rotatória na Avenida Moraes Salles. Acordo toda manhã e descubro que meu fígado virou uma praça pública ou que minhas pernas decidiram ser a linha férrea abandonada da Fepasa.

        Esmeralda virou uma carta: o Oito de Espadas, manchado de graxa.

— É o mal de quem vive muito perto do entroncamento ferroviário. Campinas é uma cidade que estica e encolhe conforme a vontade dos trilhos. Mas o seu caso não é topografia, é falta de firmeza de caráter. O senhor se lembra de quando era um bicho só?

— Um bicho só? — o metamorfo sorriu com um sorriso que se multiplicou em três fileiras de dentes pontiagudos antes de voltar a ser humano. — É uma lembrança vaga. Lembro-me de ter tido um nome próprio, mas ele caiu de mim perto do Mercado Municipal, entre as bancas de mamão. Desde então, sinto-me como um rascunho borrado pela chuva. Se eu me descuidar, viro o Monumento a Carlos Gomes e fico preso na praça para sempre, ouvindo pombos.

— Pior destino seria virar o espumante local — retrucou a cigana, recolhendo as cartas com um gesto ágil. — Mas olhe bem para mim. O senhor acha que eu também sou inteira?

        O metamorfo fitou-a com atenção. Sob o lenço de seda dourada, as feições de Esmeralda começaram a se liquefazer em névoa, revelando por um breve segundo que ela não era senão o reflexo de uma vitrine vazia na Rua Barão de Jaguara, projetada ali por engano de luz.

— Nós somos a mesma coisa — concluiu o homem, resignado, enquanto sua mão esquerda se transformava temporariamente numa folha de bananeira seca que o vento logo levou. — Apenas acidentes de percurso numa cidade que esqueceu para onde ia.

— Exato — sorriu a cigana, voltando a ser de carne, os brincos de argila tilintando. — Agora, por favor, saia do meio da calçada. O ônibus da linha Centro-Baraão vai passar daqui a dois minutos, e seria uma pena se o senhor resolvesse virar o asfalto bem na hora da freada.

    O homem ajeitou a gravata que teimava em virar uma jiboia minúscula, deu de ombros e seguiu seu caminho, dissolvendo-se lentamente entre os transeuntes que apressavam o passo rumo à Estação.

 

A Cabeça Falante e o Ofício Suspenso - conto d' realismo fantástico

                 A oficina cheirava a pó de gesso velho, cola de sapateiro e àquela melancolia denota das tardes adamantinenses com um sorriso amarelo. Mas a atmosfera, ah, essa tinha o torvelinho cronóforo da vida: os ponteiros do relógio na parede pareciam esticar-se como chicletes, e o pó de gesso, ao cair, nunca chegava ao chão de uma vez só, flutuando em suspensões geométricas que desafiavam a gravidade.

        Josias lixava a bochecha de São Jerônimo. Era uma obra de encomenda para a paróquia do bairro, um barroco modesto, nordestino por herança emocional, mas plantado no asfalto frio do Sul. Faltava apenas dar o polimento final no nariz aquilino quando a cabeça, ainda separada do corpo de arame e estopa, mexeu a pálpebra de gesso craquelado.

    — Sabe, Josias — disse a cabeça, com uma voz que parecia rolar dentro de um pote de cerâmica oca —, você tem uma péssima mania de endeusar o que já nasceu poeira.

                Josias largou a lixa. Não gritou. No universo onde as pessoas simples cruzam olhares na esquina da Rua da Praia com a Avenida Corrientes, coisas absurdas acontecem com a naturalidade de quem perde o ônibus das seis. O escultor limpou as mãos no avental engordurado e encarou o objeto.

    — É o verniz — balbuciou Josias, buscando uma racionalidade burocrática bem ao estilo de um funcionário público melancólico. — O solvente forte sempre causa alucinações olfativas.

        — Não venha com subterfúgios de almanaque, Josias — replicou o santo, cujos olhos de vidro pintados a óleo brilhavam com uma ironia muito contemporânea. — Sou eu, Jerônimo, ou o que restou de mim nesta projeção tridimensional que você insiste em modelar. E quer saber de uma coisa? Estou farto.

