segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Nascimento


Entre muros úmidos, nasce a sombra,
não a criança.
O parto é um sino negro
tocando dentro da pedra.

Há cal nos olhos do dia,
e o sangue aprende a ser silêncio
antes de ser nome.
Um lírio apodrece no berço do tempo.

Os muros respiram morte:
têm veias de musgo,
têm ouvidos que escutam
orações quebradas.

Nasce —
mas nasce como quem cai
num poço de luz morta,
onde a alma se veste de ruína.

A cidade vela o recém-chegado
com panos de poeira e culpa.
Cada passo futuro já é um túmulo
aprendido no escuro.

E no entanto —
entre a fissura da muralha,
um clarão febril insiste:
viver é sangrar símbolos.

Assim, do ventre da noite,
entre pedras e ossos,
o nascimento se ergue:
uma morte que aprende a respirar.

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