quarta-feira, 29 de julho de 2026

Brilho muito verdadeiro - depois da tempestade do coração

 Você pode dar nova vida às pradarias,

 sonhar, despertar,                 ao longe a noite

 devasta a cidade, o dia chega, 

escute: ali mesmo há uma 

canção, como

                             um farol.

Ressurgimento

 Devemos sempre introduzir novas palavras em nossa língua

sem pensar,

mas com o uso de um pensamento poderoso e vigoroso,                                                                                                                                                                                                                                                                         porque assim despertamos a             língua para a vida, para um novo dia, com palavras novas e antigas, e assim expandimos                 o papel da nossa arte, da poesia com P maiúsculo,             com novos signos.

Kaltcode

 as urnas         das

rosas             sombrias

o limiar             dessa

póstuma

canção:

                a memória

escreve o seu

sonho nas

                    areias.

Abaixo, o tempo se move pra nós

 Cinzento céu - atrás de você,

 o oriente, a beleza e a 

glória, ninguém             testemunha 

                                só nuvens

Época cinzenta

 Outrora o pântano, o pé na lama 

a chuva caindo,            petrificado 

a lágrima desce             rugindo 

para baixo         o coração

 lá atrás abandonado         sem

 nada nos bolsos                             só a dor

 e             as dores 

A tempestade suave do mar

 a coroa do mar    - que se

 revela nesse     seu íntimo, 

a memória o      preto os         olhos

 são a luz da sua cor     coroada

Vogelwalzer

 Nessa cama     negra

 repousa         minha

 felicidade 

        solta: 

o poço                 aberto

 repousa                     seu

                             bico.

Dois poemas pornográficos

1

 - a galinha

asa posta

ao chão

do sorriso

mi

     ragens.



2

ali

  o cavalo

galopa e

entre folhas

camas

        ramos.

Passado passaremos só

 Você já viu

em meio ao mar imensurável

estes dois olhos

azuis como azeviche


beija-me

uma última vez

com o fogo branco que você


engole docemente,

enquanto

o tempo segue esta chama


vamos murmurar algo


aprenderemos a amar

da terra nua

ao céu

minha irmã: vida

 ela se

        confunde

                com ele


        olhos de

                        mar

marinho

                corpo

as asas

vermelhas

                    de

estrelas

acima

abaixo

            minha irma:

vida

                                visita-me.

a ARTE

 


A cura

 


A aranha nua

             Navego através 

do seu amor indescritível,

 uma             tempestade de

 corpos

                         nus.

Para recomeçar

             Para recomeçar,

para que o             homem possa

trabalhar e sofrer,


        e assim

aprender                 a amar novamente.

Por enquanto a vida

 Eu serei essa luz

Vamos quando

houver beijos e

flores

Vamos viver

a terra, nossa terra

minha folha

de poesia


pingando de mim

do coração

flor

 flor

 nessa

  palavra

    respira

todas as

              flores.

Ainda

 Olha, uma parede, 

uma parede, 

a lua, o sol, o mar

 e a vida cruel.


Só silêncio.


Vamos cantar, 

vamos suspirar,

só isso.

Música intensivamente

 Acima

das janelas

do meu coração

eu vejo seu

corpo nu

e branco

e a paixão pulsante

sobre a doçura escorre      o suco branco

do amor.

O silêncio - canção

 O silêncio

que canta

é a voz

do paraíso antigo

Lembrança do pássaro nu

 O passado

se revela

no voo

do passarinho


Solidão

Paisagem da velha Russia

     Veja o vasto campo azul

e a jovem russa

no sonho

o sonho é apenas

um sonho

Lembrança romântica

 do pêssego


aberto


o suco doce

bebido no bar

as paixões

Orgasmo marinho - e outros pequenos versos

 


Orgasmo Marinho

Solidão
e isolamento
   cartas
apenas
algumas
  uma jovem
cantora geme
   duas vezes
   um só 
adeus de
   estrelas.



Pintura
O desenho
  no ar azul
do dia:
   mescla entre sí

a figura.



O grito

diante dessa fartura

- tudo é nada. 



SIE
Enraizada na consciência     lírica, 
na voz dos átomos,    no paralelo da vida,
 eis a morte em fuga: esta é a prioridade da vida: viver!



Novo mundo
Um homem dividido entre dois     mundos sonha      com um terceiro mundo.




