Entre muros úmidos, nasce a sombra,
não a criança.
O parto é um sino negro
tocando dentro da pedra.
Há cal nos olhos do dia,
e o sangue aprende a ser silêncio
antes de ser nome.
Um lírio apodrece no berço do tempo.
Os muros respiram morte:
têm veias de musgo,
têm ouvidos que escutam
orações quebradas.
Nasce —
mas nasce como quem cai
num poço de luz morta,
onde a alma se veste de ruína.
A cidade vela o recém-chegado
com panos de poeira e culpa.
Cada passo futuro já é um túmulo
aprendido no escuro.
E no entanto —
entre a fissura da muralha,
um clarão febril insiste:
viver é sangrar símbolos.
Assim, do ventre da noite,
entre pedras e ossos,
o nascimento se ergue:
uma morte que aprende a respirar.
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