quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Os Judeus da Índia: Ensaio sobre Permanência, Adaptação e Hierarquia

Há povos que atravessam os séculos como viajantes inquietos, sempre em trânsito, sempre estrangeiros; e há aqueles que, mesmo estrangeiros de origem, acabam por se enraizar tão profundamente na terra que os acolhe que se tornam parte orgânica do seu solo, do seu cheiro, da sua cor. Os judeus da Índia — especialmente os de Cochim — pertencem a essa segunda categoria: não são apenas judeus no exílio, mas judeus tropicalizados, indianizados, moldados pelo monção, pelo tempero, pela ordem social do Malabar.

Câmara Cascudo, observador atento das permanências culturais, via nessa comunidade uma prova viva de que a história não se escreve apenas nos centros imperiais, mas sobretudo nas margens, nos portos secundários, nas zonas onde o tempo parece correr mais devagar. Para ele, a Índia funcionava como um grande arquivo vivo, um conservatório de gestos e ritos que o Ocidente, com sua pressa moderna, esqueceu ou apagou.

Não lhe escapava o fascínio pela antiguidade quase mítica dessa presença judaica. A possibilidade — lendária, mas persistente — de contatos desde o tempo de Salomão não era, para Cascudo, mero devaneio orientalista, mas expressão de uma verdade mais profunda: a vocação marítima do judaísmo antigo e sua inserção precoce nas rotas do comércio do Índico. Mais segura, porém, era a memória da chegada após a destruição do Segundo Templo, quando a diáspora se espalhou como sementes lançadas em diferentes solos, germinando conforme o clima e a cultura de cada lugar.

E foi justamente esse processo de germinação cultural que mais interessou ao etnógrafo potiguar. Em Cochim, o judaísmo não se manteve intacto como peça de museu; adaptou-se, mimetizou-se, vestiu-se de Índia. Falava-se o judaico-malaiala, cozinhava-se com coco e especiarias sob a vigilância da Cashrut, celebravam-se festas hebraicas em casas cuja arquitetura obedecia aos padrões locais. A religião permanecia; o corpo social, entretanto, transformava-se.

Talvez o aspecto mais revelador dessa adaptação — e aqui Cascudo se aproxima do método comparativo de Gilberto Freyre — seja a divisão interna da comunidade entre judeus pretos e judeus brancos. Não se trata apenas de uma distinção de origem ou de cor, mas de uma verdadeira estratificação social, uma transposição quase inconsciente do sistema de castas indiano para dentro de uma religião que, em tese, proclama a igualdade dos filhos de Israel perante a Lei.

Os judeus malabari, antigos, escurecidos pelo sol e pelo cruzamento secular com populações locais, eram vistos como inferiores pelos judeus paradesi, recém-chegados da Europa ou do Oriente Médio, portadores de um prestígio associado à brancura, à erudição rabínica e à memória ibérica. A sinagoga, espaço do monoteísmo, tornava-se também espaço de hierarquia, onde o meio tropical e a ordem social indiana impunham sua lógica silenciosa.

Cascudo via nesse fenômeno não um desvio moral, mas um dado sociológico: nenhuma religião atravessa os séculos imune ao ambiente que a acolhe. Assim como o catolicismo brasileiro se africanizou e se indianizou nos engenhos e nas senzalas, também o judaísmo de Cochim se deixou moldar pela Índia, absorvendo suas divisões, seus códigos de pureza e sua noção quase orgânica de lugar social.

Há, nesse olhar, uma ausência quase total de julgamento teológico. O judeu da Índia interessa a Cascudo não como guardião da ortodoxia, mas como testemunho humano da resistência cultural. Ele é, ao mesmo tempo, fóssil e organismo vivo: conserva ritos antiquíssimos, mas respira o ar quente do Malabar, come sua comida, fala sua língua, aceita — ainda que com desconforto — suas hierarquias.

Não é casual que Cascudo, sempre atento às margens do Brasil colonial, buscasse conexões invisíveis entre esses judeus da Índia e os cristãos-novos do Nordeste. Em ambos, ele percebia uma mesma lógica de sobrevivência: a fé que se oculta, se adapta, se disfarça, mas não desaparece; a tradição que resiste não pela rigidez, mas pela flexibilidade.

Quando, já no século XX, essas comunidades começam a esvaziar-se, migrando para Israel, Cascudo registra não apenas um deslocamento demográfico, mas uma perda cultural irreparável. Não desaparece apenas um grupo humano; dissolve-se uma forma singular de ser judeu, moldada por dois milênios de convivência com a Índia.

O judeu de Cochim, nesse sentido, não é apenas personagem da história judaica ou indiana. É um documento vivo da capacidade humana de permanecer sendo outro sem deixar de ser si mesmo. Um lembrete — caro tanto a Cascudo quanto a Freyre — de que a cultura não é pureza, mas mistura; não é isolamento, mas convivência prolongada com o diferente.

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