Carta
Um diário íntimo revela    seu coração.
Pobre alma, lamentando    a solidão.
Está frio lá fora.
Quem reza para o vazio?



Encontro sexual romântico
Explosão e ternura    selvagem: Ela grita comigo, 
me decifra e me devora com    sua espada; é a mistura de amor, 
desejo sexual desenfreado,     o espelho e a solidão.



Esfinge
Traduzir-me é impossível.

Eu sou    o
mistério
de mim mesmo
no
abismo do    mistério
de mim    mesmo.




A fé
A noite te pergunta 
em meio às lágrimas,
 e tu choras?

Então deixa que chore
 lágrimas de vidro.


Bruxaria
Existe algo mais 
perigoso do que seus
 beijos em mim?



Safo
Ilhas antigas
espelhos quebrados

safo
você entenderia
este amor pela
pedra!



Safo 2
de esparta
esse busto
de pedra
assumiu o 
poder num
poema só.




 Homero

 todas as palavras me faltam, 

pareço um rio silêncioso,

 esse homem negro,estremeço.

 um fogo repentino, 

estou pálido de dias. 


Retrato

inquieto

  anseio por

 teus lábios

  - peitos estreitos de manhã lírica.




Hémispheres

 A espuma

  nos lábios da

areia

    um soluço

    uma estrela.

Niemandes Blume

 a ninguém

  pertence esse

jardim mórbido

e desolado

.................

essa criatura

sem nome

escuta o ar frio


que respiramos


[ respiramos a

morte

...

nesse jardim silêncioso

de

ossos.

....

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Caderno do esquecimento

 Quando o porto desaparece, o sono também se vai...

O viajante do tempo

ouviu o eco da solidão.


O que era aquilo na janela?


O poema foi recitado e o sono se foi.

Então despertou como uma quimera.

Propôs enigmas. E se foi…

Quem não me quer / Quien no me quiere

 Quem não

me

quer

se suspiro

que não

me olha

se passo nu


quem não me beija

se amo a todos

e quem me fere

se em silêncio estou.


¡Quien no

me

quiere

si suspiro,

que no

me mire

si paso desnuda,


quien no me besa

si amo a todos,

y quien me hiere

si en silencio estoy!

Os portos antigos

 os amores se

  vão...


e o 


mar...


até ali

nossas bocas...


e pra lá...


de tudo isso

o sol ruge

sua canção

de tigre

amarelo...

Cronologia de dois versos

Meu poema contém

 todos os poemas, 

assim como todos 

os mares estão contidos 

no mar, adormecido

 com vida.



2

glandê

como quem

escreve uma

rima


na lua o

luar

no solar o

sol


nu

    vens.



3

Por todos os lados eu estava

afetado por mim mesmo

cercado por mim mesmo

cercado por estranhos

desconhecidos

por todos os lados.

Contemplação

 só Deus basta...

popular medieval católico espanhol


as flechas

do amor

são o paraíso

do coração


as feridas: canções


os repentes: purgatórios.

Uma cota de malha de vento

 A barba de Musa está curtida

 pelas maças de suas espadas de leão torturadas. 

Venham, tragam suas barbas, 

para que a beleza de seus olhos

 brilhe como pérolas em um colar.

 E então contemplaremos 

as estrelas em forma de escorpiões. 


A noite suave do vento.

Marinha canção

 o

mar dança

o mar o mar

e dentro do mar

- fora eis a praia


muito mais

mar e 

mar

a dançar

dançar.

Outonal

 a árvore

folha

todas    as

árvores

a folha!

Onda de luz

 Você disse adeus

em meio à espuma e às pedras,

a sombra

da sua boca azul-marinho,

seu traseiro vermelho, o traseiro dela,

apenas uma pulsação


de solidão.

Navegar do mar

 sobre

o vento de

amanhã


o mar chora

diante da beleza de

suas nádegas morenas


o sol

Marcas

 A lembrança

do teu nome

castiga meu olhar.

Tragédia

 Você está com frio.


Ventos da manhã, mais frios do que eu!

Paraíso

 


Pequena auto biografia

 Mas um dos cães


pertencente à família judia    veio

de uma família sefardita.

Retrato do prazer

 a menina


o animal

equino


onda de fluxo

branco

as estrelas

Sentimento da vida

 Em silêncio   eu medito


            nada é em vão

Em silêncio

 A neve surge do nada na memória, e lá você vê 

o céu.

