Na província do Rio Grande do Sul, entre os pampas que estendem seu tapete de pasto até o horizonte que confina com o nada, ou talvez com o Uruguai, surgiu o objeto. Não de nascença gaúcha, mas de trânsito, como tudo o que porta em si a dignidade do mistério. Chegou de São Paulo, não numa caixa de exportação ou num embrulho de contrabando, mas nas mãos de um egípcio — ou de alguém que, pela quietude e pelos olhos que pareciam ter visto a fundação do tempo, assim se fazia chamar. Ahmed al-Sultani, talvez, ou apenas um nome impronunciável que o esquecimento fez mudo. Esse egípcio, peregrino ou mercador de sombras, entregou-o a um colecionador de miudezas metafísicas, um agrônomo aposentado que, em vez de sementes, plantava em sua mente dúvidas sobre a natureza do real.
O Objeto, dizem os poucos que o vislumbraram antes que a bruma o reclamasse, não tinha forma definida, ou melhor, assumia todas as formas sem jamais se fixar em uma. Era um poliedro de cristal que pulsava com a luz de estrelas extintas, uma esfera de jade onde rios de prata corriam em ciclos eternos, um cubo de ébano que continha o murmúrio de galáxias inteiras. A sua essência, porém, não residia na sua geometria mutável, mas na sua propriedade mais prodigiosa: o Objeto era uma fenda, um portal, uma compressão do instante total. Ao fitá-lo, podia-se abarcar, num único e vertiginoso lampejo, a eternidade em sua plenitude: o nascimento do universo e o seu derradeiro colapso, a vida de todas as criaturas que já existiram e as que hão de existir, a trama complexa de causas e efeitos, o riso de um bebê e o silêncio de uma estrela morrendo. Era o Aleph, mas um Aleph que se podia segurar na mão, o ponto onde todos os tempos e todos os espaços coexistiam sem contradição, um instante que era, em si, o universo inteiro.
Ninguém sabe ao certo como ou quando desapareceu. Alguns sussurram que ele simplesmente se desfez em partículas de tempo, outros que voltou para as mãos de seu guardião egípcio, que talvez fosse um deus disfarçado. Mas a verdade é mais cruel e mais poética: o Objeto nunca desapareceu, ele apenas se dissolveu na única dimensão que lhe era realmente própria: a memória. E dessa memória, um último bastião de sua existência se aloja agora num hospital em Salvador, Bahia.
Lá jaz Djalma Guimarães, velho e cego, mas não pela ausência de luz, e sim pelo excesso de visões que o Objeto lhe concedeu na sua juventude. Outrora um escritor, um tecelão de palavras que buscava em cada frase a precisão de um teorema e a melodia de um blues, Djalma agora balbucia, preso aos fios e apitos de uma UTI. Seus olhos, velados por uma catarata que é mais um véu místico do que uma doença, fixam-se num ponto invisível no teto do quarto, e em cada respiração ofegante, ele parece recitar, para si mesmo e para o nada, as últimas cifras de um saber proibido. Ele se lembra. Ele é o último guardião do Objeto, não mais na matéria, mas no mais frágil dos invólucros: a mente humana à beira do colapso.
O tempo, que o Objeto condensava num piscar de olhos, agora se alonga, lento e doloroso, para Djalma. Seus lábios secos murmuram sílabas que poderiam ser as coordenadas de universos esquecidos ou apenas o nome de um amor perdido. E, ao morrer, ele não levará o Objeto consigo para o abismo do não-ser. Antes, ele o liberará. E o universo, contido por um momento na sua memória, se expandirá novamente, talvez para o infinito, talvez para o nada. E ninguém, exceto Djalma, saberá que o maior dos tesouros coube por um instante no punho de um homem e na mente de um cego.
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