    — Farto? Mas demorei três dias para acertar a curva desta orelha! — protestou o escultor, ofendido em seu brio artesanal.

        — De orelhas o mundo está cheio, Josias. O que faltam são pernas — disse a cabeça, inflando as bochechas de gesso como se respirasse pela primeira vez em séculos. — Ficar aqui em cima da bancada, com essa auréola de folha de ouro falsa que você comprou na lojinha do armênio, é de uma inutilidade metafísica exasperante. Chega de imagens estáticas. O sagrado não cabe na redoma do seu atelier.

                        Josias sentiu um calafrio na espinha.

— E o que você sugere que eu faça? Fechei contrato com o padre para entregar o santo na sexta-feira. Tem sinal adiantado e tudo....

        A cabeça de São Jerônimo suspirou, levantando uma micro-nuvem de gesso branco.

        — Quebre o molde, homem! Pegue esse martelo, desça a escadaria e vá ali na Praça da Matriz. Tem uma fila de gente dormindo ao relento sob o viaduto, com frio nas juntas e a barriga colada nas costas. Eles não precisam de um Jerônimo de gesso para olhar para o teto; eles precisam de sopa quente e de alguém que os olhe nos olhos.

    Josias olhou para o martelo de borracha na bancada. Olhou para a cabeça expressiva, que agora piscava o olho esquerdo com uma cumplicidade desconcertante.

        O tempo parou por um segundo — aquele segundo típico em que uma mosca suspende o voo no meio da sala. Depois, com um movimento seco, Josias pegou a cabeça debaixo do braço, como quem carrega uma melancia pesada e insólita, tirou o avental e caminhou em direção à porta.

        Lá fora, a cidade continuava indiferente, mas na sua axila o santo resmungava:

     — Isso, garoto. E trate de comprar dois quilos de batatas no caminho.

 

Auto do Pretendido Menino

 

                    (Cenário rústico, inspirado no Auto da Compadecida e nos Autos de Gil Vicente. Ao centro, um presépio simples. Entram em cena o Bispo, com seu báculo e suntuosidade eclesiástica; o Judeu, com um livro antigo de capas gastas; e o Árabe, com uma bolsinha de moedas tilintando na cintura.)


Auto do Pretendido Menino


Personagens:

O Bispo:      Pomposo, dogmático e latineiro.

O Judeu:      Enigmático, recurvado, falando por enigmas talmúdicos.

O Árabe:      Pragmático, mercador astuto, de olho no lucro.



Ato Único.



O BISPO (Erguendo os braços para o céu, com voz solene): Ó, rebanho infiel e gente errada! Ajoelhai ante a luz sagrada! Este menino que aqui jaz na estrebaria É o Verbo feito carne, a pura teologia! É o Filho do Pai, Dogma e Trindade, A única porta da eterna piedade! Fora da Santa Igreja, ó dura sorte, Não há salvação, senão a eterna morte! Ajoelhai, pecadores, e beijai o chão: Eis o Rei dos Reis, a nossa redenção!


O JUDEU (Folheando páginas invisíveis, sorrindo de leve e olhando de lado): Vós falais de reis, Senhor Bispo de capa esplendente, Mas o mistério do Altíssimo não se alcança tão mente. Diz o Talmud nas sendas do tempo escondido: O Mamzer famoso, o mestre ferido... É semente de Davi que o vento espalhou, Um sopro de além que o espinheiro tocou. Nasce na palha o que a Torá velou em segredo, Nem cordeiro pascal, nem ídolo de credo. É o nó górdio da Lei, o enigma profundo: Um carpinteiro graúdo que veio desmanchar o mundo!


O ÁRABE (Aproximando-se do presépio, balançando as moedas e sorrindo maliciosamente): Ora, deixai-vos de teologias e de rabinos, Que o vento do deserto traz negócios mais finos! Um parto na palha, sem ouro nem tenda? Isso é desperdício de grande encomenda! Onde já se viu Messias sem caravana e sem feira? Se este menino trouxesse astúcia verdadeira, Já teríamos montado aqui mesmo o bazar: Venda de incenso, mirra e ouro a par! Comércio sagrado, peregrinação garantida, Pois milagre sem lucro é alma perdida!