O nada

 indescritível

manhã

das

luzes alegres

que se reuniam

no asfalto úmido

Mágica equação

 Muralha intransponível

Sua voz atômica ressoa

na manhã

de Pan


uma despedida sincera

nas asas

da água


do sol

Profundidade

 Luzes de néon

luzes dos olhos

os espinhos

as facas

o luar ofuscante

o sêmen escuro na boca.

Misticismo

 Escrever poemas

é o chão, as nuvens

lá fora o frio


dentro do

soneto, o sêmen na boca

o branco, o desejo, o sêmen


é a noite

é a voz escura

é escuro, sua pele, negra de sêmen.

Uma flor noturna

 Foi você

a sorte

do seu pequeno traseiro

o sol escuro

e a semente branca

na bacanal

da noite todas as noites

eles vão e dentro de si mesmos

eles estão dentro de si mesmos.

Lamento erótico

 símbolo


Bela e virginal

Eu a atraí para a noite fria dos espelhos sagrados

e emergi

do espetáculo noturno

Adeus, sol

o prazer do sol noturno havia terminado.

Expressionismo

 Vasos de chuva

Lágrimas da cidade

de sino e luz

a luz.

Crepuscular elegíaco

 Crepúsculo eterno

Vazio indizível

Vazio indizível

Sentimento musical

 Altamente musical

O orgasmo indescritível

da manhã

Me deixa sem palavras.

O que escrevo para você



Cada vez

puro

paraíso


Palavras congeladas      dentro de nós


o diamante    erótico

o vinho        da vida.

Duas luas

 duas luas

nuvens negras e brilhantes     faíscas de fogo

uma cobra escura     e negra

leite branco na boca                 da boca

Um Retrato da Humanidade



é apenas

uma espécie de

animal doente


Niilismo

As fronteiras

 olhos verdes

a parede

deliciosa

as nuvens

fantásticas


eis a poesia lírica

do pequeno buraco

da casa

rosa-escura

infinito


momentos.

Magnético delírio

 A interação do espaço, 

a matéria indomável 

das artes visuais, 


os museus fechados,

 o erotismo presente em todos nós: 

a política do espetáculo


 humano.

Ascetismo

 À beira do silêncio,

 da dúvida sobre a existência, 

do desespero diante da linguagem, 


é nosso dever: 


abrir caminho diante

 do iceberg gelado 

do coração.

Adiado o samba : eis o momento do tempo

 Você pode abrir aquela janela

 branca para mim de novo?

 Vamos, meu sorriso morto

 é só um tango.


 Minha alma

 está fria.


Eu ficaria tão feliz se você me mostrasse 

o pássaro tatuado 

no seu peito.


A memória é um

 cristal estilhaçado, 


o esquecimento.

O sonho do tempo

 O mundo é

um abismo sem fio.


Os melros

pousam nas janelas.


Os banheiros são portas cristalinas,

 labirintos místicos 

do meu corpo.


Aquele sorriso, 

aquela mão na minha cabeça.


A luxúria no chão, 

a ejaculação,

 o olhar que se desvanece.

Lua inteira

 A lua apareceu no céu,

este magnífico e inútil espetáculo.


Quem ainda vê este

círculo branco inútil,

iluminando a noite, e escreve

cartas de amor inúteis,

para você ou para mim, não importa.

Depois de Auschwitz

 Noites

em que silêncio

tecem a rosa

do profundo nada

quando ninguém nos vê?


O papel branco

sustenta a mesa!


O nada nutre

o coração.


Que frio é este

que penetra pela janela?


Não, não podem ser os mortos.

Não,          não podem ser as estrelas.


Lá fora, a vida continua a se escrever

sem se importar com nada...


...Ainda é possível escrever poesia

depois de Auschwitz,                    sim!

Mulher e máscaras africanas

 


Moça na poltrona verde

 


Moça diante da mesa

 


domingo, 26 de julho de 2026

Chipushit - Stand Up

 


Chipushit - Stand up

 


Chipushit - stand up

 


O susto gótico

 


A espantosa leitura dos noivos ou a perda do nascituro

 


Diante da paisagem chuvosa

 


Eternidade

 Escreva,

mas comece agora.


Comece com o

dia que

aparece aos seus olhos.


