Olhar para o pensamento de Gilberto Freyre sobre o povo judeu é, antes de tudo, compreender a sua fascinação pelo que ele chamava de "o rastro do cristão-novo" na carne e na alma da gente brasileira, pois para o mestre de Casa-Grande & Senzala, o judeu não era um elemento estranho ou um corpo estranho incrustado na nação, mas sim uma das forças mais plásticas e adaptáveis que ajudaram a amolecer a rigidez do colonizador português, trazendo consigo uma aptidão para o comércio, para a técnica e, sobretudo, uma bonomia urbana que contrastava com o ruralismo xucro dos primeiros engenhos, de modo que Freyre via no "sangue infecto" — termo que ele usava com ironia histórica para desarmar os preconceitos da Inquisição — um dos temperos fundamentais da nossa capacidade de síntese, acreditando ele que o judeu se tornou, no Brasil, mais um dos componentes daquela "democracia racial" (conceito hoje tão debatido, mas que nele era uma aspiração estética) onde o misticismo semita se dissolveu na sensualidade do trópico.
Diferente de Saramago, que olhava para o judeu sob a ética da política e do conflito, Freyre olhava sob a ótica da cultura e da biologia social, interessando-se imensamente pela figura do "marrano" que, ao esconder a sua fé, acabou por impregnar o catolicismo brasileiro de hábitos e trejeitos sutilmente judaicos, desde o asseio pessoal até certas melancolias do espírito, e por isso ele defendia que o Brasil era, em certa medida, um prolongamento dessa vocação hispânica de convívio entre sangues diferentes, onde o judeu, longe de ser o "outro" absoluto, era o primo distante que trouxera a inteligência das cidades para dentro da mata, ajudando a criar uma civilização que, no entender de Gilberto, era superior por ser impura, por ser mestiça, e por ter tido a audácia de transformar o dogma em estilo de vida, o que o levava a manifestar uma simpatia intelectual profunda pelo Estado de Israel em seus primórdios, vendo ali não apenas um projeto político, mas a ressurreição de uma energia criadora que ele reconhecia nos traços de muitos patriarcas do nosso próprio Nordeste.Para Saramago, o judeu é o protagonista de um drama moral universal. Ele não aceitava que a vítima de ontem se tornasse o opressor de hoje. Sua crítica não era ao "ser judeu", mas ao "agir como oponente da humanidade". É uma visão externa e política, pautada pela indignação do homem que não admite privilégios éticos.
Para Freyre, o judeu (especialmente o sefardita/cristão-novo) é uma "pedra de toque" da brasilidade. Ele estava interessado em como o judaísmo "amoleceu" o caráter lusitano e nos deu a nossa bonomia e inteligência comercial. É uma visão interna e cultural, pautada pela admiração do sociólogo que celebra a mistura e o convívio.
Em suma: Saramago via no judaísmo moderno um problema de consciência; Freyre via na herança judaica um trunfo de civilização.
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