O BISPO (Indignado): Heresia! Sacrilégio de mercador e fariseu!


O JUDEU (Rindo): Tudo é mistério que o vento escondeu...


O ÁRABE (Piscando o olho para o público): Mistério ou não, guardem minhas palavras: o turismo religioso vai render mais que mil cabras!


(Curvam-se os três em direção ao presépio, enquanto cai o pano.)

 

Existe's

 Que lágrima é essa,

fluindo suavemente

em seus olhos?

Acorde, há um anjo

no paraíso do nosso amor.

estruturas versificadas

 

para paul celan 


Sobre o muro

há um muro e nesse muro

há outro muro de gelo.


Dentro do cobre

existe o cobre.

E ao pé das flroes

há outras flores, viver e mortas.


Na pedra existe a pedra.

Na nuvem que se dissolve

em água há outras nuvens

que também se dissolvem

em água


resplandecente.

Primitive brasilianische Skulpturen

 

Homem nu com pau ereto: Phalos

Dois casal primitivos
pelados



escultura em seixo

 


Rosto

 


Prato de ceramica

 

título: Menina trans
Title: Trans girl
Titel: Transmädchen

Cafezal

 O negro junto

 ao cafezal. 


 O Yid sobre 

            o cafezal. 


A terra         escura sobre 

a densa         noite.


 As estrelas         brancas

 saltando da         serpente negra.

Balada sobre a floresta

 Da tua floresta escura, 

desejo apenas uma coisa, 

apenas um barco, meu amigo,

 para a tarde, para a tarde,


 a tarde do coração que

 se lembrava dos sonhos,

da tua floresta escura, 

meu amigo, uma mesa redonda, 


um cubismo de amor, 

para mim, espero te ver 

de novo, para a redenção

 de um beijo cósmico.

ÉBANO

 

A manhã

el negro é

a bela noite

chora             chorando

por sua beleza

sanus

 Do tronco de         Ganesha Negro fluía um rio branco.


O leite em minha boca era o cálice         da bem-aventurança para todo o universo.

Quase um poema

 Vejam só, amigos, que mundo louco é este: se você diz a verdade, eles o atacam; se você mente, eles o servem.

Apócrifo de C.S. LEWIS

            e Deus está dentro das igrejas, a quem pertence este mundo?


            Se Deus está na imagem que você encontra em sua peregrinação,

quem sabe o que acontece fora dela?

Deus está no Oriente, Deus está no Ocidente.


        Olhe para o seu coração, pois lá você encontrará Deus

se permitir que Ele entre;

todos os         homens e mulheres do mundo         são Suas formas vivas.

Dois rostos picassianos - Two Picassoesque faces

 



Naked Shemale

 


Deux filles nues

 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

faire face à un moment serein

 


Mensagem póstuma apócrifa de Edmond Fortier

 Para mim, pintar é inventar um novo mundo 

de formas, onde a realidade não me interessa. 

Quero criar máscaras aterrorizantes e assustadoras

 para amedrontar meus inimigos.

Uma cabeça Africana

 


Rosto de donzela da africa negra

 

Face of a maiden from sub-Saharan Africa

Canção tribal brasileira

 Uma     cabeça tribal

contra     a luz forte

África Negra     ancestral

em suas raízes         sensuais

nádegas brasileiras,         cósmicas

observo entre os         Monbuttu.

Casal observando o sol

 


Uma cabeça tribal

 


A tribal head

sábado, 15 de agosto de 2026

feridas à noite

 Ninguém viu a rosa, ninguém feito de terra, barro ou lama, 

pois o céu pairava de forma esbelta entre o baobá e os

 dias inabaláveis ​​que floresceriam em tempos remotos.

a integridade da palavra

 Numa colina há um nome,


e nesse nome reside

outro nome que eu invoco.


Se eu sou o sonho, ele é a verdade. Ouvi dizer que na água as colinas se refletem na luz da primavera num brilho triste.