Repila-o.


Respire o ar siberiano que vem

do coração.


Sofra, mas sofra em silêncio.


Pense em tudo,

e anote tudo.


Se perder os dedos,

aproveite a oportunidade para usar

os ouvidos.


Mas escreva, escreva de dia, escreva de noite.


Não pense na fama vã e passageira,

nem nos canalhas que rondam esses shoppings

como baratas.


Pense e escreva sua canção.


Anote tudo. E depois de escrever,

espere. A natureza responderá: com seu vazio.

A fuga da noite

 O infinito

nesta moeda

é meramente um espelho,

perdido na

fria ausência da

percepção da existência.

A memória do mar

 O mar segue

seu ritmo

inconscientemente

sem transbordar


enquanto seus mortos gemem

e aguardam o

Juízo Final;

O Labirinto e a adaga

 


        Em uma noite úmida de 1912, às margens do arroio Ibicuí, Joaquim da Silva estancou o sangue nas mãos. A faca de cabo de osso repousava no capim, pesada de um destino irrevogável. Um homem jazia mudo a seus pés, vítima de uma discussão estéril sobre rumos de cercas e soberba. Joaquim não sentiu remorso, apenas o terror frio da lei. Naquela mesma madrugada, cruzou a fronteira a cavalo, deixando para trás o pampa infinito, os redomões e o próprio nome.

        Na Argentina, o gaúcho fugitivo morreu aos poucos. Nasceu em seu lugar um homem de óculos fundos e passos cautelosos que se perdeu nas ruas labirínticas de Buenos Aires. Habitando um cortiço sombrio na rua Florida, Joaquim — agora chamado de Efraín de los Santos — descobriu as livrarias de sebos e, nelas, a vertigem dos livros sagrados.

        A princípio, aproximou-se da Cabala por desespero: buscava uma cifra para decifrar o perdão divino ou, ao menos, a geometria de sua culpa. Passava os dias lendo traduções latinas do Zohar, tomos poloneses e comentários obscuros sobre as Sephiroth. Com o tempo, o antigo peão de lida esqueceu o cheiro de graxa e cavalo; suas mãos, antes calejadas pelo laço, amaciaram-se manuseando páginas ancestrais. A tese que urdiu no silêncio de seu quarto era vertiginosa e herética: para ele, o universo não era obra de um Deus benevolente, mas sim o anagrama imperfeito de um crime cósmico. Cada letra hebraica era uma cicatriz; cada versículo da Torá, um disfarce para ocultar o sangue derramado no princípio dos tempos. Em 1934, publicou privadamente um único exemplar de sua obra máxima: A Geometria do Caim.

        Efraín faleceu em 1948, cego e esquecido, numa penumbra que muito se assemelhava à eternidade que tanto estudara. O destino, contudo, é irônico e gosta de espelhos. Décadas mais tarde, um jovem crítico literário de Oxford, em visita a um sebo na calle Corrientes, tropeçou no volume de capa cinzenta de A Geometria do Caim. Fascinado pela prosa gélida e pela audácia metafísica do autor — que parecia antecipar Borges e Kafka com um sotaque rústico —, traduziu-o para o inglês sob o título The Caim Cipher. O livro explodiu no mundo saxão. Críticos em Nova York e Londres debateram a exaustão se Efraín de los Santos havia sido um rabino secreto, um místico louco ou um pseudônimo coletivo. Universidades criaram cátedras para estudar sua teologia invertida. 


            Ninguém jamais soube que aquele labirinto de conceitos abstratos, cifras cabalísticas e anjos de fogo não passava do eco desesperado de um gaúcho gaúcho fugindo da justiça dos homens, tentando transformar o sangue de um crime banal na tinta imortal de um segredo divino.

LABIRINTO

 Toma de mim o verso 

em português arcaico, 

para que, como Sêneca, eu possa cantar

 os dias que passam soberanamente. 

Vê o vazio da vida, 

esta estranha agitação... Não é o verme

 um deus mundano e oco do mundo? 

O melhor que se pode ser nesta estranha

 coincidência é o esquecimento. Silêncio,

 nele reside a vitória e as cinzas. Tudo 

no universo passa. Se o universo quer 

algo de nós, faz tudo para complicar 

nossos passos. A eternidade dura um

 único segundo. O barro do

 corpo agradece e chora.

Aleph

 Em meus sentimentos,

 em todos os sentimentos da          vida: aqui estou eu,

 o mesmo personagem de mim

 mesmo nestes lados da existência.

A Biblioteca de Babel

 Aqui jaz o jornal aberto, e no espelho meu rosto cansado examina as notícias de todo o Brasil: domingo chegou, sábado se foi. Amanhã, todos os dias, os dias se encontram. Tédio da existência, tédio de dormir e acordar, sonhar e beber… A manhã retorna involuntariamente e afoga tudo em meu peito. Agora, velho Walt Whitman barbudo, lembre-se de mim, longe do fim, proclama minha voz em sonhos e espelhos antigos, e tigres me perseguem ao lado de hipopótamos sonâmbulos. Em mim nascem todos os homens. Além disso, aqui está uma flor no seio de uma mulher, da qual me amamento extasiado até o fim.

BEOWULF

 Entre os anos e a passagem do tempo, a palavra que deveria dar vida a esta antiga lenda saxônica se desfaz em uma metáfora vazia. Quem chora? Quem chora? Abram os portões, é o saxão barbudo Beowulf, buscando a espada, o círculo do mundo em versos, contemplando o belo dragão com adagas femininas e sensuais. Mundo vasto de gritos, veja apenas a noite tardia de suspiros e uma faca no orgulho de todos os dilemas.

O golem

 O rabino contempla com ternura o fervor dos dias: Para criar a eterna escrita do amor, veja Deus contemplando a si mesmo num espelho numa rua da antiga capital europeia. Das rochas orientais às ocidentais, um gato canta uma anedota judaica, e em meio ao futuro, a metáfora infinita da moeda.


O golem reconhece-se um dia na vaga sombra dos olhares do judaísmo ancestral.

As manhãs marinhas

 Dos teus olhos, como o mar, vem a promessa: 

da origem destes olhos,

 todos os pescadores dos lagos do amor, 

da origem, da origem viva da manhã,

 do mar, dos teus olhos.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Lá no alto da montanha

para o bom Roald Dahl 


Lá no alto da montanha,

Acontece uma façanha:

Não é vento, nem trovão,

É um barulho comilão!


Um barulho bem xarope,

Que não quer saber de xope,

Mas gritava no caminho:

— Quero queijo! Quero vinho!


— Um pedaço bem cheiroso,

Pra dar um eco gostoso!

Uma taça bem servida,

Pra alegrar a minha vida!


A montanha deu risada

Dessa ideia aloprada:

— Som não come e som não bebe,

Mas inventa cada uma que me mexe!

A abóbora e a raposa

 No canto do mato, viçosa e feliz,

Vivia a abóbora que o mundo quis!

Tão redonda e laranja, brilhando ao luar,

Queria um amigo com quem conversar.


Apareceu a raposa, de passo macio:

"Olá, pequena abóbora, que vento e que frio!

Quer ver uma lua de doce e algodão?"

— "Sim! Vamos juntas voar no fogão?!"


Pularam tão alto, num pulo certeiro,

Voando bem longe do velho canteiro!

Subiram o espaço, deixaram a terra,

Voando por nuvens, vales e serra.


Chegaram à Lua num raio de luz,

Seguindo o caminho que a brisa conduz.

Bateram à porta, num tom de canção:

"Oi, Seu Jorge! Onde está o seu dragão?"


O bondoso Seu Jorge abriu um sorriso,

Mostrando o seu lindo e estranho paraíso.

E o dragão mascava pipoca no chão,

Brincando de roda com a abóbora e o cão... ops, com a raposa, num belo salão!

Natureza morta


à noite

as estrelas

é o seu

corpo

o nu

sonho

o vaso com o

poço

mel e leite

sol

Primitivo

 


segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Sombra de Xībānyá

 

A Sombra de Xībānyá

Há no pensamento do erudito Nàgèqīpiàn derén, radicado nas brumas de Hangzhou, essa ironia sutil e implacável que costuma desmoronar séculos de certeza ocidental com a leveza de um sopro. Segundo sua tese — vertiginosa e talvez apócrifa, o que para a literatura é a mais alta forma de verdade —, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nunca nasceu da pena de Miguel de Cervantes em sua cárcere sevilhana.