DISTÂNCIA

 quem ou o que

qual o nome do

paraíso daquele

corpo:?


femea ou noite

estrela ou valsa

ninguém sabe


apenas uma

coisa misteriosa

segue


o ritmo.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Cabeça de mulher

 


Figuras e o sol

 


Composição tribal

 


Cabeça sol - Head sun

 


Head – drawing over newspaper site

 


E diz por último

                     Rejeite-me

Seu amor         está nas

ruas             estreitas

Melodia

 Cacto,         as runas antigas,

seu             corpo,

o segredo do dia

Fruta d' quintal

 O aroma da manga

a fruta no seu corpo

o prazer celestial

do mel que eu bebo

Tarde embora

                 Num shampoo

tão duro de cactos,

tomo o banho de

porra morna,


oh, sim, intensa

água que bateu

palmas, e ali

com tanta fome de gotas,

chegando perto,


as calças de ioga

de joelhos a porra

das gotas de cobras

—estou amando

                       ela de repente

                    salta a mim.

Recanto da poesia mística

 Não, ela não está aqui, e ele também não. 

                        Eles saíram às seis para as seis da tarde, e só isso, nada mais.

Silêncio exuberante

 Cactos feitos de fogo duro

na parede

na sarjeta o fio

no meio da roupa o olho

no meio do corpo         o delírio

e no meio de tudo isso,         tudo

Curiosidade do rio

 Nua

mas nua, que beleza

ela

completamente         nua

com         dois seios

maduros,         firmes

a             sensualidade do

corpo             em beijos

alegres

Small abstract nude drawing

 


Símbolo da vida

 sua beleza 

só nuvem

sua beleza

só esfera

sua beleza

só sol




Man – sculpture

 


Mann – hier ist die Zeichnung

 


Comedy night

 


POESIAS VAZIAS -

 




O ÚLTIMO DESESPERO
O lábio         costurado ao verso:
não podemos reclamar.
O mercúrio         descendo a garganta,
pesado, mudo, cego:
não podemos reclamar.
A parede de cal consumindo os olhos,
o teto despencando em lâminas:
não podemos reclamar.

Um relógio         sem ponteiros
bate contra a têmpora do nada.

O que estamos esperando?
O ferro         que ainda não ardeu?
O silêncio descer do teto
e morder a         última palavra?




CACTOS NUAS
Uma palma seca contra o nada,
o estalo que corta o ar de giz.
Gotas de cobras 
a fome mastiga a própria sombra
no fundo da garganta.

Estou chegando perto.
O passo afunda na escama,
o veneno ferve na sola do tempo
e o silêncio abre o bote.



POESIAS VAZIAS OU O ELO DO CACTO
O cacto estala         entre os dentes do dia,
verde de ferro e agulha,
crocante como a cinza que o vento mastiga.

Uma palma seca bate contra o vazio,
o som de um osso que racha no escuro.
Talvez 
um resto de luz colado à têmpora,
o nada aplaudindo o próprio pulso
enquanto a carne morde     a casca.



PALPITE SÓ 
O banho         de ferro e brasas,
a água cravada como 
agulhas na têmpora do mundo.
O corpo  esse cacto         de sal e espasmo 
arqueia-se contra o teto de giz.

                A vertigem desaba,
o nada estala na língua,
e o gozo                     é um tiro de escuro
rasgando o silêncio                     do nada.




ERA NIILISTA

Era niilista,

e do sofrimento que acompanha o niilismo,

eu fiz uma morada sem janelas.


Onde a poeira assenta

sobre as coisas que nunca tiveram nome,

e o tempo não passa,

apenas pesa.


Vazias são as ruas

por onde os deuses passaram

e esqueceram de deixar pegadas.

Nenhum eco responde ao chamado.

Apenas o vento gélido

que sopra do nada para lugar nenhum,

lembrando-me do pó

que habita o fundo dos meus olhos.

E, no entanto,

ainda há uma sede antiga

que rasga a garganta:

a dor de saber

que até o nada

exige de nós

uma

resposta.