Nas margens de um exemplar raríssimo com anotações em tinta preta e vermelha, Nàgèqīpiàn derén sustenta que o vasto romance é, na verdade, a obra póstuma de Xībānyá rén de fùqīn, um burocrata menor da Dinastia Ming que fora exilado nas províncias do norte por confundir um memorial ao Imperador com um tratado sobre a geometria dos moinhos de vento.

Afirma o sinólogo que o cavaleiro errante e seu escudeiro pançudo não passam de transposições alegóricas do próprio mandarim e de seu fiel cavalo baio, perdidos nas planícies áridas da Mongólia Interior, onde as pedras pareciam exércitos e as estalagens, castelos encantados por eunucos invejosos. Para Nàgèqīpiàn derén, a Espanha de Cervantes é apenas um espelho curvo e distante da China imperial, e a loucura de Quixote, o destino inevitável de todo homem que ousa ler os clássicos em um mundo que prefere esquecê-los.

Diz-se que o manuscrito original, composto em caracteres que imitavam a rigidez dos ideogramas mas ocultavam uma gramática castelhana impossível, foi queimado por ordem de um mandarim que temia o riso. Restou apenas a sombra que hoje chamamos de Cervantes, e o eco distante de um nome que os bibliotecários de Pequim murmuram com um sorriso melancólico.

 

O Espelho e a Rosa de Gelo

 

O Espelho e a Rosa de Gelo

No crepúsculo do século XV, quando as naus de Portugal rasgavam mares até então sem nome para abismar o mundo na descoberta do Brasil, expirou na fria e brumosa Jutlândia um homem cujo nome a poeira dos cartórios apagou: Ælfwine de Wessex.

Anos antes, impelido por uma errância que nem ele próprio decifrava, este monge exilado abandonara os claustros da Mércia para buscar refúgio na penúltima Espanha — a Andaluzia dos pátios de murta e da herança fragmentada. Ali, entre o rumor das fontes e a penumbra das bibliotecas onde os arabescos conversavam com o latim torto, Ælfwine dedicou os seus dias a uma obsessão solitária: transcrever em pergaminhos exíguos a arquitetura secreta dos labirintos.

Para ele, o labirinto não era um mero artifício de pedra para acoitar o Minotauro, mas a própria forma do pensamento e do pecado. Escrevia com uma tinta diluída em vinagre que as páginas, com o tempo, pareciam corroer por dentro, como se o texto quisesse devorar a si mesmo. Afirmava que os signos — as runas nórdicas que trazia na memória e os caracteres arábicos que aprendeu a temer e a amar — eram chaves para um cofre vazio.

Quando a notícia das terras do Sul, verdejantes e imensas, chegou aos portos ibéricos, Ælfwine já sentia o gelo do Norte a subir-lhe pelas mãos. Sendo ele próprio um labirinto cansado, empreendeu a última viagem para morrer na Dinamarca, terra de seus ancestrais que já não o reconheciam. Deixou apenas um opúsculo anônimo, copiado por mãos trêmulas, onde se lia a tese vertiginosa: Deus criou o universo para que coubesse num livro; o homem, para escapar da morte, perdeu-se nos labirintos que desenhou, sem saber que o centro de tudo é, irremediavelmente, o nada.

A noite esfria

cavalos trotando

na noite fria

esfriando a bacia

na pia o pano

Ouça o poema aqui!


Existirmos

 Beijos de mel,


sim,

e lá fora, na terra,

claro,


e a dor aqui,


sim,


e os cavalos

no pasto,

não poderia ser,

o sorriso da lua?


Finalmente, quem conhece o dom, nada visível, a morte

Destino

onde?


a lua repousa

naquele sonho

água e gelo

o fogo do sol

a estrela cai

o olhar são as cinzas da

terra

דמות חופשית - לאחר השואה

 


Miklat

 O ponto em que ocorreu o silêncio sempre esteve presente na fala.

Balila

 A noite brilha, 

esculpida no mar; 

aqui estão as estrelas; 

as luzes.

Pequena Noite na Valsa

 Era o fogo vivo

dos beijos,

que passaram


a chuva refrescou

nossos olhos

com o mel do seu

colírio


Você gostou? Em sonhos

e então passou,

ó rocha de óleo nua.

Navegación



¡Círculos espirituales, observen!


El despertar místico de antiguas deidades paganas.


Contemplen la naturaleza amarga y fría,

que nos acecha y nos aplasta.