O PIOR DIA

Hoje é o pior dia, 

o dia que traiu

uma clareza desesperada 

que se estilhaçou.

Ele era um niilista,

e do sofrimento que acompanha o niilismo,

criei uma geografia de cinzas e raízes,

um rastro de ferro cego que leva ao nada.


Os ventos espreitantes 

não devem saber: 

tudo permaneceu entre as fauces 

da terra e meu coração amargo. 


Vivi na imensidão do nada 

como alguém que habita

 uma casa sem portas, 

onde os deuses definharam

 em altares antigos e o sol não passa

 de metal que queima, mas não brilha. 


A noite inteira se queimou 

em minhas costelas, 

o grande cansaço de saber 

que o nada tem raízes, 


que o vazio pulsa como um pulso de sangue escuro,

 e que até mesmo a nossa sombra exige uma resposta pétrea.

 Mas veja: aqui estou eu, 

com as mãos cheias de pão e cinzas,

 amando o fardo inútil do mundo,

 enquanto a chuva oblíqua cai sobre meu 

canto teimoso e o sofrimento,

 esse cão fiel, jaz ao meu lado

 e morde a orelha do silêncio.



Banho de Ferro 

Eu quero tomar banho de água tão dura,

uma água que não molha, que corta,

que desce pelas costas como uma lâmina fria

e deixa a pele cinzenta de estilhaços.


Água de pedra, de poço cego,

de raiz morta que bate no peito.

Quero que o peso do mundo escorra em agulhas,

que a dureza do dia entre pelos poros

e me faça estátua,

seca e inteira,

no fundo da tarde que não acaba.




O Frasco e o Clamor

O shampoo arde nos olhos como uma salmoura,

derrama-se espesso, branco e cego

pela carne que treme no azulejo frio.

Goza a         noite, goza o ferro da garganta,

oh porra, que o frasco estilhaça

na vertigem do corpo que desaba,

enquanto a espuma grossa e amarga

soterra o último grito.



Cactos de Fogo e Mel

Os cactos duros das travestis

cortam         o ar com espinhos de prata e silêncio,

enquanto pulsam na carne a viscosidade do prazer eterno,

um sumo espesso que brota da terra seca

e banha as feridas do mundo.


            Tudo arde na espinha da noite:

o suor, o metal, a seiva sagrada,

o gozo que não pede perdão aos deuses

e faz da dor um altar de fogo.



Cobras de Orvalho e Sombra

Cobras duras         pendem viscosas

do teto de musgo e silêncio,

tecendo com o corpo a espiral do tempo

que não cede aos homens.


A casa é de um         verde antigo,

quase ferro,

onde o sopro da noite escorre

pela escama fria da terra.


Ninguém passa         por este umbral

sem que o pulso do mundo

morda o centro da carne

e deixe o seu rastro de limo.




Rainha do Limo e do Gume

Goza o prazer das             cobras viscosas     em minha boca,

rainha do gozo,

onde o silêncio         se faz carne

e o mel amargo         desce sem pressa.

Na câmara escura dos dias,

a tua língua         é raiz e gume,

um corte preciso que abre a terra

e bebe o sumo da noite.

Nenhuma         palavra sobrevive a este reino:

apenas o corpo que cede,

a escama que treme,

e a soberana umidade

que coroa         o abismo.



Rainha do gozo

Goza —

mas onde             termina a serpente

e começa a noite?


Na         boca, o silêncio

enrola seu     corpo verde,

vicioso,

como uma         palavra que ninguém ousa dizer.


Rainha         do gozo,

coroa de sombra,

tu bebes         da escuridão

e devolves ao mundo

uma língua de cinzas.


                        Há cobras no jardim.

            estrelas partidas.

E há uma             boca

guardando     o nome

daquilo que não pode ser dito.


Goza             o prazer —

não como chama,

mas como abismo:


uma coisa viva

que se fecha sobre a outra

até                 restar somente




Abismo

Goza

o prazer

das         cobras viscosas

em             minha boca

rainha

do gozo


Silêncio

            puro

na carne

seca


E             o mundo

cai.